Romeu e Julieta (1595, William Sheaspeare), Tristão e Isolda (séc. XII, lenda tradição celta, 1ª. versão escrita por Béroul, na França), D. Quixote e Dulcinéia (1605-1615, Miguel de Cervantes), Abelardo e Heloísa (1116-1164, história real acontecida em Paris, recontada em verso e prosa pro diversos autores), Páris e Helena de Tróia (mitologia grega), Pedro e Inês de Castro (1325-1355, história real acontecida em Portugal, contada em versos por Camões no Canto III de Os Lusíadas e em verso e prosa por diversos autores). A maioria, pura ficção. O leitor poderá se lembrar de outros casos de amor contrariado. Contudo, será por que casos de amor contrariado tanto fascinam, a ponto de atravessarem os séculos e até hoje fazerem parte do imaginário popular, como se tivessem ocorrido ma vida real?
Pretendo aqui comentar apenas dois deles, escolhidos em razão de algumas coincidências entre seus autores: Miguel de Cervantes e William Shakespeare, que viveram na mesma época e, segundo registros históricos, podem ter morrido no mesmo dia: 23 de abril de 1616. Cervantes nasceu na Espanha, foi militar e escritor. Escreveu romances, poemas e peças de teatro. Morou em Roma e participou de campanhas militares em diversas cidades da Itália lutando contra as tentativas de invasão turca no ocidente. Estudou filosofia e literatura italiana. Sua obra mais conhecida é D. Quixote (O engenhoso fidalgo D. Quixote de La mancha). Estima-se que esse seja o livro mais editado e lido no mundo, depois da Bíblia. Cervantes teria escrito parte de D. Quixote em cinco anos, num período em que esteve preso.
Ao ler o romance D. Quixote, o leitor depara-se com diversas histórias e com centenas de personagens que se cruzam com os personagens principais, D. Quixote e seu “escudeiro” Sancho Pança, em suas andanças pela região da Mancha, na Espanha, na intenção de minimizarem o sofrimento e as injustiças por que padecem os mais fracos e necessitados. Dentre essas histórias, pode-se destacar um caso de amor contrariado, uma vez que platônico, de D.Quixote pela donzela Dulcinéia Del Toboso. Sem companheira e na necessidade de ter alguém a quem ofertar suas almejadas glórias como cavaleiro errante, D. Quixote escolheu uma vizinha camponesa, Aldonza Lorenzo, como a donzela de seus sonhos, sem ela nada saber e lhe deu um nome de nobreza, Dulcinéia Del Toboso. Então, entre conflitos idealistas imaginários, tudo faz em nome de seu amor fantasiado. Até mesmo enfrentar cerca de quarenta moinhos de vento como se fossem gigantes inimigos, “encomendando-se de todo o coração à sua senhora Dulcinéia” .
Shakespeare nasceu na Inglaterra. Foi escritor de peças teatrais que são representadas até hoje nos palcos de todo o mundo. Em suas obras, ele trata dos mais profundos sentimentos humanos: ódio, ambição, ciúme, paixão... Há historiadores que registram que Shakespeare teria vivido na Itália por alguns anos como “criptocatólico”, fazendo inscrições em livros de peregrinos. Pode ser que tenha sido em razão de haver passado esse tempo na Itália que tenha escolhido cidades italianas para cenário de suas peças: Verona, Veneza, Milão, Florença, Pádua, Roma, etc.. Romeu e Julieta é uma de suas obras mais admiradas e se passa em Verona. Conta a história de um amor arrebatado entre Romeu e Julieta, jovens perdidamente apaixonados, que foram impedidos de se casarem por causa da rivalidade entre suas famílias. A narrativa termina com a morte trágica dos dois.
D. Quixote e Dulcinéia, Romeu e Julieta são personagens de casos de amor impossível que foram escritos há quatrocentos anos e que ainda são contados! Por que será que amores certinhos, tipo “felizes para sempre” não são eternizados nas histórias? (Ficam apenas nos contos de fadas, que terminam justamente onde começa uma nova história: a que deverá ser ou não a realização do amor entre os personagens.) Nestes quatrocentos anos, D. Quixote e Romeu e Julieta foram objeto de inspiração para as mais diversas manifestações de arte: teatro, poesia, cinema, pintura, escultura, música, dança, artesanato.
Ainda hoje, em Verona, cidade dos namorados, a “Casa de Julieta” é visitada por turistas. Pessoas com o coração despedaçado costumam deixar lá, pregados na fachada da casa, recados para Julieta, pedindo conselhos sobre seus casos de “amor contrariado”. Conta-se que todos esses bilhetes ou cartas são respondidos pelas “secretárias de Julieta”- voluntários que se propõem a perenizar uma história de amor que dura quatro séculos.
Em El Toboso, região de Toledo, Espanha, na “Casa de Dulcinéia”, casa em que Cervantes inspirou-se para criar sua personagem, foi instalado um museu onde os turistas podem ver objetos da época em que D. Quixote perambulou pela região.
E assim, a literatura vem criando espaços reais para personagens fictícios que viveram casos de amor impossível, contrariado.
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“O amor eterno é o amor impossível./ Os amores possíveis começam a morrer no dia em que se concretizam.” (Atribuído a Eça de Queiroz, Portugal, 1845-1900)
“Tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes, mas os contrariados.” (Gabriel Garcia Márquez, em Memórias de Minhas Putas Tristes. Nasceu na Colômbia, 1928.)
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