Como se forja uma mulher de sucesso

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Simone M. e Mendes · Maceió, AL
1/3/2011 · 0 · 0
 

Aos treze anos, vira-se órfã de pai vivo. Fim-de-safra de uma família de quatro filhos, interpretara que sua genitora suportaria, meramente, à satisfação de suas necessidades primárias, à custa do fornecimento de marmitas, ensino particular, dentre outras atividades produtivas, porém, minimamente idôneas para a manutenção da sobrevivência confortável da extensa família. Sua precoce consciência sinalizou, de consequência, no sentido de que justiça faria se robustecesse o orçamento doméstico, considerando que seus irmãos mais velhos já não se permitiam o privilégio de somente estudar. Como, ademais, atender aos reclames da vaidade adolescente senão se dispondo a sair dos aconchegantes mimos de sua ama Maria, que a carregava embaixo das axilas desde o primeiro choro?
Algumas, em seu lugar, se comportariam de modo avesso aos princípios éticos, morais e religiosos transferidos por sua mãe, que, por sinal, deriva de família abastada, cujas riquezas foram dilapidadas pelas incúrias do marido. Aliás, mesmo hodiernamente, tais desvios são diuturnamente praticados por adolescentes universitárias, muitas das quais filhas da classe média, que se rendem aos apelos de uma sociedade consumista, vendem o corpo, sejam para os homens de vida dupla, vampiros da sexualidade vulnerável, ou, até mesmo, para as revistas masculinas, sob o acólito do nu artístico. Ela, não! Utilizara seus olhos de lince para sondar as possíveis alternativas de um trabalho digno; esculpiria sua história de modo a que nada precisasse omitir de sua futura prole.
Ingressara no mercado de trabalho em idade de brincar de boneca, sem jamais haver abandonado os estudos - frise-se, que, na qualidade de menor, não logrou qualquer obstaculização ou proteção das leis trabalhistas vigentes, somente mais atentas a isso com o advento da Carta Magna de 1988. Fora laborar numa das óticas de uma rede de cujo proprietário não tolerava qualquer deslize; sua austeridade não perdoaria sequer os eventuais desvarios naturais da adolescência recém-florida. As vezes que se curvara para lavar o banheiro, no entanto, deram substrato para a forja uma mulher proba, sem ângulos que maculem seu caminhar.
Valorizara cada tostão auferido, consumidos na construção de uma vida digna. Graduou-se em Psicologia para atar os fios mentais dos derrotados. Após quase seis anos de namoro e noivado com um rapaz igualmente trabalhador, casou-se – e, destaque-se: fez questão de declarar à família e amigos que estava casando de branco porque legitimada a tal conduta pelos preceitos católicos. Foi mãe de dois filhos, criados e orientados para a vida com todo seu desvelo.
Não fossem as inclementes reformas administrativas por que passou a Constituição, essa inquebrantável cidadã brasileira – aquela “que não desiste nunca” -, já teria tempo de contribuição suficiente para repousar em trabalhos como diletante, pois que de uma existência continuamente produtiva, jamais abdicaria.
Sua trajetória a qualifica como mulher de sucesso cujos rastros deveriam ser redesenhados por aqueles que se justificam como vítimas de um meio social inóspito e degenerado. Bravo indomável heroína! Sua história, acredite, estará inserta nos genes de seus descendentes.

Simone Moura e Mendes

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Simone Moura e Mendes
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