Esperava deitado controlando a ânsia
Tremeluziam altas e finas chamas
Salamandras dançavam nos candelabros
Nas paredes em ruÃnas do quarto
Insinuavam-se formas estranhas
Em frenéticas metamorfoses
Figuras aterradoras se fundiam
Répteis, canÃdeos, polvos larvas e sapos
Fogos-fátuos por todo lado luminesciam
O fio de fumaça que saia do incenso
Densificava-se num nevoeiro agourento
O intenso torpor pelo odor mirrento
Mesclava-se ao do chão tululento
Dos pés a cabeça um calor vibrava
A respiração já escassa ainda mais fenecia
Suando frio, pupilas dilatadas
Iniciava-se uma intensa parestesia
Movia apenas os meus olhos
Meu corpo imóvel jazia rijo
Não acabara esse sonho mórbido
Era apenas um prelúdio tudo aquilo
Borbulhas pariam do pantanoso solo
Cinco vultos humanóides cercavam meu leito
Figuras que inspiravam a frigidez e palor dos mortos
Soturnas encarnações do desespero e medo
As chamas das velas antes eufóricas
Permaneciam congeladas emanando um azul cromo
Tetrificando ainda mais aquelas figuras fantasmagóricas
Que em vertiginosos movimentos emitiam seus sons estranhos
Um zumbido em minha cabeça
Como um enxame de infernais grilos
Um reverberar semelhante à uma flauta
Em crescente chegava aos meus ouvidos
Hebraico, latim, egÃpcio ou aramaico?
Não sei qual era aquela confusa lÃngua
Que em aterradores cantos entoavam
Tambores incertos de longe ecoavam
Do meu corpo algo emergia
Todos dopantes sons redobravam
Como num tropel em desesperada marcha
Com a tenebrosa sinfonia abominações pululavam
Do charco debochavam da funesta sina de minha alma
No teto surgiu um familiar semblante
Observei impotente, terrificado
Uma translúcida cópia minha
Gritava em desespero mas eu não ouvia!
Pelo inominável permanecia petrificado
Num ultimo gesto desesperado
Sua mão ela estendeu-me
Tudo então sumiu num segundo
Num único momento o tormento desfez-se
Pulei da cama de súbito
Suava frio, arfava pra respirar
Meus olhos ardiam túmidos
Notei o completo silencio no escuro
SaÃra finalmente de "lá"
Resvalava da janela uma luz neônica
Lunar refletia quieta no piso cerâmico
Iluminava fracamente o quarto
Parecia descansar nesse breu pacato
Cheiro ralo de pavio queimado
As velas por todo haviam se consumado
No turÃbulo restavam apenas cinzas
E um fraco cheiro no ar de Mirra...
Mas sentia uma ngustia anormal
Um vazio abissal por dentro
Destarte possui-me um obscuro sentimento
Uma negra intuição
De um funesto porvir
Que pressinto que apenas acabará
Quando enfim meu corpo às cinzas retornar
Um vácuo anedônico
Eterna ausência de algo impalpável
Idealizada num mazoquismo platônico
Utopia idÃlica patética inalcançável...
O nome era pra ser "Cinco entidades estranhas humanóides numa catalepsia projetiva" mas não coube.
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