- Desembucha, verme... Não tenho todo o tempo do mundo, daqui a pouco vai começar o jogo do Timão.
Acuado num canto da pequena sala, (duas cadeiras de palhinhas trançadas, um armário de aço, uma escrivaninha, um cabide de ferro na parede, um coldre vazio no cabide, um
vitrô dando para um salinha do lado, outro vitrô um pouco maior pra rua...), o rapaz de aparência humilde olha pros bicos dos dedos dos pés, salientes no chinelo de dedos. Em sua frente com cara de poucos amigos e uma grande âncora tatuada no bíceps esquerdo; o agente, pernas um pouco arqueadas, gesticula quase esfregando o dedo na cara do seu interlocutor que permanece com as mãos, pendidas na frente do corpo esquálido, presas por algemas.
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- Acalme-se senhor, finja que está entre amigos comentando um acontecimento corriqueiro. Relaxe, e quando quiser começar...
Seus advogados já o haviam instruído: respostas monossilábicas, nada de gestos bruscos, e sempre tratar o outro de doutor.
Sentado numa poltrona de couro escuro o rapaz; aparentando uns trinta e dois anos bem vividos; traja uma camisa manga longa de cor azul turquesa, com as mangas dobradas e
sem gravata, calça de sarja de cor clara e de bom corte, e sapatos pretos de amarrar.
A sala não esconde seus requintes: janelas grandes de correr sustentam persianas; paredes bem pintadas, na do fundo o retrato do presidente; uma mesa em forma de "L" com uma cadeira de braços, giratória, e um computador última geração com tela de 17 polegadas; outra mesa menor no fundo à esquerda, cadeira de braços e também tela de 17; armários de madeira de lei cobrem parte da parede do lado direito um pouco acima de um balcão também de madeira repleto de troféus, medalhas e algumas pequenas estatuetas de pedra sabão ou metal; um desnecessário aviso sobre a mesa maior: não fume, escrito embaixo de uma imagem de cigarro cortada em xis; o ar condicionado, ligado todo o tempo, completa o cenário.
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Acaloradamente o inspetor Dantas discursa seus tantos anos dedicados de alma e tempo integral à nossa polícia servil aos concidadãos respeitosos do nosso querido município.
E gesticula e se faz ouvir pelos centos outros colegas confortavelmente instalados em cadeiras de madeira maciça do auditório do Teatro Fulano de Tal. E virão outros e mais, quase sempre a exaltar seus feitos pessoais diante da imagem de uma instituição séria e democrática voltada tão somente em prol do bem estar e da segurança do povo e do estado que ela representa. O auditório está literalmente tomado em todos os seus assentos pelos profissionais da segurança por pessoas comuns vendedores jornalistas, nas galerias nos camarotes passadiços, num frenesi de feira livre de festa popular.
A bancada das autoridades; em frente e ao fundo da construção em estilo robusto e de linhas geométricas quase como um galpão de cereais; congrega superiores das duas Policias, do Ministério Público, o prefeito o bispo benemérito o secretário de segurança o presidente do Rotary o presidente da Câmara de Vereadores o vice-governador e alguns outros partícipes de autoridade menos abrilhantada. O presidente do Rotary preside também a bancada. Do lado uma mesinha menor onde uma secretária se esfalfa a inscrever arautos de plantão, sequiosos de mostrar seus préstimos e ou porventura engrandecer seu acervo particular.
O assunto do debate é a integração das Polícias e a iminente diferença de conduta entre os pares dessas instituições, e o descaso de alguns com a casa que guarda.
Chegada a hora de falar as autoridades; na ordem um e o outro das Polícias o do ministério outros, por fim o prefeito o bispo o vice-governador o secretário de segurança.
Alguém mostra num filme a realidade díspar de delegacias da cidade, os presentes se acotovelam num burburinho de opiniões diversas.
A discussão decerto colocara mais lenha na fogueira e vararia ainda muitas horas dias anos, “...uma eternidade” escreveria um repórter de vespertino presente...
Alguém mostra num filme a realidade díspar de delegacias da cidade...
"...uma eternidade" escreveria um repórter de vespertino presente
um bom texto amigo.
depois eu volto.
Gostei amigão do seu texto que agora será nosso. Depois eu retorno para o voto. Valeuuu
José Cycero · Aurora, CE 14/3/2009 20:09Você é também um bom contador de história. Admiro o seu jeito de escrever e tomo a liberdade de dizer que gosto mais da sua poesia. Bjos.
graça grauna · Recife, PE 15/3/2009 10:45
Bom dia Carlos,
B om texto
V c retrata muito bem a realidade de um ambiente viciado
onde a classe dominante dita as regras e o resto é só o resto.
...nada se resolve... uma eternidade!!!
Bjs
Ameiiiiiiiiiii,seu conto
Realidade nua e crua
Beijos
Um clique fiel e prestimoso da eternidade humana.
Deixo meu abraço e votos.
Assunto polêmico e digno de maiores reflexões.
Parabéns!
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