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Causas e Efeitos

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Circus do Suannes · São Paulo, SP
2/9/2009 · 17 · 6
 

Quando o Zidane, em plena Copa de Futebol, mostrou para todo o mundo o tamanho do seu pavio, alguém se deu o trabalho de procurar traduzir o comentário que o alvejado lhe havia feito. Era coisa de mãe ou irmã. Justificava?
Tempos atrás, um dos nossos selecionados craques, quando um jornalista o acuou com perguntas atrevidas, exibiu o relógio que trazia no pulso e argumentou: pra teu governo, este relógio vale mais do que o apartamento em que tu mora. Diz-se que alguns atacantes já utilizaram de argumento semelhante para humilhar o marcador do time adversário: o que eu ganho num dia você não ganha em um ano! E depois reclamam das botinadas.
Certo dia um jogador de futebol provocou um auê danado lá no Nordeste porque, sendo expulso injustamente de campo, foi vaiado pela torcida adversária. Ora, vaia de adversário é elogio. Pois ele, que teria feito um gesto obsceno, foi preso, algemado e literalmente expulso do estádio. Na verdade, o que ele queria, segundo diria seu advogado, se fosse eu, era mostrar ao público o dedo médio da mão direita, que, havendo sido lesionado em campo, ele não conseguia dobrar. Vejam o que me fizeram! O pobre rapaz foi mal-entendido, e o caso foi parar na delegacia de polícia, com direito a Juizado Especial e as famosas e providenciais cestas básicas como pena alternativa. O que me faz lembrar de um dentista que, havendo cometido um crimezinho qualquer, foi condenado a prestar serviços comunitários semanalmente, cuidando dos dentes de favelados por uma hora. Mas, doutor, eu já fico a tarde toda do sábado na favela fazendo isso! sussurrou-me ele. Pois de agora em diante ele deveria encarar aquilo como pena alternativa. E não se fala mais nisso.
O trio Cláudio, Luizinho e Baltazar fez a alegria de muitos corintianos nos anos 40/50. Um desses jogadores, ao que se dizia, tinha um irmão homossexual, o que, naquela época, não era coisa tão comum como hoje. Ou, pelo menos, não era algo de que as pessoas se orgulhassem, como parece ocorrer nos dias atuais, com direito a parada de trânsito e tudo o mais. Pois alguns marcadores passavam o jogo todo sussurrando no ouvido do craque os pormenores dos encontros amorosos que teriam tido com o irmão do corintiano, inventando as histórias mais abjetas e, com isso, conseguindo, não poucas vezes, obter o descontrole emocional do craque e sua expulsão de campo. Certo jogador do São Paulo, bem mais forte do que o corintiano, certa ocasião recebeu foi uma tijolada na testa. Tudo, certamente, por causa da tal provocação.
Ironicamente, hoje é o São Paulo Futebol Clube que faz vistas grossas ao modo de andar de um de seus craques, que, segundo dizem. Bobagem. O Johnny Depp, ao ser convidado para ser o pirata do Caribe, impôs ao diretor uma condição: ele correria rebolando, com os braços dobrados e as mãos sendo agitadas no ar. Resultado: a série já vai para o quarto episódio. E ele nem bate escanteio.
Heleno de Freitas foi uma figura lendária no futebol brasileiro, com uma biografia que merece um belo filme. Pois alguém, naqueles idos e vividos tempos, resolveu compará-lo a Rita Hayworth, que, na ocasião, estrelava o filme Gilda. Nunca houve uma mulher como Gilda dizia o apelo publicitário. Nunca houve alguém como Heleno de Freitas disse um admirador do craque do Botafogo, talvez ligado ao famigerado Clube dos Cafajestes. Foi o que bastou para que a torcida adversária o apelidasse de Gilda.
Heleno apresentava claros sintomas de um crescente desequilíbrio mental, fruto, ao que parece, da sífilis. Vários incidentes são narrados em sua biografia, onde se verifica que a doença se somou à sua notória megalomania, vindo ele , por fim, a ser internado numa clínica psiquiátrica, onde morreu. Não tinha ainda atingido os 40 anos de idade. O mais famoso incidente, autêntica gota d’água, foi algo muito mais constrangedor do que a cabeçada do Zidane na Copa do mundo. Em um FlaFlu qualquer, Heleno vinha infernizando a defesa do time adversário. Era preciso contê-lo, antes que aquilo se transformasse em uma humilhante goleada. Foi quando a sempre irreverente torcida resolveu gritar em um retumbante e sonoro grito o apelido do excepcional craque. Aquilo foi elevando a pressão sangüínea do nosso Heleno de Freitas que, a certa altura, qual um Zizou sul-americano, volta-se de costas para a platéia, baixa o calção e lhes mostra seu alvo traseiro.
Dizem que o seu arrière, como então se dizia, era mais bonito do que o da Rita Hayworth.
Quem viu, viu; quem não viu...

Sobre a obra

Esse preconceito é mais antigo do que o mundo.

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Doroni Hilgenberg
 

Oi Adauto
Pois é, pois é...
além do preconceito, uma enorme inversão de valores não?
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 2/9/2009 20:41
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Zé Preá
 

Voltei, mestre, pra lhe fazer uma visitinha e dou de cara com o rebolado do Richarlyson. Gostei muito do artigo. Do rebolado, nem tanto! Abraços

Zé Preá · Recife, PE 2/9/2009 22:52
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raphaelreys
 

O pior mal que pode acontecer com o homem é o preconceito!

raphaelreys · Montes Claros, MG 3/9/2009 09:06
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Cintia Thome
 

Que coisa, em todo lugar essa coisa monstruosa
que acaba deixando todos infelizes...Vergonha mesmo
abçs

Cintia Thome · São Paulo, SP 4/9/2009 09:03
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clara arruda
 

deixo minha leitura e um grande abraço

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 4/9/2009 13:33
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Cintia Thome
 

Belo texto, indignação plena.
Valores que não se afloam tanto ou mais..
ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 5/9/2009 10:53
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