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Certamente nos encontraremos

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cochise césar · Divinópolis, MG
14/2/2009 · 56 · 3
 

Há muitos anos estávamos caminhando por aquelas ruas como se tivéssemos todo o tempo do mundo. como se fossemos jovens e pudéssemos desperdiçar o tempo. Mas já não éramos mais jovens. Não éramos há muito tempo.
É incrível o quanto a idade é algo subjetivo. Com vinte anos me sentia com trinta. Com cinqüenta me sentia com vinte, e naquela conversa que tivemos aos noventa e muitos tínhamos aquela euforia dos dezoito.
Quando a gente chega aos quarenta acha que a euforia da juventude é possibilidades em aberto, anos de vida pela frente, essa patacoada toda. Assim... eu discordo disso de cabo a rabo. Ter a vida pela frente é mais assustador que qualquer outra coisa. Maior que o desespero de saber que é necessário crescer, tomar decisões, assumir a responsabilidade dos seus atos só a fé irracional e inquebrantável de que por mais difícil que seja o caminho, vamos chegar ao destino.
Inquebrantável? Ha!
Na verdade é justamente a quebra da fé que marca a passagem para a idade adulta. As crianças nascem imortais, onipotentes e são o centro do universo.
Um dia descobrimos que não somos o centro do universo, e pela primeira vez descobrimos o que é odiar.
A primeira surra que nossos pais nos dão quebra o primeiro cristal de nosso palácio de juventude.
Tente se lembrar das palmadas ardidas, quase tão doloridas quanto as lágrimas e a traição daquele que até então sempre tinha sito solícito e atencioso. Mais amargos que os vergões nas nádegas só o instinto assassino que fervilhava em nossos estômagos.
Então descobrimos que não somos o centro do universo, mas a parte mais ínfima dele. O ser mais pequeno e insignificante. Que nossas liberdades são apenas porque somos tão desprezíveis que sequer julgam necessário nos reprimir.
Se aos dois anos soubéssemos o quanto a morte de uma criança afeta os adultos nos mataríamos todos para recuperar o nosso posto perdido.
Então ocorre a primeira morte. Pode ser um brinquedo, uma amigo ou o avô. Alguém que você gosta morre e você não pode fazer absolutamente nada para impedir. Talvez nem seja uma morte, mas uma mudança para outra cidade, a doação de Mr. Mufles para o orfanato enquanto você estava na escola. Toda perda é uma morte, mesmo sem cadáver. Os cadáveres são só um pedaço de lixo com a imagem do nosso amor zombando de nós, nos mostrando uma última e horrorosa imagens do que nunca mais teremos. Não adiantou rezar, fazer promessas, chorar, implorar, ficar com raiva. Nada adianta. Descobrimos os limites do nosso poder. Descobrimos o limite do poder do ser humano. Descobrimos que nós somos seres humanos.
Não fossem as mães nos acordando todo dia para a escola acho que nunca mais sairíamos da cama depois dessa descoberta. Depois de descobrirmos que não somos da mesma matéria de nossos heróis que desafiam a morte e vencem, sejam as princesas dos contos de fadas, os atletas sem expressão facial dos filmes de ação ou os santos da escola dominical.
Por fim, sem motivo aparente um dia a gente descobre que um dia vai morrer. Claro que todos já sabiam disso, mas você saber que vai ser pai é diferente de pegar o recém nascido enrolado nas mantas do hospital.
Pode ser naquela hora complicada que a gente faz a conta "entro com 18 na faculdade, saio com 22, trabalho dois anos pra comprar o carro, dez anos para comprar a minha casa, já vou ter meus filhos e vou viver por conta da minha família até eles se formarem, o que dá mais vinte, vinte e cinco anos, então eu vou estar com mais de cinqüenta anos e nunca vou ter feito a viagem de dois anos como mochileiro pela Europa, nem passado um ano no Tibete meditando, muito menos me dedicar durante cinco anos a formar uma banda de rock."
chega o momento inevitável que a expectativa de vida não é o bastante para os planos. Nesse dia viramos adultos.
Nesse triste dia descobrimos quem mora dentro do espelho. Um pedaço de carne com polegares opositores e um cérebro desenvolvido que não é mais nem menos que isso. Nesse dia a fé se acaba. Já sabemos que provavelmente não vamos chegar a lugar algum, se é que um dia soubemos o caminho que queríamos tomar.
então a gente começa a trair a mulher, deixa de gastar tanto com a escola dos filhos, passa mais tempo nas happy hours e menos na igreja.
Por que? Porque somos pobre animais de carne que não saber muito bem o que fazer. Porque a gente diz que o valor está nas coisas pequenas para disfarçar a nossa total incapacidade de alcançar as grandes. Porque a gente afirma com orgulho que deixa a vida nos levar, porque não sabemos para onde queremos levá-la.
A euforia, a fé, tudo vai embora levado por uma consciência nítida, mas mesmo assim escondida de nossos limites.
Nunca vamos ser jogadores de futebol. Nunca vamos ser astronautas, nunca vamos acabar com a pobreza nem matar duzentos inimigos na guerra.
Nosso próprio negócio pode até render um bom dinheiro, mas na verdade a gente nunca vai ter uma mansão, e mesmo se tivesse o que raios faríamos lá?
Na verdade boa parte da felicidade da juventude está no fato de que tudo que a gente acha que vai acontecer é feito de imagens de perfeição. Um apanhado de imagens recortados de folhetins, sessão da tarde e imaginação infantil colados com fé em um todo que a gente acha que é homogêneo.
Adivinha porque. Vamos lá. É fácil.
É um cadáver. Um velho, feio e podre cadáver da nossa infância. Quanto mais ela morre, mais planta dentro da nossa alma a idéia de que quando nos tornássemos adultos voltaríamos a ser tudo quilo que a criança era: imortal, onipotente e o centro do mundo. Um cadáver apodrecendo nos mostrando uma caricatura do que um dia amamos.
No final o que restou para nós além de saber que um dia finalmente nos encontraríamos, caminharíamos algumas ruas vivendo uma euforia de idílio e sonho, não mais olhando para o futuro, mas para o passado, e descobrindo que toda a vida medíocre, cheia de erros e enganos, pode ser olhada pelos olhos da fé. Pode ser convertida em uma edição editada, condensada e romanceada em todos os sonhos que tínhamos. Que podíamos aos noventa e muitos olhar o passado com a fé das crianças e afirmar que foi bom e que gostaria muito de fazer isso tudo de novo. Que tive grandes aventuras e intrigas, que fui corajoso e que tudo valeu a pena. Que havia um plano geral e que eu nunca perdi o rumo nem esqueci as falas do roteiro.
Sempre soube que nos encontraríamos. Não sabia que seria para isso. Isso é um grande favor, sabe, nos proporcionar ma morte tão boa a satisfatória, uma vez que o resto da vida foi uma amontoado asfixiante de merda. vivemos atolados nesse monte de merda sem conseguir saber de nada disso, sem conseguir lutar contra isso, sem conseguir consertar os defeitos de fabricação, e no final um belo passeio para nos fazer descobrir que toda a merda era pão de ló. Para descobrir que tudo não passa de uma questão de mentir para si mesmo com convicção o bastante para tornar a mentira verdade.

Texto originalmente publicado em http://descritor.blogspot.com/2008/12/certamente-nos-encontraremos.html

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Bruno Resende Ramos
 

Gostei danuance filosófica e o tom de ironia no texto.Escreve muito bem.

Bruno Resende Ramos · Teixeiras, MG 12/2/2009 07:20
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Cláudia Campello
 

Uau ! foi fundo... nao ha mesmo estrelas no fundo do poço como disse Pablo Neruda. Mas (ñ sei quem disse) a vida é o q fazemos dela...
gostei de te ler.

bjssssssss ;)

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 15/2/2009 03:08
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Onivaldo Paiva
 

"Nunca vamos ser o que sonhamos...", diz você. Tem hora que penso assim, depois me rebelo! Sim, irei, ainda! Ainda vou descobrir o Eldorado. Ainda salvarei das águas, ou das mãos de um monstro, a Mulher Amada, como se eu fosse um Príncipe dos contos de Fada.
E mais adiante, afirma:
"..."descobrimos quem mora dentro do espelho..."
Gostei. Embora seja muito difícil isto de descobrir quem mora no espelho. Há momentos, raros, em que consigo divisar EU do outro lado...
Mas não era isto que eu queria dizer quando entrei aqui. Eu queria falar deste seu :
Certamente nos encontraremos.
E falo: Certamente nos encontraremos
então eu vou estar com mais de cinqüenta anos e nunca vou ter feito a viagem de dois anos como mochileiro pela Europa, nem passado um ano no Tibete meditando, muito menos me dedicar durante cinco anos a formar uma banda de rock."
Ah, Certamente nos encontraremos e poderemos falar dessas viagens, das meditações que fizemos, e dos rocks loucos que criamos....




Onivaldo Paiva · Uberlândia, MG 16/2/2009 03:20
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