Ele já não queria mais só uma aventura.
Mulheres, lugares desconhecidos, muitas velhas musicas, muitas novas drogas. Todos os roteiros, todas as interpretações.
De tudo o que era oferecido para ele, e isso não era pouco, quase nada despertava sua atenção. Quando se interessava por algo era só para alimentar falsas expectativas. Seu interesse desaparecia logo.
A partir de um certo ponto, surgiu a vontade de acabar cada coisa antes do seu final. A possibilidade do final ser exatamente o que se espera dele, o apavorava. Como se o final a sua frente não reservasse nenhuma surpresa. Como se fosse uma mera formalidade.
Em seu currículo constavam vários programas inacabados. Festas, namoros, viagens, acampamentos e até uma lua de mel; a sua. Tudo pela metade. Bem, alguns acabaram muito antes da metade
Terminar antes tinha suas vantagens. Terminando antes ele garantia um pouco mais de atenção. Sua saída nunca era despercebida, alguns (e algumas) sempre o acompanhavam.
Atraídos por uma mística, uma fofoca, muitos e muitas se aproximavam dele. Ele era paparicado, ele era in, fashion . Com o passar do tempo esse assédio passou a ser um peso e nestas vezes ele escrachava, radicalizava. E quanto mais ele fazia isso, mais aumentava sua fama. Era o maldito que todos queriam conhecer.
E assim as coisas aconteciam.
Como uma bola de neve, que ninguém controla.
Quando começava a subir, era com um pouco de preguiça, mas a altitude, a vista aérea dos meros mortais lá embaixo, o iluminava.
Quando achava que já tinha subido o bastante, ele pulava. Sem pára-quedas.
E sempre tinha um louco, ou uma louca, para pular com ele. Nestas tentativas suicidas muitos de seus companheiros foram bem sucedidos.
Ficaram pelo caminho.
Mas com o passar do tempo, isso começou a perder a graça. Ele começou a se achar executando um script. Quando percebeu que tinha caído em sua própria armadilha, não se desesperou. Não fez mais nada. Semanas e semanas sem ver ninguém. O celular com a caixa postal cheia.
Reprovado por falta em quase todas as matérias na faculdade de filosofia.
Um monte de contas vencidas embaixo da porta da sala.
Só saia do apartamento para comprar comida. Sem bebida, sem drogas.
Numa espécie de retiro espiritual começou a querer limpar seu corpo, sua alma. Um monte de livros, que sempre quis ler, foi a ultima, e até hoje não paga, despesa do seu cartão de crédito.
Tudo aquilo que desprezava por achar filosófico demais agora o atraia. Nitzsche, Sartre, Schopenhauer.
Quando ressurgiu, despertou atenção redobrada. Além da mística já existente sobre sua inquietude e radicalismo se juntava agora o mistério do seu retiro. Logo começaram a circularem boatos de que tinha ido para a Índia, para o Nepal, ou para qualquer outro lugar que cheirasse à incenso.
Parou de beber, de fumar, de cheirar, e, segundo comentários não confirmados, de trepar.
Seu isolamento e mutismo lembravam o comportamento de uma pedra.
Sem nenhuma, ou quase nenhuma, troca com o mundo externo, com o passar do tempo sua magia começou a desaparecer.
As pessoas deixaram de o procurar. Deixou de ser in. Tão introspectivo que estava que nem percebeu quando se tornou out.
Antes era um junkie, um maldito, um outsider. Com o passar dos anos, passou a ser um bêbado. Se antes era procurado por todos, e todas, agora, com a mesma intensidade, era evitado.
Se antes era um “maldito”, agora também o era, só que sem as aspas.
Sem emprego, faculdade jubilada, sem amigos, sem mulheres. De repente começou a perceber o que era estar só. A solidão, o abandono, o ostracismo e o desprezo. Afinal um sentimento e um sentido verdadeiro – a solidão.
Junto com isso veio os 50.
Muito mais que qualquer discussão metafísica os anos chegaram arrebentando tudo e arrebentando com tudo.
Conceitos, discussões, opiniões, verdades preestabelecidas.
Tudo foi por água abaixo. O cabelo caiu, a barba cresceu junto com a barriga.
Todo seu conhecimento adquirido em 50 anos foi deixado de lado em função de algo bem mais básico: sobreviver.
Primeiro teve de abrir mão de seu apartamento, depois de sua moto. Então foi para uma pensão, até quando conseguiu pagar. Então para a rua, as calçadas. Debaixo das marquises, de onde não saia, simplesmente por que não tinha para onde ir.
Anos e anos se passaram.
Mas você não estaria aqui lendo sobre ele se este fosse o fim da estória. Uma estória que não tenha idas e voltas não merece ser contada.
A neve da bola de neve derrete, virando água que irá evaporar até a próxima nevasca, mesmo que ninguém veja.
Anos e anos se passaram até que um dia foi reconhecido por um de seus antigos discípulos, que, nostálgico, ofereceu-lhe ajuda. Limpo, roupas descoladas, barba e cabelo na moda. Fênix fashion aos 70.
Estimulado por seus antigos companheiros, agora pessoas de respeito na sociedade, ele começou a escrever um relato de sua existência, que acabou se transformando em livro. Sucesso absoluto de publico, mas não tão absoluto de critica. Dinheiro, fama, assédio, novamente.
Outra bola de neve se forma.
Anos e anos se passaram.
Agora aos 82, sentado numa confortável cadeira, na varanda de sua casa de praia, de frente para o mar, com olhar fixo nas ondas que, ao longe se formam com muita fúria, tomam forma, ganham estabilidade, diminuem de intensidade, encontram a areia, para finalmente sumirem na praia, ele sente um calor agradável que parece nascer no seu umbigo, subir pelo seu tórax e lhe atingir o cérebro. Olhando as ondas, num lampejo, ele pensa compreender tudo, entender a razão de tudo,entender a vida. Até que, lentamente fecha os olhos.
Ele está morto, no seu colo, seu livro: Como uma onda.
Na praia, continuam as ondas.
Um conto sobre aqueles que vivem intensamente, com sede de viver.
E de como isso sempre acaba...
Parabens e Sucesso !!!
Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do Jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br
Heraldo com a riqueza nos detalhes o seu conto me envolveu e me contou uma bela história de vida! Gostei muito!
Abraços poéticos,
Parabéns, Heraldo. Uma bela história que, talvez, nem seja ficção, tão possível de acontecer, ela é. Não conhecemos as histórias desses pérsonagens das ruas, de modo, que...
Votado Ivette G M
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