Clepsidra nasceu como um projeto musical meu e do baixista Maurício Panzera. Nos reunimos em torno da busca um som livre de paradigmas estanques, baseado na pesquisa sonora, e na poesia como base do processo de composição (a maioria das canções são poemas musicados). Em 2004 lançamos nosso primeiro CD, Bem Musical , pelo selo independente Ná Records. Nesse disco, trabalhamos com alguns músicos convidados, e com programações construídas no computador. Vou publicá-lo música a música, com comentários sobre cada uma, começando pela faixa 2 do CD, Consolação:
Em 2003, a dupla faz sua primeira viagem por algumas cidades brasileiras. Neste movimento de descoberta, diversas canções surgem, entre elas Consolação, uma música acentuadamente paulistana, quer na exposição evidente de paisagens daquela metrópole, quer no samba-garoa camuflado sob estrutura experimental, quer na própria aparência “caótico-lírica” de seu arranjo, apoiado num violão maquinal, ruídos eletrônicos, e nos violoncelos dolorosos de Arthur Alves. Na letra mais uma exposição confessional de uma experiência real. A canção traz ainda o poema incidental Resignação, de Renato Torres. A rua da Consolação, quase esquina com a Av. Paulista, foi o endereço onde ficaram hospedados em sua estada paulistana.
Consolação
meu único consolo é te ter na pele
enquanto caminho pela Consolação;
um único gosto seu que sele
a vitória turbulenta da multidão
sobre minha solidão passageira.
a Augusta angústia ladeira abaixo
onde acho as cores felizes
de certas raízes do Ibirapuera.
minha única quimera é um olhar fortuito
enquanto cruzo o viaduto Santa Efigênia
sobre o Vale do Anhangabaú, e muito
do que era meu se perdera na brenha
obtusa do metrô, na linha azul
que liga a minha saudade à tua:
meu único consolo é te ter nua
enquanto caminho pela rua da Consolação.
“se estou vivo
vivo
ainda que na cidade, pelas ruas
eu viva a respirar fumaça
e a comprimir o miocárdio
à cada virada de esquina...”
“nos pontos de ônibus
o ódio a intumescer-se nas valetas
como nova doença medieval...”
“ainda que cego de luz artificial
sinta o cheiro da fome ao redor
ainda assim vivo
porque estar vivo é resignar-se.”
NOSSA RENATO...
VC É UM POETA GRANDE...CHOREI...MOREI EM sAMPA NOS ANOS
76/79 ASSIM EU CAMINHAVA...LINDO ...CHOREI....
SE LENDO CHOREI ESTOU EM PRANTOS..A VOZ É MUITO BOA ...O POEMA BOM DEMAIS...
Cintia Thome · São Paulo, SP 5/9/2007 15:50
cíntia,
que bom que gostaste tanto assim! consolação é uma canção bastante especial pra mim... me surgiu aqui em belém, numa noite em que caminhava na rua (o poema foi escrito antes, ainda nos ônibus da viagem). vês como é absurdo pra mim que ela nem tenha sido publicada? talvez eu devesse repostá-la. de todo modo, adorei tua visita, e tua emoção.
beijos,
r
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