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Conflito

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celia p · Florianópolis, SC
21/3/2007 · 108 · 13
 

Conflito

Uma vez revelado, tomaria corpo. Saberia lidar com isso? Além disso, segredos existem para serem guardados. Paradoxalmente, havia praticamente desistido de ser racional, pois vivia se atormentando com as mesmas perguntas. Será que ele sentia as mesmas coisas que ela? Ansiedade? Vontade? Medo?

Queria poder controlar os sintomas daquilo. Mas, as reações eram involuntárias. Às vezes tinha a impressão de que todos podiam ouvir seu coração pulsando alto quando ele aparecia. Deviam perceber seu interesse, seu entusiasmo, já que quando ele chegava perto, sentia o ambiente esquentar. Sentia a boca seca, o típico desconforto, a consciência da presença dele.

Quando estavam próximos, sentia que a vibração entre eles era quase palpável. Queria se fazer notar, mas, ao mesmo tempo, não podia chamar atenção. Mas, era difícil não demonstrar que ele colocava graça e poesia em sua vida.

Feito sob medida para ela, não possuía uma beleza óbvia. Mais interessante que propriamente bonito. Tinha um jeito simples, encantador. Atraente de um modo que ela não sabia explicar. Divertido. Rápido. Afiado. Perspicaz.

Com fome de encontrar sinais, reprisava cenas vividas entre eles, buscando em gestos supostamente banais, a confirmação do sentimento que devia nutrir por ela.

Devorava livros inteiros, só porque ele havia comentado que eram bons. Assistia a todos os filmes que ele recomendasse. Seria capaz de rodar quilômetros, caso ele dissesse haver algum restaurante especial, mesmo que fosse em outra cidade.

Queria e não queria. Afinal, estava tudo bem, até ele aparecer abrindo um buraco que, antes, ela não enxergava em sua vida. Contraditoriamente, ele representava tudo que é certo e errado ao mesmo tempo.

Uma ocasião, como quem não quer nada, ele citou Drummond e disse: “Há vários motivos para não amar uma pessoa e um só para amá-la, este prevalece”. Do jeito em que estava, embevecida por ele, tudo parecia ter duplo sentido e, por isso, enlouquecia. Seria uma indireta ou um simples comentário?

Lembrava-se do dia em que, ao notar que os sapatos dela estavam desamarrados, ele não disse nada. Estavam conversando. De repente, o silêncio se fez, ele olhou para baixo e o que fez em seguida, foi, no mínimo, inesperado. Abaixou ao seu lado e, com todo o cuidado, delicada e vagarosamente amarrou o cadarço de sua sapatilha. Um gesto simples assim, mas carregado de intimidade e significados.

Só de pensar nisso, estremeceu por dentro. Naquele momento, ele parecia alheio a tudo que estava à volta deles. Era uma confirmação, uma promessa, sabia disso. Sentiu-se mexida e, inquieta, foi à cozinha tomar algo, mas, logo voltou a sonhar.

Nunca tinha gostado assim, de um jeito tão forte que chegava a doer. Mas, apesar de fascinante, esse era um jogo complicado onde ora se escondiam, ora se mostravam. Instigante e exasperante. Ele dava um passo em direção a ela para, em seguida, retroceder dois.

Sempre se perguntava como seria o encontro dos dois. Valeria a pena arriscar? Afinal, era tão bom ansiar por alguma coisa. E depois? E se fosse correspondida? Não saberia lidar com o concreto, com a realidade, com a morte da fantasia. Talvez a certeza estragasse tudo mesmo.

Foi quando concluiu, tinha que tentar. Falaria com ele. Melhor se decepcionar com a realidade, ser rejeitada, qualquer coisa, a viver pela metade, optar pelo morno ou passar ilesa pela vida. Amanhã. Sem dúvida. Amanhã, falaria com ele.

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informações

Autoria
Celia Penteado
Ficha técnica
Versão ligeiramente reduzida do conto "Conflito", de minha autoria, que foi publicado no Livro Convergentes, da Editora Guemanisse
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Saramar
 

Hummm.. tão bom, tão intenso!
A história bem contada, como essa, sempre deixa a vontade de ler mais, mais.
Espero que continue.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 18/3/2007 09:35
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Regina Lucena
 

Oh, as mulheres pensam muito... :)

Regina Lucena · Recife, PE 18/3/2007 12:25
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Pedro Gontijo
 

Concordo, as mulheres pensam muito =) Eu também penso bastante, mas é diferente. É menos incerteza e mais fantasia.

Adorei a parte do cadarço desamarrado. Gestos simples e íntimos dizem muito. O pegar na mão, um beijo inesperado, um pequeno e gostoso sarcasmo, ou quando a gente sorri sem querer, podem dizer muito mais que grandes declarações de amor.

Uma ótima "coincidência" ler seu texto! O "amanhã" dá tanta incerteza quanto o "apenas o soluço suave dela"... beijos!

Pedro Gontijo · Brasília, DF 19/3/2007 11:09
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Luca Maribondo
 

Conflitos e Essas Coisas, Sabe?!
Estranhamente, nossos contos (o seu "Conflitos" e o meu "Essas Coisas, Sabe?!") parecem ser versões semelhantes da mesma história. O seu parece ser a versão feminina do meu. Li e gostei muito. E obrigado pelo seu comentário.

Luca Maribondo
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Luca Maribondo · Campo Grande, MS 19/3/2007 16:05
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Roberta Tum
 

Gostei demais! E aí? ela falou com ele? rssss

Roberta Tum · Palmas, TO 20/3/2007 09:44
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Luca Maribondo
 

Perguntas certas
Valeria a pena arriscar? Afinal, era tão bom ansiar por alguma coisa. E depois? E se fosse correspondida? Que perguntas essas suas —não tenho certeza, mas penso que foi Mário Quintana quem disse que "A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas". Suas perguntas valem o conto. Gostei demais.

Luca Maribondo
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Luca Maribondo · Campo Grande, MS 20/3/2007 18:07
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Celio Soares Jr
 

adorei os conflitos parabéns!

Celio Soares Jr · Pelotas, RS 20/3/2007 20:55
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Fê Pavanello
 

Adorei!

Fê Pavanello · Brasília, DF 21/3/2007 10:18
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Leandro Valle
 

...Nunca o amanhã demorou tanto para chegar, a noite em seu escuro quarto cor-de-rosa, o céu-teto, agora roxo, se enchia de estrelas ou de imagens desse possível encontro, dessa tentativa de se livrar do conflitante pensamento que a agoniava, e que poderia se transformar em conforto, ou num abraço, um beijo quem sabe...

( Simplesmente Maravilhoso! Adorei, tanto que na leitura, várias idéias surgiram - daria um belo curta-metragem Celia! tantas idéias que até deixei um trecho aqui, poderia passar horas continuando a desenvolvê-lo, mas isso seria muita ousadia "na minha opinião", e não quero que isso aconteça, ou quero, ah não sei, estou em conflito, rs!) Parabéns, Beijão!

Leandro Valle · Florianópolis, SC 21/3/2007 19:29
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brigitte
 

Esse tipo de conflito é pior que a guerra...rs. Haja coração! Muito bom. O cadarço desamarrado será que não foi proposital? Me lembra as cenas de "Missa do Galo" de Machado de Assis. Mas que dá um arrepio na espinha dorsal, de ponta a ponta, ah!, isso dá. òtima narração. Senti afinidade entre o seu texto e o meu poema Pressentimento. Acho que temos algumas coisas em comum.Foi um prazer!

brigitte · Goiânia, GO 23/3/2007 15:39
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Leandro Valle
 

Olá, prazer em conhecê-la pessoalmente, mesmo que rapidinho! rs rs. Sigamos por aqui, trocando nossas idéias, textos, sonhos e devaneios, conflitantes ou, confortantes : - * Beijinho, até breve!!!

Leandro Valle · Florianópolis, SC 28/3/2007 02:54
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Ilhandarilha
 

ah, demais! paixão é isso assim desse jeito...

Ilhandarilha · Vitória, ES 18/10/2008 16:51
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celia penteado
 

celia penteado · Florianópolis, SC 18/10/2008 21:20
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