- Então a velha Alice me perguntou: o senhor topa?
Manuel Carvalho está prestes a completar noventa anos e é o viúvo da “Velha Alice”, na verdade, Maria Alice Pessôa, jovem viúva do seu tio-marido, o coronel João Pessôa de Albuquerque (do Rio Grande do Norte e parente do da Paraíba, aliás, dizem que a família Pessôa é uma só, com acento circunflexo ou não). Viúva também de seu grande amor, o também coronel (Arra! Que é muito coronel naquela terra!!!) e também Manuel, só que Ferreira - Manuel Ferreira.
Alice era jovenzinha de 18 anos e noiva do pequeno proprietário de terras, Manuel Ferreira, igualmente jovem. Acontece que ela morava com velhos parentes muito pobres e, diante do desejo do sessentão Coronel João Pessôa de Albuquerque, de se casar com ela, seus parentes sucumbiram, afinal, o Coronel era o mantenedor de toda a família.
- Ela não vai se recusar, sabe que a gente precisa. E, além do mais, ela também deve favor ao Coronel, afinal, quem é que sustenta essa família?
Mas Alice estava apaixonada por Manuel Ferreira, daquelas paixões deliciosas da juventude, pela qual somos capazes de tudo. Naturalmente, ela se recusou. De personalidade rebelde toda a vida, Alice trancou-se no quarto e disse:
- Não caso não. Só caso se for com Manuel Ferreira.
“Ela casa sim!” Disse o parente.
- Espere só a fome bater! Ela sai correndo do quarto e casa com o Coronel.
- Alice! Deixe de arenga, menina!!!
Paciente, o Coronel esperou algumas semanas, durante as quais, tratou de dar uma ajudinha (sabe-se lá qual...) para o noivo Manuel Ferreira desistir do casamento e sumir da cidade.
Alice Pessôa e o seu Coronel de Albuquerque casaram sim e tiveram dez filhos, dos quais apenas três “se criaram”, e Manuel Ferreira partiu para o Amazonas, permanecendo lá por muitos anos, solteiro e fazendo sua fortuna. Voltou quando soube do assassinato do Coronel e da viuvez da sua amada, agora herdeira de grande patrimônio deixado pelo tio-marido.
Casaram os dois e foram felizes para sempre. Infelizmente, porém, o “para sempre” durou apenas cinco anos. Jurado de morte por brigas de terras, Nel Ferreira foi assassinado quando voltava da vila com os fogos de artifício para a festa de São João.
Uma tristeza para Alice, ainda jovem de seus trinta e poucos anos. Jurou que não casava mais. Entretanto, com mais um filho - este de Manuel Ferreira – e um grande patrimônio em terras para administrar, foi aconselhada por um parente a se casar novamente, pois não tardaria a ter suas fazendas saqueadas.
- Mas casar com quem?
Manuel Carvalho era um jovem comerciante, quinze anos mais novo que Alice – que já passava dos 35 -, muito bonito e promissor. Foi a indicação do parente que, agora, entretanto, não podia mais impor um marido a ela, mas apenas indicar.
Alice foi à bodega de Manuel Carvalho que ficava em frente à sua residência na pequena São Miguel (RN). Ela já havia percebido os flertes do rapaz, mas desviava o olhar sempre que ele insistia em ir à frente da loja quando a via na janela.
Quando chegou lá, Manuel era só sorrisos para com a viúva. Encostada num canto perto do balcão, uma caixa chamou a atenção de Alice. Estava cheia de louças e utensílios de cozinha. Manuel Carvalho havia desfeito recentemente o noivado com uma moça da cidade e alguns objetos ainda permaneciam na caixa.
- O que são estas coisas? – Perguntou Alice. – O senhor vai se casar?
- Vou sim. – Respondeu todo galante.
- E eu posso saber com quem o senhor pretende se casar?
- É com a senhora mesmo.
Manuel pensou que surpreenderia a jovem senhora com sua afirmação, mas tomou um susto quando ela lhe respondeu segura:
- Só se for hoje mesmo. Um casamento à americana, à meia-noite na sacristia da Igreja, só o senhor e eu e as testemunhas, o senhor topa?
Sabe aqueles três segundos na vida da gente que fazem a enorme diferença pelo resto das nossas vidas? Pois foram estes os três segundos de Manuel Carvalho, mas foram muito mais do que ele precisava para responder.
- Topo.
E se casaram, em 29 de setembro de 1938, naquela Igrejinha lá de cima, hoje reformada.
Ah, Manuel Carvalho conta, ainda, que passou vários dias recebendo a visita de Tiburcinho Sacristão, que ia lá na bodega a mando do padre, sempre para receber por uma taxa, por conta do casamento “à americana”.
- Era taxa de urgência, de pendência, de anuência... Haja paciência!!! Um dia, fui lá na Igreja e chamei o Padre. Olha aqui, disse eu pra ele, o senhor me diga aí quanto é que eu lhe devo que eu vou lhe pagar agora é tudo de uma vez. Vamos acabar com esse negócio de Tiburcinho estar todos os dias lá na bodega catando dinheiro, que com isso aí já se vai uma fortuna.
O padre se aquietou e deu-se por satisfeito com mais alguns réis. Este mesmo padre batizou seis dos dez filhos que Alice teve com Manuel Carvalho. Os outros quatro não sobreviveram.
Alice nasceu em 1903 e morreu aos 67 anos.
Me pergunto: quantas Alices não existem por esse Brasil????
Parabéns, voltarei.
Coronel Carvalho, coronel Albuquerque.....ihhhhhh me perdi na historia............rs (ou tera sido vc ?)
bom, de qquer forma.....nordeste é assim mesmo.....
casam-se entre parentes.....ou por "sugestao" dos pais, rs
legal o conto.
bjsssss;)
Alice com tantos
e eu aquie encalhada.......ve se pode ? rs
votos e
bjsssss;)
Nossa,
quanta facilidade para casar
tá parecendo Alice no país das maravilhas.
belo conto!
bjs
Voltei, reli e adorei! Votadíssimo. Lindo. Parabéns! Histórias assim acontecem pelo Brasil afora....Bjs.
Vives · Porto Alegre, RS 13/4/2009 21:55
Gostei e votei! Bonito texto.
Um abraço afetuoso, Faraó
So nao digo que e Alice no pais das maravilhas, porque esta estoria se passou no Brasil.
parabens
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