Brasil.gov.br Petrobras Ministério da Cultura
 
 

COMO TOCAR A FÚRIA COM AS PALMAS DAS MÃOS SEM DESPENTEAR O CABELO

1
Jefferson Alves de Lima · São Paulo, SP
21/7/2008 · 111 · 16
 

Eu comecei escrevendo essa história de maneiras muito diferentes nos últimos seis anos. Nenhuma delas, naturalmente, me interessou. Claro que – dentro de um período de tempo infinitamente menor - isso já havia acontecido com outras histórias. Mas também parece claro que todas elas (não é isso um romance inacabado?) terminaram me levando a desistir de uma coisa que não encontrava forma.



Mas não essa. Por um motivo que vocês logo saberão, essa continuou, insistentemente, ocupando-me. E isso de um tal modo que - como nestas lendas sobre histórias que nos desabam num único fôlego - ela terminou desfilando inteira à minha frente, bastando, mesmo, apenas concentração e calma para fixá-la na página.



Até então eu não percebia com clareza que era, justamente, o fato de partir de uma cena real o que me mantinha terrivelmente preso a ela. Talvez seja isso o que um autor como Jung chamava de “histórias que precisamos contar”, histórias que para ele pareciam não pertencer apenas a nós, que as escrevemos. Talvez. De qualquer modo, segue-a como me apareceu agora, depois destes anos. Espero conseguir dividir com vocês a mesma impressão que me causou.



J.A.L.

São Paulo, julho de 2008.



**

No dia 13 de dezembro do ano de dois mil e dois eu percebi uma rugosidade bastante incomum logo abaixo do meu queixo.



Parado em frente ao espelho, e com pouquíssimos segundos de investigação, eu retirava meu rosto da cabeça como a um plástico, deixando apenas diante de meus olhos uma imagem crua, horrenda e em carne viva.



De imediato, por curioso que pareça, aquilo me divertiu. Eu via tanto no tecido mole e viscoso caído no chão do banheiro quanto na imagem vermelha e gordurosa refletida no espelho um grande ar cômico.



Logo passei, dessa forma, a agitar-me diante do espelho como se meu rosto ainda estivesse ali e, instantaneamente, pensei em procurar minha mulher para observar a sua surpresa diante daquela situação – sem dúvida alguma - incrível.



Desci até a sala e encontrei minha mulher atirada no sofá escutando a televisão enquanto folheava alguma revista. Comentei qualquer coisa sem importância sobre as crianças que brincavam no chão da sala, esperando que ela levantasse os olhos e descobrisse, por si própria, a nova surpresa. Mas, ela ainda deitada, respondeu-me sem se virar.



Como as crianças começavam já a gritar e a chorar enquanto me olhavam, ela levantou-se assustada. Neste momento, eu próprio já estava bastante assustado e todo o torpor que uma situação como essa poderia provocar desmoronou, então, sobre mim.



Ela me olhava e gritava, tomada de horror, enquanto puxava as duas crianças para perto de seu corpo. Eu não sabia o que fazer. Queria socorrer as crianças e a ela que choravam desesperadamente e contar o que acabava de acontecer. Mas, atirado no súbito pavor que me atacava até o mal-estar, comecei a vomitar sobre minhas roupas enquanto procurava minha boca com as mãos.



Entre os gritos que cresciam com violência e a náusea que queimava meus nervos, voltei para a escada e avancei pelos degraus, já quase sem os sentidos, até que, mal cheguei ao banheiro, desmaiei.



Acordei já com o banheiro completamente escuro. Ainda sentido-me muito fraco, escorreguei a mão pela parede até o interruptor. A luz feriu-me a vista mas bastou-me acostumar à claridade para reconhecer meu rosto atirado próximo ao vaso.



Com os dedos trêmulos, ajustei a pele pouco a pouco sobre a carne viva. Saí em direção ao quarto, desci novamente até a sala e descobri que minha mulher e as crianças não estavam dormindo em casa. Voltei até o quarto e vi que o relógio marcava, em seus números vermelhos, já quase três horas da manhã.



No dia seguinte, dia 14 de dezembro, procurei por minha mulher e pelas crianças e, já mais calmo, contei o que havia acontecido. Juntos, decidimos que era melhor não procurarmos por pontos de cicatrização ou marcas incomuns em meu rosto.

Sobre a obra

- Espero conseguir dividir com vocês a mesma impressão que TUDO isso me causou.

"Parado em frente ao espelho, e com pouquíssimos segundos de investigação, eu retirava meu rosto da cabeça como a um plástico, deixando apenas diante de meus olhos uma imagem crua, horrenda e em carne viva."

compartilhe



informações

Autoria
Jefferson Alves de Lima
Downloads
125 downloads

comentários feed

+ comentar
Jefferson Alves de Lima
 

oi, ilhandariha. obrigado. que bacana que vc gostou do conto. quanto à não-ficção, acho que é a entrada em que a história melhor se encaixa aqui... não precisa se assustar. são coisas que acontecem :^ ) rs. abs. e não esquece de votar quanto entrar na fila, por favor. jeff

Jefferson Alves de Lima · São Paulo, SP 19/7/2008 22:44
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
cida marconcine
 

A história está completa ou vem aí uma segunda parte... muito bom... parabéns e tem o meu voto!

cida marconcine · Imperatriz, MA 20/7/2008 10:27
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
rap
 

Tem meu voto!

rap · Brasília, DF 20/7/2008 11:16
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
celina vasques
 

Meus votos espero o resto!

beijo no coração

celina vasques · Manaus, AM 20/7/2008 11:40
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
FlaM
 

Se eu fosse vc pensaria no que tem consumido nos últimos anos. Sei lá, né? algumas coisas produzem alucinações. Hehe!
mto bom, abraço! Flavia

FlaM · Florianópolis, SC 20/7/2008 11:47
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
O NOVO POETA.(W.Marques).
 

muito bom mesmo, parabéns.(votei).

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 20/7/2008 13:22
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Brida
 

Puxa! Não é a escrita automática do Surrealismo, certamente, mas a emersão do ICS com a forma tão bela, a escolha vocabular tão justa (justesse), fazem de você um escritor surpreendente! A-do-rei! Votadíssimo!

Brida · Salvador, BA 20/7/2008 13:24
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Sônia Brandão
 

Gostei. Parabéns.
Um abraço.

Sônia Brandão · Bauru, SP 20/7/2008 23:01
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Herbeson
 

votado amigo ! valeu!! parabens

Herbeson · Rio de Janeiro, RJ 21/7/2008 01:14
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Renato de Mattos Motta
 

doido de bom!

Aproveito e convido
a conhecer este poema:
http://www.overmundo.com.br/banco/gente-sente-se-men-te

Renato de Mattos Motta · Porto Alegre, RS 21/7/2008 09:56
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Barone
 

Muito bom! Parabéns!

Barone · São Paulo, SP 21/7/2008 10:03
sua opinião: subir
Saramar
 

Surrealismo? Metáfora?
Não sei, mas gostei muito.
Se vai continuar, talvez se possa perceber se esta face jogada justamente ao lado do vaso sanitário é algo a ser desprezado ou uma alegoria...

beijos

Saramar · Goiânia, GO 21/7/2008 17:59
sua opinião: subir
Jefferson Alves de Lima
 

oi, cida. oi, celina. oi, saramar. que bom. vejamos o que acontece nos próximos seis anos *rs. abs. jeff

Jefferson Alves de Lima · São Paulo, SP 21/7/2008 19:08
sua opinião: subir
Flávio Mello
 

é pena eu ter apenas 4 pontos...

abraço... muito bom!

Flávio Mello · São Paulo, SP 25/7/2008 17:09
sua opinião: subir
Acttus Produtora
 

Gostei!!!!!
Ve o que acha do meu poema
Não sou poetiza, só sinto...
http://www.overmundo.com.br/banco/overdose-2

Acttus Produtora · Porto Alegre, RS 3/9/2008 22:17
sua opinião: subir
Doroni Hilgenberg
 

Que sonho horrendo
Me lembrou Kafka e sua metamorfose
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 11/11/2009 20:51
sua opinião: subir

Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.

baixar
pdf, 4 Kb

veja também

filtro por estado

busca por tag

observatório

feed
Instituto Overmundo pesquisa a cadeia produtiva da música no Rio de Janeiro

Está no ar o blog de pesquisas do Instituto Overmundo. Você já pode encontrar lá os primeiros dados da pesquisa “Análise de modelos de negócios... +leia

revista overmundo

Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!

+conheça agora

overmixter

feed

No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!

+conheça o overmixter

 

Creative Commons

alguns direitos reservados