(EDVALDO,E SÕ CHICO,TRANÇA UM CORDÃO DE SÃO FRANCISCO.
É COSTUME LÁ NO INTERIOR DO NORTE DE MINAS).
SÔ CHICO_(FALANDO E TORCENDO CORDÃO):
-Tem uma coisa que tô doidim pra perguntar procê,já tem um tempão...
Num foi ocê quem desonrou a menina,foi?
EDVALDO:_Achei que fosse o senhor.Não foi não?
SÔ CHICO:_ De quem terá sido a proêsa moço?
EDVALDO:_ Isto lá são horas de falar d'um assunto desses,seu Chico? Mexer numas coisa assim sem mais nem menos.
Deixa isto p'ruma outra hora.Agora a mente da gente tá chorosa.
SÔ CHICO:_É.Tá com a razão!...que malvado teria feito isto com um rapaz tão bom?Matar, e deixar o coitado dependurado nu,num galho de mangueira.Ali,amarrado pelo pescoço, mostrando as vergonhas pra quem quisesse ver.
EDVALDO:_É um sujeito perveso e sem coração.
SÔ CHICO:_ Aí dele se eu pegar na gola de sua camisa.Nem sei o que vou fazer primeiro.Se é cortar-lhe a língua,ou o seu instrumento de homem.Pra nunca mais fazer fi.
EDVALDO:_ Se é eu quem pego primeiro...corto-lhe as carnes com uma faca bem sega e quente de fogo.Bem esquentada até sair brasa.Vou cortando assim,pedacinho por pedacinho.O sujeito gritando e eu cortando sem dó.
SÔ CHICO:_Eu,enfio a cabeça dele numa talha cheia d'água.
Vou afogando o macho aos pouquinho,até ele pedir pra eu parar.Mas,eu não paro.
EDVALDO:_Maldade,sou eu quem sei fazer,e bem feito.Amarro as pernas dele numa forquilha:pelado.Vou batendo na bunda dele com vara de marmelo,até o sangue sair.
SÔ CHICO:_Pará Divaldo! desse jeito a gente fica enfezado e não chega a lugar nenhum.
EDIVALDO:_ O senhor tem razão.Ah se eu pego!...(OUVE-SE UM LADAINHA AO FUNDO QUE VAI AUMENTANDO AOS POUCOS ATÉ TOMAR CONTA DO ESPAÇO.SÃO VOZES DO CANTO DE MULHRES)
SÔ CHICO:_Tá chegando a hora do enterro saí. É a pior hora.É quando está se aproximando o momento das despedidas.Se é dos outros,tudo bem.A gente sente.
Um da família da gente!!!...ninguém imagina que a coisa possa acontecer com um dos nossos,não é mesmo Divaldo?
EDVALDO:--E já tem gente cambaleando no quintal.
Ô gente que adora se lambuzar nas costas dos outros.Enterro aqui,mais parece festa.
SÔ CHICO:_Um rapaz tão bom! meu Deus,será que ele merecia esta morte?
EDIVALDO:_E,quantos filhos o senhor deixou sem pai,né seu Chico?
SÔ CHICO:_É diferente Divaldo!O motivo era justo.Uns filhos desnaturados que não valia a palha do meu arroz.
EDVALDO:-- E tem justiça aqui neste mundo de meu Deus Sô Chico?
SÔ CHICO:_ Cê tá mexendo numa coisa,que nem é preciso mexer numa hora desta.Vamos lá Divaldo.A gente continua essa conversa danosa depois.É a hora de tampar o caixão.As mulheres,estão cantando o canto de saída.Vamos lá.Para um pai,perder um filho, não doí tanto.Mas,pra Merecia é pior.É mãe. Um filho perder a mãe não é doloroso demais.Agora pra uma mãe perder um filho é que é lascado.Vamos lá! É a hora do derramamento de lágrimas.Vou ter que dizer adeus ao único filho que saiu de mim.E é pra nunca mais ver.Vamos lá Divaldo...vamos lá!
Agora começamos a ação de fato do texto.
Lá no interior de Minas Gerais "VALE DO JEQUITINHONHAS" Bem pelo norte.Há um costume, que quando vela o defundo,come- se muito,bebe- se cachaça e torce um cordão são franciso pra amarrar na cintura do morto.As mulhres rezam e cantam a noite inteira.No meio do terreiro uma foqueira é acesa pra aquecer a todos que vem de muito longe velar o defunto.Isto é: era quando eu era menino lá.Hoje não sei se o costume ainda vigora por lá.Mas descrevi aqui por achar uma forma interessate de se fazer um funeral.
...e muita ação, diga-se de passagem !
um beijo !
sempre com um bom nível de qualidade, abraçosssss
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 20/3/2009 17:15
...Como nasci em interior,lembro muito bem dos velórios que eram chamados por lá de ''sentinelas''eu bem novinha adorava qdo morria alguem[que pecado!]pra passar a noite comendo,bebendo e paquerando,não tinha noção da dor da perda ainda...Mas deve ter mudado esses costumes
Voltarei
Um beijo
...lendo a sua narrativa bateu uma sausade enorme do amigo Saavedra, aqui do Over. Embora a tematica seja diferente, o que existe em comum é esse momento sagrado que você nos proporciona a cada cena com episódios marcantes. Parabens. Bjos.
graça grauna · Recife, PE 21/3/2009 00:06
Camucceli,
Esse capitulo me fez lembrar de uma passagem de minha juventude, quando ao ver uma parceira de aventura se despir, notei que ela tinha uma fita amarrada a cintura, quis saber o significado, dai ela me disse que a tal fita era a medida de seu homem, uma mandinga ou simpatia para que ele se mantivesse preso a ela.
Fiquei pensando que se aquilo funcionasse, ele seria para sempre um corno cativo, mulheres...
Abraços
Diálogos construindos com terra, sentimentos e sangue.
E eu que não li as outras Cenas! Vou já, já, procurá-las.
Beleza, camuccelli. Só me conte como é que um sujeito do Rio de Janeiro pode narrar tão bem sobre os costumes lá dos fundões de Minas?
Camuccelli, que sede de vingança traz CENA IV, heim ???
e é mto engraçado.....hehehehe
esses dois cumpadis deviam de tah bebim bebim...hehehe
e o final é surpreendentemnte poetico... mexe com nossa emoção, aff !
gostei mtoooooo, tem mais né ? eu quero. rs
bjsssss;)
Camuccelli,
Interessante! Um rio de sangue... Vingança não presta!
No velorio do meu pai, 10 anos atrás,( interior) foi muita tristeza,
mas eu lembro que o pessoal passou a noite toda tomando café, comendo cachorro quente e conversando.
bjs e votos
Essa cunversa tava parecendo campeonato de judiação, sô!
Ivette G M
Cenas sempre tocantes, Camucelli.
Parabéns!
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