CENTENÁRIO DO BAIRRO MAIS CHARMOSO DE NATAL E SUA FEIRA FAMOSA
No dia 23 de outubro de 2011 o bairro do Alecrim completou oficialmente 100 anos. Foi nesse bairro querido onde vivi os anos mais risonhos da vida e onde tive os primeiros deslumbramentos com a sétima arte. Comecei vendo filmes caseiros projetados nas paredes. Depois foram os seriados e os filmes sazonais como a Paixão de Cristo, Marcelino Pão e Vinho entre outros. No Alecrim desasnei com a querida professora dona Xixi. Depois estudei no colégio Sagrada Família e posteriormente no Instituto Padre Miguelinho. Foi ai que vi os primeiros lances e tive minha primeira bilola, não pelos lances, mas pela falta de uma alimentação mais adequada. No Sagrada Família lembro mais das peladas pós-reza do que do catecismo aos domingos. A cabeça tava mais lá do que nos dez mandamentos. No Alecrim fui campeão de biloca. Brinquei de mocinho e bandido com meu amigo Reinaldo. Improvisava muitos brinquedos. O açude de brincadeira era represado com a água da chuva numa rua descalça. Os barquinhos de papel flutuavam coloridos e soltos. Nas brincadeiras o dinheiro era feito de carteira de cigarro. Cada marca tinha o seu valor. O Xico pedia-me para comprar um Minister e ficar com o troco que era salvo para tomar um refresco de maracujá com brote. Fazia de tudo para ganhar uns trocados. Da Avenida Nove levei muitas galinhas para a casa do dono da bodega que ficava na rua Silvio Pélico. Na casa do Dr Grácio foi onde vi minha primeira televisão. Reunia uma turma e quem ficava encostado na porta nem sempre levava a melhor. Perto tinha uma vizinha que tinha uma filha com quem eu brincava de pega-varetas.
Às vezes fazia o papel de detetive para saber se a mulher não tava sendo tráida. Brincava também de casinha e dormir junto, mas sem tocar na parceira. Só brincadeirinha. Nesse quartinho que tambem servia de ateliê do meu pai era onde eu brincava de roleta com meu querido primo Neto. Quem acertava ganhava um premio que não posso revelar. Na Vila tambem joguei baralho e fiz cafuné em Dona Joaninha que gostava de uma zenebra.Peguei morcego e me lasquei arranhado. Em outro morcego saí todo breiado de bosta de um caminhão de lixo. Um dia me perdi e ainda hoje minha mãe chora ao lembrar do que poderia ter acontecido. Fui indio no carnaval de rua e morava perto de uma famosa tribo de índio onde era posivel tomar o cauim. A cada festa sazonal nossa casa se transformava num ateliê. No carnaval fazíamos confete, máscaras, chapéus e outros artigos que vendíamos na banca de meu querido pai. No São João a rua era um festa. Meu pai vendia fogos e eu trazia os bolsos cheios de bombinhas e peido de véia.
A Feira do Alecrim
Quando o Alecrim completa um século de existência lembro com saudades da sua famosa feira. A maior e mais charmosa do Rio Grande do Norte, ocupando vários quarteirões e ruas. Já foi maior quando tinha uma rua dedicada só a confecções. Nesse setor meus pais, comerciantes ambulantes, vendiam redes, calções, cuecas, calças, camisas, etc. A feira é uma festa com muitas cores, cheiros e sabores. Um comércio livre e democrático. Impossível vender hoje o que vendíamos antes nas feiras livres.
No sábado é a do Alecrim. No domingo a das Quintas, e na segunda-feira a das Rocas. Fazíamos todas. Muitas vezes só tomávamos café depois de descolar. Chegávamos bem cedo e numa barraca de madeira alugada coberta com um toldo de lona estendíamos a mercadoria que era transportada num caixão de madeira de feira a feira. Esse caixão também servia de assento. A feira muda em cheiro e aromas conforme a hora do dia. Tem muito pirangueiro e pedinte. A mercadoria precisa ser preservada da inclemência das chuvas e sol. Muitas vezes as dobras das calças ficavam queimadas do sol e perdiam o seu valor de venda. Quando a chuva caia tudo era coberto e na lona teto da barraca eram acumuladas barrigas d´agua que depois era esvaziada para a rua. Os dias passavam lentos quando não era tempo das festas. No Natal era uma alegria e tudo era vendido. Num tempo quando não havia os shoppings e supermercados as feiras era o mercado de tudo. Para embrulhar a mercadoria eram utilizadas folhas de jornais ou de revistas Cruzeiro e Manchete. De tudo acontece na feira-livre. É um retrato da sociedade e suas relações. Ponto de encontro de famílias e dos compadres. Cantadores de cordéis cantam os grandes feitos do valente Zé Garcia em busca do Barbatão. A banquinha em tripé, os cordéis e a boca de som fazem o teatro medieval. A ceguinha conta estórias de princesas e lendas de outros tempos. Os doidos sempre aparecem e completam a festa.
Para qualquer indisposição, fraqueza, lombriga ou doença tem o remédio natural em cascas e plantas medicinais. O Anis estrelado é milagroso. O ceguinho canta uma moda de viola e pede uma esmola. A feira é mesmo uma grande escola de cultura popular. O jogador de tampinha arma rapidamente a sua banca antes que apareça o fiscal. Ladrão, olhe o ladrão, sempre aparece. De manhâ bem cedo um picado com cuscuz. Do cuscuz também pode ser tirado o tampo e feito um cachorro quente. O almoço com muita farinha e guisado tá garantido. Para lanchar pode ser um arroz doce com canela. No café também pode comer uma ótima tapioca com coco ou beijú. A feira do Alecrim é o maior acontecimento do seu bairro hoje centenário. Nesse museu a céu aberto todas as relações sociais e éticas são manifestas. Um arquivo vivo da memória coletiva. A mercadoria pode ser exposta em lonas e plásticos espalhados no chão. Todas as frutas bem fresquinhas são encontradas. A banana leite ou verde pode ser comprada em palma. A mangaba em sextos de bananeira. Na feira de artesanato popular podemos comprar pequenos utensílios domésticos em barro. Pião de madeira e baladeiras para as brincadeiras infantis. Carros feitos de lata. Do flandres tem a bacia, caneca e lamparinas. O tamborete de madeira para descansar o corpo. A inventividade do sertanejo não tem limite. Do compensado são feitos móveis. Do barro também é feita a quartinha para agua fresquinha ou jarra que é coberta com um pano rendado. Para limpar a casa você encontra a vassoura ou espanador de palha. De cabo longo ou curto. Como vendedor ambulante, leio uma folha do cruzeiro, a charge do amigo da onça e percebo as várias gradações e cores do dia que acaba enfadado. Dou um cochilo. Não aparece nenhum comprador. A feira hoje tá fraca. Aparece alguém para fazer uma troca. A feira foi para a nossa família um meio de vida. Foi com a feira que papai nos criou e educou. Ajudando os meus pais sempre livrava um dinheirinho para comprar as coleções da editora Abril Cultural. As filhas da mulher da barraca do lado é um refrigério para os olhos. Quando tinha alguém comigo podia dormir um pouco de baixo da barraca. Com meu primo Neto, filho de meu tio João Caicó – também feirante, eu explorava todos os recantos da feira. Jogava sabugo sem saber onde ia cair. Remedava todo mundo. No dia que vi uma mulher seminua num monóculo tive um deslumbramento. A feira é mesmo o sustento de muita gente. Para mim foi antes de tudo uma grande escola de cultura e convivência humana. Se ela perdeu em extensão e importância comercial, ainda guarda o seu encanto e magia num rico museu vivo onde tudo acontece. Uma grande experiência para os sentidos vivenciados numa grande escola da vida, onde fui aprendiz e ainda hoje me fascina.
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