CENAS DA VIDA REAL

1
André Calazans · Rio de Janeiro, RJ
20/2/2009 · 144 · 18
 

Hermínio chega em casa por volta das nove e meia da noite. Tinha ficado até mais tarde na empresa, e aparentava bastante cansaço. Estranha a ausência da mulher, que sempre o recebia. Nem telefonema, nem bilhete, ele começa a ficar preocupado. Estavam casados há quatro anos depois de namorarem um outro tanto, e entravam naquela fase de mútuo desapontamento e tédio, incrementada por intromissões indevidas de ambas as famílias. Apesar disso - ou talvez por isso mesmo - planejavam um filho. Haviam providenciado os exames e combinado de suspender o contraceptivo. Entretanto, ela não conseguia engravidar, embora fosse nova ainda e não tivesse nenhum problema de fertilidade, segundo o ginecologista. O marido estava bastante angustiado com a situação, e insistia para que Beatriz consultasse outro médico. Afinal, ele já fizera o espermograma em dois locais diferentes, e nada de anormal fora constatado.

O cheiro de comida fresca vindo da cozinha interrompe as elucubrações de Hermínio. Isso significava que ela estava por perto, ou havia saído há pouco tempo. O homem faz um prato reforçado e se dirige quase instintivamente para o sofá. Gostava de jantar olhando pra televisão, independente do programa que estivesse passando. Pega o controle e aperta algumas vezes, mas não obtém sucesso. Ele então põe a bandeja de lado, se levanta e pressiona diversas vezes os botões do aparelho. Nada. Confere a tomada, estava ligada, e desiste. Enquanto reclama mentalmente do eletrodoméstico, o telefone toca. Isso corta a atenção de Hermínio, que não repara na tênue imagem que aos poucos começa a se formar na tela.

- Oi, amor, sou eu. Tá tudo bem ?
- Tá, sim, mas onde você está ?
- Eu tô aqui na casa da Rosa vendo a novela. A porcaria da tevê veio com defeito. Eu bem que falei pra não comprar de segunda mão, e ainda barato do jeito que foi... Deixei comida pronta no fogão, tá ?
- Pode deixar que eu vou dar um jeito nisso. O Olavo me garantiu que estava em perfeito estado. Vê se não demora.
- Tá bom. Tchau.
- Tchau.

O homem pega a bandeja e começa a comer sentado à mesa. Devido à posição lateral, passam-se mais de cinco minutos antes de ele reparar que havia algo acontecendo com o aparelho. Formas esmaecidas movimentam-se diante de seus olhos, dando-lhe esperança de que talvez fosse um defeito menor, quem sabe de sintonia. Hermínio se aproxima, e fica estático quando reconhece o quadro que se desenrola sob seus olhos, com a gradual melhora da imagem. Ali, em frente a ele, no sofisticado aparelho que adquirira de um amigo, começa a passar um filme que não era de ficção. Hermínio e a secretária se beijam sofregamente no escritório deserto. Portas e janelas trancadas, computadores desligados, eles começam a se despir. Em poucos minutos, ele a possui. Era uma antiga fantasia sua: ter relações sexuais com uma colega no próprio local de trabalho, e cumprimentá-la no dia seguinte, como se nada tivesse acontecido. Atônito, o homem não desgruda os olhos da tela. Depois de um tempo, a imagem começa a se dissipar.

Hermínio entra em pânico: era exatamente o que ocorrera naquela noite. Mas como ? “Tô completamente ferrado !†– pensou. “ Ela desconfiou de alguma coisa, contratou um detetive e filmou tudo.†Esta hipótese, entretanto, não se sustenta por muito tempo. Hermínio checa o DVD e não havia disco dentro dele. Imagina estar enlouquecendo. Seria a culpa por ser infiel ? Mergulhado em reflexões angustiantes, o homem anda de um lado para o outro durante um bom tempo, tentando identificar uma explicação plausível para o fato. Sem conseguir uma resposta, resolve telefonar para Olavo. Pois não havia sido ele quem lhe vendera o aparelho ? Só tinha que arrumar um jeito de questioná-lo sem demonstrar desequilíbrio pelo que presenciara.

- Olavo ?
- Quem é ?
- Hermínio, tudo bem ?
- Oi, Hermínio. Tudo bem.

A voz fria do amigo, quase preocupada, fez com que Hermínio ficasse desconfiado.

- Escuta, Olavo, aquela televisão que você me vendeu ...
- O que é que tem ? Fala logo.
- Não está funcionando direito.
- E qual é o problema ?
- Bom,você deve saber. A imagem não está lá essas coisas. Muito estranha mesmo ...
- Olha, Hermínio, eu não queria te causar nenhum tipo de problema ...
- Escuta, Olavo, não é nem pelo dinheiro. Afinal, foi metade do que ela vale. Mas é que ...
- Vamos fazer o seguinte: eu te devolvo o dinheiro, você fica com a tevê, tá legal ?
- ...
- E aí ? Fechado ?
- Olavo ... aconteceu com você também ?
- ...
- Alô ?
- Porra, Hermínio, eu achei que tivesse ficado maluco. O que que houve com você ? Ficou aparecendo um monte de coisas na tela ? Coisas que você fez ?
- Isso mesmo. Como é que pode essa porra ?
- E eu lá vou saber ? Não dá pra entender mesmo.
- Aí, então, você despacha essa roubada pra casa do seu amigo !
- Desculpa, eu pensei que era só comigo. Eu comprei esta droga do meu cunhado, que disse que conseguiu com um conhecido. Como que eu ia saber ? LCD, quarenta e duas polegadas, cheia de sacanagem ...
- E que sacanagem, porra !
- Tu quer fazer o que agora ?
- Vou tirar esta bosta daqui amanhã mesmo, e deixar na porta da tua casa. Não precisa nem me devolver o dinheiro.
- Espera, Hermínio ...
- Tchau !

O homem desliga o telefone com violência. Estava com muita raiva do amigo, e só não ia devolver o aparelho naquele instante porque a mulher já devia estar retornando. “Chega de problemas por hoje !â€. Hermínio escuta o barulho de chave na porta, e corre pra desligar o aparelho na tomada.

- Oi, meu bem, demorei ?
- Não, meu amor, até que não. Assistiu a sua novela direitinho ?
- Você sempre implicando, né ? Eu gosto, sim, e daí ?
- Tudo bem, tudo bem. Olha só, você tinha razão, tenho que reconhecer. Esta porcaria de televisão não funciona. Eu já falei com o Olavo e ele vai me dar o dinheiro de volta. Só peço pra você não tentar ligar, que andou saindo uma fumacinha esquisita ...
- Ai, meu Deus, que horror. Pode deixar. Ainda bem que a gente não se desfez da outra. Mas que sacana esse Olavo, hein ?
- Pois é, muito sacana mesmo !

Hermínio toma um banho pra relaxar, e começa a pensar no ocorrido. Aquela história toda não era razoável. Teria muito que conversar com o Olavo, e com o cunhado dele, e com quem quer que fosse que tivesse arrumado o aparelho. Nunca tinha ouvido falar de nada parecido. Além de ser uma coisa absurda, sobrenatural até, ainda representava um risco enorme. Um risco de dissolução não só das relações familiares, mas de todas as relações sociais. Imagina se ele convida o patrão pra jantar, e aparece falando mal dele na televisão ? Ou pior ainda, recebendo um dinheiro por fora de algum fornecedor ? Hermínio sai do banho e liga o computador. Uma ansiedade incontrolável o leva a tentar pesquisar alguma coisa na internet. Não imaginava ser uma tarefa fácil, tipo digitar “televisão delatora†e aparecer uma série de referências. Mas não custava nada tentar, e de qualquer forma ele tinha perdido o sono.

- Você vai começar a trabalhar em alguma coisa a essa hora ?
- Vou, amor, não se preocupe. Você já jantou ?
- Ainda não, fiquei sem graça de comer na casa da Rosa. Além do mais, você sabe que ela é péssima cozinheira ...
- Sei ...
- Vou ligar a nossa querida televisão velha, que graças a Deus ainda está na sala.
- Tá bom, mas não esquece. Nem toca na outra.
- Pode deixar.

O homem tenta uma série de palavras-chave em suas pesquisas, e utiliza diversas ferramentas de busca. Examina inúmeras páginas, tanto aqui quanto do exterior, de tecnologia avançada a esoterismo, passando pelo espiritismo. O máximo de similaridade que conseguiu em relação ao estranho fato foram referências sobre transcomunicação, uma espécie de comunicação dos mortos para os vivos através de aparelhos eletrônicos. Este fenômeno poderia possibilitar o aparecimento de imagens de “outros planos†em diversos tipos de aparelhos receptores. Entretanto, não era o caso, pois tanto ele quanto Olavo estavam bem vivos, e bastante preocupados com as imagens de fatos recém-ocorridos que apareciam na tela. Após horas de tentativas, ele dá uma pausa nas buscas. Desliga a máquina, e vai para a cozinha beber alguma coisa.

Hermínio repara que a mulher adormecera no sofá, assistindo a um programa qualquer. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas o homem sente uma certa pena da esposa desta vez. “Coitada, fazendo um esforço danado pra gente ter um filho, e eu corneando ela !â€. O homem desliga a televisão, apaga a luz, arruma a cama no quarto e depois pega a mulher no colo, acomodando-a suavemente. Em seguida, tira a sandália e a saia jeans apertada dela, deixando-a dormir de camisa de malha e calcinha. Aí ele repara, como se fosse a primeira vez, na beleza da companheira. A rotina, as brigas, a convivência, haviam retirado a maior parte daquela visão masculina pura, que enxerga somente as formas básicas, de modo direto e instintivo. Mas agora ele nota que se ela passasse na rua, com toda a certeza ele iria reparar.

Envolto num turbilhão de pensamentos, o homem cruza o corredor para ir à cozinha novamente. É quando ele percebe uma certa luminescência na sala. “Paranóia, é só paranóia. Aquela droga tá desligada, olhei um monte de vezes. Tudo bem que não tem explicação, mas tá desligada !â€, repete como um mantra, para si mesmo. Desconfiado, ele vai dar uma olhada. “Só pra dormir tranquilo.†- tenta se acalmar, sem muita convicção. Qual não é o seu espanto ao se deparar com as imagens se formando lentamente. Ele confere a tomada de novo. “Não, não, isso é loucura, não pode ser !â€. Hermínio esfrega os olhos diversas vezes, se esbofeteia no rosto para comprovar que não sonhava. Resignado e aflito, ele encara o aparelho. Qual seria a próxima atração ?

Hermínio se surpreende quando enxerga imagens recentes da esposa no aparelho. Ela está numa dessas baias de escritório, em seu local de trabalho. Sentada na cadeira, a mulher abre a gaveta. Pega um cartucho de remédio lá de dentro, e retira uma pequena pílula, que engole com um copo d’água. Esta mesma cena acontece diversas vezes, mas em ocasiões diferentes. A princípio, o homem fica preocupado. Estaria ela com alguma doença e escondendo o fato ? Em função das diversas repetições, ele começa a prestar mais atenção na embalagem do medicamento. Não dava para ter certeza absoluta lendo o nome, pois não havia nitidez suficiente. Mas as cores e o formato eram inconfundíveis. Tratava-se da pílula anticoncepcional que ela tomara durante anos. E que, pelo visto, continuava usando.

O homem assiste àquela mesma cena dezenas de vezes, até a exaustão. Em seguida, a imagem vai desaparecendo. Mas ele já estava mais que convencido. “Me enganando há um tempão ... e eu morrendo de preocupação, com peso na consciência e tudo. Acha que não sou bom o suficiente para ser pai de um filho dela ? Isso é coisa daquela família desgraçada â€. Ele vai para o banheiro e fica debaixo da água por um bom tempo. Precisava esfriar a cabeça. Depois, se serve de uma dose dupla de uísque e senta no sofá, em frente ao maldito aparelho. Encara a tela, como se a desafiasse. Se serve de outra dose, e mais outra. Por fim, a televisão emite uma suave luz e uma imagem começa a tomar forma. Era a mesma de algumas horas atrás: Hermínio e a secretária. Ele olha a tela com um prazer indescritível. Em seguida, começa a fazer barulho para acordar a mulher.






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André Calazans
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wancisco franco
 

Magistral, Calazans.
Surreais cenas da vida real.
De um real fantástico; mágico, por assim dizer.
Interessante que o título, "paradoxalmente", acaba nos desautorizando uma leitura de viés tão-somente no surrealismo ou no realismo fantástico.
Daí uma possível interpretação REALISTA, do papel massificalienante da TV no dia-a-dia das pessoas.
Seja como for, parabéns pela provocação e pela belíssima narrativa.

wancisco franco · São Paulo, SP 17/2/2009 18:12
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CCF
 

Prezado André, a vida real é um teatro a céu aberto.
Vivemos essas cenas e delas participamos como atores principais.
E na minha opinião, este teatro é vida!
Parabéns pela magia do seu texto.
CCF
www.portalpoeticoccf.nlogspot.com
www.catraca-pg.blogspot.com

CCF · Praia Grande, SP 18/2/2009 10:59
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raphaelreys
 

Nada como a magia de um cotdiano e o seu trancedente movimento!

raphaelreys · Montes Claros, MG 18/2/2009 11:06
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Saramar
 

Fantástico, literalmente também!
E o final, totalmente surpreendente.
Os pecados à vista talvez ajudem na convivência, porque sempre erramos ao mesmo tempo em que queremos a perfeição dos outros.
Gostei imensamente.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 18/2/2009 13:10
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Paulo resende
 

Bueno!

Paulo resende · Rio de Janeiro, RJ 18/2/2009 15:56
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wancisco franco
 

Votando!

wancisco franco · São Paulo, SP 18/2/2009 16:19
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Cláudia Campello
 

Q imaginação ! isso da um bom roteiro de filme, rs
...gostei. 0 texto me deu a ideia tbm de prestar mais atenção em certos "sinais", rs

valeu !
bjsssssssssss;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 18/2/2009 17:18
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linney
 

O texto prende a atenção do começo ao fim.
O desfecho é interessante.
Parabéns,muito bom!

linney · Canoas, RS 18/2/2009 20:06
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Stella Tuttolomondo
 

Votadíssimo!

Stella Tuttolomondo · Rio de Janeiro, RJ 19/2/2009 00:16
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Renato Amado
 

Fui sugado pelo conto, entrando num estado de transe semelhante ao que telas com imagens estimulantes podem nos colocar. Talvez o melhor conto seu que eu li. Sem dúvida, um conto valoroso, de destaque, daqueles para abrir um livro de contos. Acho que depois das palavras não preciso dizer que vou votar, né?

Um abraço.

Renato Amado · Rio de Janeiro, RJ 19/2/2009 12:17
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victorvapf
 

Isso que e' um escriba! Parabens, pode escrever um livro aqui, que a gente le...

abracos

victorvapf · Belo Horizonte, MG 19/2/2009 22:14
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N.Lym
 

Dalí certamente adoraria seu conto! Assim como eu adorei, valorizei e votei!! Ótimo texto!! Senti-me dentro da história!

N.Lym · Fortaleza, CE 20/2/2009 00:37
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Ana Neri Andrade
 

Beijo
Doce e publicada!!!

Ana Neri Andrade · Porto Alegre, RS 20/2/2009 01:54
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

texto maravilhoso.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 21/2/2009 14:31
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Juscelino Mendes
 

Hermínio e suas idiossincrasias... muito bom. Abraços.

Juscelino Mendes · Campinas, SP 21/2/2009 14:54
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Cintia Thome
 

Texto show. Não há o que dizer, apenas continue, quero te ler sempre.
abs

Cintia Thome · São Paulo, SP 22/2/2009 10:42
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Renato Amado
 

Estou levando esse texto agora pra o clube da leitura, para ser lido lá, na primeira rodada. Vejamos se fará sucesso. ...rsrs...

Abraço.

Renato Amado · Rio de Janeiro, RJ 3/3/2009 20:52
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Daniele Boechat
 

FANTÃSTICO!!! A pura realidade, o ser humano e sua necessidade inesgotável de remediar sua culpa. Cada um se isenta ou se inocenta ao descobrir que o outro foi capaz de cometer erros iguais ou piores que eu seu. Me lembrou a "vida como ela é".. Sua escrita é encantadora. Bjs.

Daniele Boechat · Rio de Janeiro, RJ 29/3/2009 03:09
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