“Se, como é infelizmente o caso de nossa época, a moral evangélica parece evaporada, a condição de seu renascimento não residiria nesta redescoberta de suas raízes naturais? Será que não quisemos, até agora, fazer cristãos onde não se tinha ainda conseguido fazer homens? O resultado não é dos mais brilhantes: não temos mais nem homens nem cristãos”.
(Paul Eugène Charbonneau)
Temos todos a convicção de que a escolha dos governantes seja algo de grande importância. Os nomes dos nossos partidos não dizem muito e sua ideologia diz menos ainda. E a biografia dos candidatos são, de modo geral, de desanimar. Como proceder?
Houve tempo em que os governantes tinham contato direto com o Criador, que lhes transmitia as regras a serem impostas aos súditos. Hamurabi e Moisés foram alguns que se valeram desse contato direto. Coisa muito mais fácil do que isso de democracia, que o Churchil disse ser a pior forma de governo, mas ainda não haviam encontrado outra melhor. Democracy is the worst form of government, except for all those other forms that have been tried from time to time. O rei Henrique VIII, porém, colocou em dúvida a certeza de que os soberanos tivessem sangue azul, ao mandar decapitar em público suas incômodas esposas. E olhe o sangue vermelho escorrendo quando a cabeça da executada era separada do corpo.
Muitos filósofos têm chamado a atenção para um fato preocupante, que não surgiu ontem. Enquanto na primeira metade do século passado os intelectuais discutiam a respeito da natureza de Deus, neste século a questão não está em acreditar ou em não acreditar. O que predomina é uma indiferença, é o “tanto faz quanto tanto fez”. Para o teólogo Hans Küng isso tem muito a ver com a crise de valores que permeia o mundo todo, pois “não existe ação moral, humana, incondicionalmente obrigatória, nem uma ética também incondicionalmente obrigatória, sem religião”.
O argumento é discutível, pois pode levar ao entendimento inverso: basta haver religião para que esses tais valores sejam observados. Basta verificar que um Estado comprometido com a religião, como Israel, teve no Líbano uma conduta que muitos equiparam à “limpeza étnica” pretendida pelo nazismo. Aliás, o próprio padre Küng arrola as atrocidades cometidas em nome do cristianismo ao longo da História, muitas delas voltadas contra os judeus. Dizer que matar crianças e produzir a maior poluição que o Mediterrâneo já conheceu se justificava pela necessidade de executar os terroristas do Hesbollah é invocar o Mein Kampf. Sem falar nas minas de fragmentação, proibidas pelas convenções internacionais, que foram ocultadas no território libanês e que explodirão nos próximos meses e anos, matando pessoas absolutamente alheias às divergências entre os dois Estados. Na África e no Cambodja ainda morre gente por causa desse encontro macabro, pois ali também foi deixado esse tipo de lembrança.
Quando Albert Einstein declarou que não acreditava em um Deus pessoal, pois seu Deus era de outra espécie, a cosmic God, caiu o céu sobre sua cabeça, pois já morava nos Estados Unidos, onde até mesmo os ateus confessos são obrigados a jurar sobre a Bíblia, quando vão depor em Juízo, ou a ler nas notas de dólares que in God we trust. Coisas da democracia capitalista, certamente. “Todos têm o direito de acreditar naquilo em que eu acredito”, como deve ter dito o W. Bush aos muçulmanos. Um dos que lhe caiu de santo porrete na cabeça do Einstein foi o conceituado Cardeal Fulton Sheen, autor de livros como A Vida de Cristo, que fez pilhéria: “acho que o Deus dele tem um s a mais”. Os cardeais norte-americanos, aliás, são mestres em comicidade, como se viu quando acobertaram um número inimaginável de colegas pedófilos, pois puni-los acabaria levando a Igreja à bancarrota, tais as indenizações que as famílias exigiriam em Juízo. Não é para rir?
Eu poderia citar o padre jesuíta e teólogo Teilhard de Chardin e sua irrespondível afirmação de que a religião deve acompanhar as descobertas científicas e rever os conceitos que ela havia formulado quando tais descobertas ainda não haviam sido feitas. Só uma criança acreditaria que Deus fazia bonecos de barro, disse ele, curto e grosso.
Na célebre pintura feita por Michelangelo Buonarrotti na Capela Sistina, por determinação de seu carrasco, o papa Júlio II, Deus veste um camisolão, tem barba e cabelos brancos e toca seu indicador no indicador do primeiro homem, feito de barro, como sabemos. Considerando que o papa era um tirano, que havia escravizado o artista até que este erigisse na praça São Pedro uma tumba faraônica que lembrasse para sempre o nome daquele Sumo Pontífice, torna-se claro que aquela figura antropomórfica contava com o apoio papal. Além de antropomórfica (isto é, Deus tem cabeça, tronco e membros, como se fosse humano), a figura de Deus ainda é, para muitos, antropopática, isto é, sente, pensa e age como se fosse humano.
A questão, porém, como diz o já citado Küng, não está em discutir conceitos. Qualquer um de nós afirmaria o que ele afirmou em seu livro Por que ainda ser cristão hoje?, de que me vali para estas reflexões: “Não deixo absolutamente de reconhecer o fracasso histórico do cristianismo”. Nem por isso ele deixa de propor que continuemos a cristianizar a sociedade em que vivemos.
O desafio é: será possível salvar o nosso planeta sem fazermos da religião algo mais concreto, mais “terreno”, algo menos preocupado com conceitos e mais comprometido com ações tendentes a fazer imporem-se aqueles valores que nossa inteligência, limitada que seja, concorda serem atributos desse Criador de tudo? O também perseguido frei Leonardo Boff segue esse mesmo caminho, tanto que escreveu um livro chamado Ecologia – Grito da Terra, Grito dos pobres.
Será possível escolhermos governantes que pensem menos em si e mais no serviço que os aguarda, no respeito à dignidade humana, na luta contra todo tipo de opressão, num projeto de um Poder Judiciário minimamente eficiente, em programas que estimulem a solidariedade e a cidadania?
Eu creio que sim. Se meu testemunho vale alguma coisa, eu posso dizer: por incrível que possa parecer, isso tudo já foi pior do que é hoje. Não é de hoje que político furta, nem é de hoje que muito juiz merece algema e xadrez. E se alguma coisa melhorou, é porque pessoas não ficaram reclamando na escuridão porque a lâmpada se apagou. Elas preferiram acender um palito de fósforo.
A eleição municipal é a mais importante das eleições, pois você tem oportunidade de entrar em contato físico com quem você elegeu. Ele (ou ela) não está correspondendo ao que você esperava? Vá à Câmara ou à Prefeitura e diga isso a ele (ou ela). Se você cruzar os braços, será conivente com os desmandos dele (ou dela).
Volto para votar, excelente matéria, parabens!
sinva
Adauto,
grande e consciente texto
também concordo que muita coisa mehorou
e se todos acendessemos um palito de fósforo,
as chamas se propagariam e haveria
uma luz no fim do tunel.
bjssssss
Aqui vai um comentário pertinente, que não é meu:
"No dia cinco de otubro
nóis vamo tê inleição.
Todo povo brasilero
vai escoiê us seus patrão.
Coisa que me deixa rubro
e não pode acontecê,
tanta gente pra escoiê
e o forgado vem dizê
que prefere votá nulo.
Escoiê bem candidato
é coisa que fais sentido.
É difici, isso é fato,
pois temo munto bandido.
Inleição é paiaçada?
Saiba que isso não me espanta,
no meio de gente tanta
arguma vai sê achada.
Meió isso de que nada!
Precure que vai achá
arguém pra por ti falá.
Omissão me dexa fulo.
A. Cerviño - SP"
Conheço esse A. Cerviño de algum lugar.
Circus do Suannes · São Paulo, SP 6/9/2008 12:03Eu também !!! E fico c/ os dois: c/ o Cerviño e c/ o Suannes. Grande texto: p/ meditar e pensar sèriamente "quem" pretendemos colocar sentadinho LÁ !!! Bjks Langinha... Volto p/ votar.........
Langinha · São Paulo, SP 6/9/2008 13:08
Realmente, Adauto, suas palavras trazem, muita lucidez e na hora certa pois as eleições se aproximam e devemos pensar antes de votar errado ( de novo ! )
um forte abraço !@
O seu texto chega em boa hora pra gente refletir mesmo e não fazer besteiras. Vivo numa pequena cidade do interior e as coisas acontecem assim,do jeito que você diz. Gostei. Abraços.
graça grauna · Recife, PE 7/9/2008 11:10
Sempre pensamos será que dessa vez será diferente???? os Discursos parecem os mesmos... até mesmo os candidatos parecem os mesmos???? rsrs
BOM TEXTO O TEU, VOTAREI PELA PUBLICAÇÃO!
Baci
Voltei p/ votar no meu querido Adauto. Ele merrece. Bjs e até...Langinha.
Langinha · São Paulo, SP 8/9/2008 10:47
Acendo meu palito de fósforo! (com cuidado pra não queimar a ponta dos dedos!)
Voto pra publicar este belo texto!
Puxa, Dautinho, eu não vi, ainda, este fósforo.....Voto sim à sua luta ( que é de todos nós, afinal). Lila Su
Lila Su · São Paulo, SP 8/9/2008 10:57
Política é um caso sério. O atual prefeito do Recife, João Paulo, do PT, quando o conheci no início da carreira política era um operário que morava no Ibura de Baixo, aqui no Recife. Tinha hábitos modestíssimos. Logo no primeiro mandato de prefeito, acrescentou o caviar nas compras para o seu gabinete. Os seus filhos foram estudar na França e pra culminar trocou a antiga casa lascada do Ibura por um "Moura Dubeaux" no bairro das Graças (alta classe média). Seu lema na prefeitura sempre foi "cuidar bem das pessoas". Este é um exemplo de socialista tupiniquim.
Mestre, texto votadíssimo! Abraços do,
Zé Preá
Circus do Suannes · São Paulo (SP)
CIDADANIA E FÉ
Um Bom Trabalho no sentido de ajudar a formar uma Consciéncia Política.
As Eleicóes estáo ai e o debate esta presente. A Medida em que aumenta a renda, o pessoal entra no Debate.
O Processo esta caminhando e se ná for interrompido deveremos avancar muitos nos próximos anos.
Medo é os que levam vantagens fazendo guerras de derepente fazerem uma Guerra um pouco maior.
Valeu demais.
Uma Grande Contribuicáo para todos.
Abracáo Amigo.
Cidadania e fé. Lembrei-me de um advogado da pacata cidade de Sarandi, RS., um amigo já foi pra Estância Divina, que Patraõ Velho o tenha de posteiro. Mas vamos ao causo. Uma feita veio a se candidatar a deputado. Junto com os amigos, ao acompanhar o resultado do pleito pela rádio (na época não havia televisão), contando os votos, esses lhe diziam: "Veja Dr., lá naquele reduto o Sr. não fez quase nenhum voto". Ao que ele respondia: "Lá eu sou pouco conhecido". Então ao chegar a contagem em Sarandi a cidade dele, menos votos ainda, ao que ele rapidamente saiu com essa: "Aqui eles me conhecem demais!" Muito bom o texto e em boa hora, vamos escolher aqueles que nós conhecemos. Aí foi meu voto.
Eldo Meira · Carazinho, RS 8/9/2008 18:36
Uma boa temática para reflexão e uma sólida argumentação para
nos proporcionar refletir,
abraço
andre.
Religião e sociedade. Uma e outra
se formando. Texto rico e interessante.
Ao mesmo tempo, sem fim...
Muito bom.
Um abraço
belo trabalho belíssimo texto.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 8/9/2008 21:19Excelente maneira de propor uma reflexão , seu texto apresenta uma maneira de refletirmos em momentos de decisão de nossas vidas . Abraço...
delen · Cotia, SP 11/9/2008 10:06Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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