Cinzas e Diamantes

Nivaldo Lemos
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Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
16/2/2007 · 50 · 5
 

Santa Filomena era daqueles lugares estranhos que só existem na imaginação dos loucos e dos poetas, e onde os acontecimentos muitas vezes me faziam ao cabo de um tempo duvidar se de fato haviam ocorrido ou não passavam de lendas como as que costumava ouvir da boca de Pedro Nega, um doido manso que tinha por hobby assustar a molecada com suas histórias de horror e encantamento, recheadas de mulas-sem-cabeça, sacis, boitatás e o mais que sua imaginação permitisse. Foi uma dessas histórias que só os loucos concebem que deixou a cidade consternada e marcou para sempre em minha memória aqueles poucos anos em que lá vivi. Aconteceu nos anos 60 e envolveu a professora de português Esmeralda K. e seu marido coronel Fred Kimberley, um engenheiro civil e paisagista sul-africano que, chegando à cidade no final do século XIX, contratou-a para lhe ensinar português. O que ela fez tão bem que acabou conquistando-o e com ele construindo uma história de amor cujo final até hoje intriga e enleia a imaginação.

O coronel não gostava da patente fajuta que lhe fora atribuída pelos moradores da cidade e que traduzia apenas a maneira com que o povo costuma distinguir os que conseguem algum prestígio na comunidade, seja ele econômico, político ou social. Ou os três juntos, o que aliás era mais comum, embora nenhum destes fosse o caso de Fred Kimberley, que conquistou respeito de todos mais pelo jeito afável e solidário com que se relacionava e exercia seu conhecimento. A profissão não lhe rendeu muito dinheiro, apenas o suficiente para, aos 98 anos, desfrutar com Esmeralda o conforto de uma casa ampla e agradável, de três quartos, com um belo jardim e um quintal cheio de árvores frutíferas, onde ele cultivava o hábito de plantar espécimes da flora brasileira, entre os quais tinha preferência por um frondoso acaiacá, árvore da família do cedro que algumas tribos consideram sagrada e que, anualmente, se engalanava de flores e atraía muitos pássaros, além de fornecer a sombra que refrescava a varanda dos fundos da casa, onde ele costumava deitar para meditar. Como engenheiro e paisagista, Fred sempre soubera valorizar a harmonia entre o concreto e o verde, entre as necessidades do corpo e do espírito, pendendo para este, o que o aproximava mais dos poetas que dos calculistas.

Fora assim quando declarou seu amor a Esmeralda com um poema que, mesmo tantos anos depois, ainda o levava a identificar nele, sem falsa modéstia, uma certa qualidade literária, especialmente no trecho em que descrevia seus sentimentos e desejos:

O dia amanheceu na rua
vadio pássaro sem ninho
roubando o teu o encanto
com um beijo na janela nua.
E o vento oculto na cortina
levantou a saia da manhã
brindando a sonolenta lua
com a paixão que antes era só minha
e que agora também passa a ser tua.


Evidentemente, o senso crítico do engenheiro já não era o mesmo, embora isso pouco lhe importasse, pois Esmeralda, que também se chamava Maria mas odiava o nome, aos 90 anos ainda guardava a folha amarelecida pelo tempo onde ele declarara seu amor, um amor tão profundo e intenso que juravam haveria de sobreviver ao tempo e – quem sabe – à própria morte. E sempre que chegava uma visita um pouco mais íntima, lá se ia Esmeralda com as mãos já trêmulas de velhice e os olhos embaçados pela catarata mostrar o poema esmaecido. Quase toda a cidade já lera Minha Esmeralda e sabia de cor alguns trechos. Orgulhoso, o velho Kimberley apenas entrelaçava as mãos nas dela e sorria, retribuindo em silêncio aquele amor depurado pelo tempo e que a todos ainda admirava de tão forte e obsequioso.

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Nivaldo Lemos
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arlindo fernandez
 

Meu amigo!
Adoro histórias que pendem pro lado do absurdo - gostaria de ter escrito esta. O texto está impecável,poético um absurdo.Sou um péssimo crítico e a única coisa que sei, é que gostei muito.
Segundo meu amigo Nivaldo Lemos, voce também é foda!
saudações

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 15/2/2007 12:48
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Nivaldo Lemos
 

Valeu, Arlindo. Obrigado. Mas diante de talentos como o seu e o da Karina Walmrath, gaúcha que acabei de conhecer e me surpreender, só tenho a aprender. E agradecer. Abração.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 15/2/2007 12:57
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Cida Almeida
 

Dois tempos, duas imagens: Cinzas e Diamantes. O título já é um imã que nos coloca em suspensa... Fui levada pela narrativa como se vagasse pelas sombras insuspeitas e profundas de um sonho... Vou fazer o download para ler com tempo e atenção. Mas alguma coisa na sua descrição inicial me remeteu a José J. Veiga, que considero um dos melhores autores goianos - viveu no Rio até sua morte, acho que no final da década de 80. O livro do J. Veiga, Sombras de Reis Barbudos... A história é contada a partir do memorial de um menino que via coisas estranhas acontecerem em sua cidade, quando uma fábrica é implantada no lugar e coisas fantásticas começam a acontecer... Uma delas, as pessoas começam a voar. Um dia, o menino está em cima da torre da igreja abandonada e vê uma pessoa voando... É um autor maravilhoso!

Cida Almeida · Goiânia, GO 16/2/2007 12:26
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Camafunga
 

Poético texto onde o absurdo passa a ser o esperado.

Camafunga · Pelotas, RS 17/2/2007 09:47
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Nivaldo Lemos
 

Cida,
obrigado, você é muito gentil. Na minha opinião, José J. Veiga, com Sombras de Reis Barbudos, e Murilo Rubião, com O Pirotécnico Zacarias, são os maiores gênios da literatura fantástica no Brasil. O fato de meu conto lhe fazer lembrar o primeiro é um elogio que nem sei se mereço, todavia me deixou muito feliz mesmo. Não poderia haver melhor maneira de começar o carnaval. Boa folia pra você. Bjs.

Camafunga,
obrigado também, bom carnaval.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 17/2/2007 22:36
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