COURO CRU
SÔ CHICO:-Num tem ôme mais macho do que ocê.
EDVALDO:-O que não quero,é me casar.Que mal há no ôme de não querer se casar Sô chico? O senhor devia ter desmentido quando ainda podia!Mas,não,
deixou que o tempo comesse os unguentos,e os defuntos aí de guarda, na porta da morte.Agora é água jogada em terra seca. Nasce mais nada não.
SÔ CHICO:-E de que me adianta chorar?O que vem a ser a sua verdade? Já não padeci o bastante? Deus não tirou de mim o filho,a mulher,agora essa besteira pra me perseguir?
EDVALDO:-É uma dentro da outra.Se o roçado na hora da capina,não tiver de pronto.O milho,o feijão..e tudo que ali foi plantado, morre abafado pelo mato.E a terra já foi arada.Os marcos colocados.Tem nada mais pra fazer não.Tá feito,tá feito! E o senhor tá comendo o que plantou.Deus não tá no meio disto.É do senhor a culpa.
SÔ CHICO:-Ocê tá mesmo é querendo me enrolar com essa conversa besta.
O maldito que encontrou,deve de tá lá acoitado,num lugar qualquer.Já vi,que é ocê quem quer fazer o serviço.Pelo menos me avisa quando fizer o serviço.
EDVALDO:-Né disto que tô querendo falar não.É do lugar aonde tudo começou.
No principio,da ven..(ELE INTERROMPE)
SÔ CHICO:- Já não disse que era só de brincadeira.Acabou Divaldo,acabou! Tá morto e sacramentado.Cê já sabe,graças à Deus que sabe.Agora acabou!
EDVALDO:-Essa brincadeira?! Acabou ainda não.Se eu mexer,remexer a terra,
não vou botar de volta a verdade moída,dura e crua.Dentro do que é certo.
SÔ CHICO:-Ocê é como um filho pra mim.É as pernas que perdi.Ocê é tudo que eu tenho neste mundo Divaldo.Sem a sua ajuda,eu não tava mais aqui.É muito importante pra mim
EDVALDO:-É tarde! a sua vida foi destruída.A minha também foi.
Mesmo se eu quisesse não ia poder voltar atrás.A maldade já foi feita.Naquela mesma noite Seu Chico.O fio do senhor tinha acabado de sair(EDVALDO COMEÇA CONTAR O FATO),da casa duma mulher casada.Ele gostava de bulir c'oa muié dos outros.O marido saía,ele entrava e dava um trato na muié do besta.
Fiquei lá a esperando por muitas horas.Quando chegou. Caminhamos, e conversamos.Conversando e caminhando.Nós dois tinha o costume de encontrar ali naquele mesmo lugar.Eu,que ficava parado esperando ele acabar c'oa sua fornicação.Quando aparecia eu dizia:moço a não fica nesta de mulher casada,essa coisa uma hora vai feder!Tem tanta rapariga dando sopa por ai.Ele não quis me ouvir.Eu já tinha tudo pronto mesmo.A arapuca já bem feita.Só me faltava a presa dentro dela.Assim que nem cobra no veneno.Dei o bote.Joquei o macho no chão.Pisei no seu pescoço.Amarrei uma corda bem firme...depois de morto,foi só pindurar na gaia da mangueira.A gente vinga no fi a afronta do pai.Num tem nada pior...hi,Jesus num foi pendurado no madeiro,num foi nu? O padre é quem diz isso pra gente quando tá com raiva. Bebi o seu funeral.Comi como nunca tinha comido em funeral algum...é Sô Chico!... gente vinga no fi,a culpa do pai.O que achei que fosse me sair mais díficel,foi o mais fácil.Botá o senhor numa cadeira de roda.Enganar os políciais também num me dabandou nenhum coisa feia.Foi como cossar carapato.Acabei enfunados eles pra lugar que não tinha uma viva alma.Eu ali do ladinho deles,ainda me enchia de elógios.Tava cada uma comendo na palma da minha mão.( UM LONGO SILÊNCIO. DEPOIS DE OUVIR, SÔ CHICO DÁ UM LONGO SUSPIRO.OLHA FIXAMANTE PARA EDVALDO)Me deu foi uma sêde danada,assim d'uma ora pra outra.
Ocê num pode me buscar um copo d'água Divaldo.Tô c'oa goela seca,seca.
(EDVALDO VAI ATÉ A COZINHA.VOLTA COM O COPO COM A ÁGUA).
EDVALDO:-Agora tem isto daqui (RETIRA DO BOLSO ALGUNS PAPEIS ENQUANTO SÔ CHICO BEBE A ÁGUA)
O moço lá do cartório disse que é pro senhor assinar.
Aqui diz que tá passando tudo aquilo que pertence ao senhor,pra mim.Agora é tudo meu.O senhor não tem mais quem reclame a herança,né não? É tudo meu. Se não quiser assinar,tem importância não.O dedão do senhor serve.Foi o que ele disse!
SÔ CHICO:-Que estará fazendo meu filho que num chega?Pela hora que saiu já devia ter voltado.Mereciana tá lá dentro em cuido.
Viu ele hoje não Divaldo?
EDVALDO:-(EDVALDO DÁ UMA OLHADA E FINGE NÃO TER OUVIDO)A terra vai precisar d'uma boa arada.
SÔ CHICO:-É,Divaldo! A gente cria os filhos é pro mundo!..Era do caso do cartório que tava me contando é Divaldo?
EDVALDO:-Nem vai dar pra enterrar.Acho que num sobra nada.do jeito que a onça tá esfomeada lá.Tá tão magrinho o corpo do senhor.E era o corpo d'um ôme tão bem encarnado!
Estuciei tudo Sô Chico.Pensei cá comigo! Ponho Sô Chico na sua cadeirinha,de garganta cortada.Pra não lhe dar tanto sofrimento.De navalha num doi tanto.Lembra o senhor disse que faria com o danado? Então,é assim mesmo que vou fazer com o senhor.E a navalha foi afiado bem.Levo o senhor, lá pra onde a onça está esperando pela comida.Deixo lá por um dia,ou mais.O corte vai parecer as unhas da onça.Depois vou com alguns camaradas,como quem num sabe de nada.Num foi assim que fiz com os policiais?Esbarro com o corpo do senhor estraçalhado,de pescoço cortado.O papel senhor já assinou.Tá ai no papel a marca do dedão do senhor.Pronto! Descidido é só aguardar.É que nem armar o samburá....só aguardar!
SÔ CHICO:-Então.
(SÔ CHICO FALA SEM SABER O QUE DIZ)A lua ficará vermelha como sangue...já enterramos o finado né não Divaldo?É nossa a fazenda.É só ocê pra pensar assim! êta cabra sabido!(EDVALDO NADA DIZ. PEGA NAS ASTES DA CADEIRA COMO SE FOSSE SAIR PRA ALGUM LUGAR.RETIRA DO BOLSO UMA NAVALHA.OLHA PARA A PLATÉIA.VIRA DE COSTAS PARA O PÚBLICO CORTA A GARGANTA
DO SÕ CHICO.
CAI O PANO.
E 1997.
Li no jornal da êpoca.Que um sujeito,por ter havido sido chamado de GAY,matou aquele que o chamara,e a toda a sua família.Foi esse fato que me fez escrever esse texto.Por isso não podia salvar à Sô Chico,embora tenha sido ele o causador de alguns bons comentários.E alguns até ficaram com pena do estado do personagem.Mas como foi baseado num fato real.A história não podia ser uma estória.E segue os adradecimentos aos que leram,entenderam e comentaram.Um abraço a todos.
Mas que danação
esse Divaldo era o Diabo
Os filhos jamais deveriam pagar pela culpa dos pais.
Cai o pano!
Aplausos!!!
o espetáculo foi muito bem feito
bjs
Bom, nesse espetaculo eu aplaudiria EM PÉ.
e te ovacionaria mtoooo.
valeu mesmo !
bsssss;)
Entendi mas vc podia bem fazer que nem a Emília do Sítio do Picapau Amarelo que mudou ate´o final de Romeu e Julieta...Gosto tanto de um final feliz! Rsrs
Beijos
Tragédia de sertão.
Coisa seca de se pô no parco, pra maturá as ideia, sô Camuça.
Meus aprauso e voto muito - parabéns!
Sô Chico e Edvardo, gente de boa teatração.
camuccelli · Rio de Janeiro (RJ)
CENA VIII
Um cena fortíssima.
Vai fazer tremer a pletéia.
Também como AILUJ sou a favor do final Feliz porque o teatro é pra ensinar e pra avançar e evoluir.
Esta muito bem descrito e prende a gente no acontecimento até o fim.
Parabéns.
Abração Amigo
A CLARA ARUDA COMENTOU NAQUELA ÊPOCA:
Estou adoranto......
clara arruda · Rio de Janeiro (RJ) · 14/3/2008 19:32 alerta
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um grande trabalho, de um grande amigo o responsável por eu estar aqui no overmundo, ótima semana e fique em paz.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 17/4/2009 18:03
Seu trabalho é esplêndido, Camucelli !...Um dia veremos num palco !
um abraço
Sô minino, isso é uma danação só! É?
Mas que sujeitinho trincado, sô!
Abraços Camuccelli, meu amigo dramaturgo.
Ah...tambem desejei um final feliz...mas cabe ao autor as decisões, né mesmo? Parabens! Seu texto é bem escrito. Bjos.
graça grauna · Recife, PE 17/4/2009 23:15
Camucelli,
Com certeza e infelizmente , devem existir muita histórias como essas por ai, só que verdadeiras e mais crueis.
Votado!
Abraços
Beleza de encerramento de ato e o pano cai!
raphaelreys · Montes Claros, MG 18/4/2009 14:41Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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