COLANDO NA PROVA
Dia desses vi na tv um caso abominável. Mais um erro médico irreparável para a vida do paciente. Uma mulher no sul do país foi operada com o descaso e a precipitação comuns nos hospitais públicos. Deveria sofrer uma intervenção cirúrgica no aparelho digestivo – fístula no reto – e o médico retirou-lhe o útero.
O caso foi parar na Justiça e a alegação do médico o que tinha de cínica tinha também de surpreendente. Disse que se confundiu na hora da intervenção porque tinha dificuldades com o português. Confundira fistulectomia com histerectomia – retirada do útero. Entre surpreso e confuso, o juiz inquiriu: “E por que isso?” Ele defendeu-se de maneira estapafúrdia, mas a única que encontrou para justificar seu crasso erro: “Colava sempre nas provas de português”.
Lembrei-me imediato de um fato pitoresco ocorrido faz anos no interior onde eu morava. E que felizmente não terminou em tragédia como o da mulher operada.
A temporada de praia começava. Era ano eleitoral. O prefeito tentava a reeleição e procurava contentar todos os amigos. Inconseqüentemente, distribuiu pessoas sem qualificação em funções de grande responsabilidade. Assim fez à última hora quando da abertura da temporada de praia. Transformou o João Machado em salva-vidas. Uma temeridade que muitos tentaram fazer o prefeito enxergar, mas ele fingia-se de mouco e cego. Quando a insistência era grande, ele desconversava: “É só decoração. A água que ele vai ver é só a do copo de beber”.
Mas não foi bem assim. A temporada ultrapassou as expectativas e o João Machado foi convocado a trabalhar. Colocou a camiseta vermelha com uma cruz branca de braços simétricos – arranjada apressadamente – e foi para a beira d’água.
Escorava-se sempre no parceiro que fazia dupla com ele. Quando havia ação, era o parceiro quem a executava. E nisso o João ia se salvando nas primeiras horas de trabalho. Mas num determinado momento não teve jeito.
O movimento era grande na praia. Muitos turistas estavam lá naquele final de semana. O vento de julho tornara as águas do rio nervosas e João torcia para o dia terminar logo. O amigo havia subido o barranco levando uma velhinha no colo até o carro e ele estava só. Infausto momento. Uma menina de pouco mais de cinco anos fora surpreendida pela correnteza – que a ia arrastando. Gritos. Acenos para o salva-vidas e o João ali plantado na areia com cara de quem não era com ele. Alguns homens correram e praticamente o arrastaram para a água. Foi empurrado por várias mãos para o salvamento. Bateu água, agitou os braços e lá ia o João arrastado também pela correnteza. Não era mais um morrendo: eram dois! Um pouco mais abaixo, alguns pescadores que estavam em uma canoa – felizmente – resgataram a menina e a entregaram chorosa nos braços da mãe comovida.
O salva-vidas continuava descendo o rio, sumindo e reaparecendo à flor da água, agitando a mão como quem dá adeus. Quando perceberam que ele se afogava, os mesmos pescadores ligaram o motor de popa da canoa e foram buscá-lo. Veio esbaforido e envergonhado à praia. Estava cuspindo a água engolida quando o companheiro voltou.
As várias pessoas que lhe prestavam assistência estampavam no rosto o estupor de ver um salva-vidas afogando-se.
Conversavam e perguntavam-lhe querendo uma explicação:
– O que houve? – perguntavam uns.
– Sentiu cãibras!? – apostavam outros.
Envergonhado, João Machado tossia e cuspia muito para não responder.
O amigo socorreu-o em boa hora e, penalizado, resolveu tirá-lo dali. Antes deu a única desculpa que lhe veio à cabeça para encobrir a verdade de sua admissão:
– Ele colou no teste de natação.
Uma salva de \\\\\\\\\\\\\\\\\\\\Palmas e Tocantins.
Para o cronista de Araguaína
Meu amigo, vc deu uma sumida. Reapareceu quando devia sumir, no carnaval. Prazer em tê-lo aqui, sempre.
abcs
Muito bom, isso me fez lembrar um caso verídico de um motorista de ambulância da prefeitura daqui que não tinha carteira. Parabéns.
Camafunga · Pelotas, RS 19/2/2007 12:00
É, camafunga, por mais incríveis que pareçam, essas coisas acontecem.
abcs
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