conheço palavras perigosas
conheço palavras perigosas
como rosas abandonadas no chão.
estiro-as sem pudor sobre a página casta,
sabendo o que basta para dizer então:
silêncio, caríssimo!
oh, não perturbes o poema com teu argüir inútil!...
aguarda, ignoto de teu destino
o sino veemente das horas minúsculas, informes,
de que são feitas as palavras tornadas poesia –
sua efígie amoral, sua afasia e demência.
ouve o sinal e aceita sua sina
qual herança ou violência.
toma do poema apenas o severo
esquema do espelho mágico
e ao perguntares sobre ti mesmo,
trágico ou patético,
ouvirás da superfície clara do simulacro
o mimético silêncio,
ardente como o sol do meio dia...
e verás que o espelho não é teu;
és tu, tal e qual, reflexa epifania.
é-se sempre o avesso do próprio eu:
a substância feita do que pensam de ti
e das idéias que tens a teu respeito.
eis o leito seco da areia das palavras
perigosas porque rasas e movediças
aparentemente submissas, escravas
da tua mão ou da tua boca...
em verdade moucas, parvas e omissas
pretensas à autônoma eloqüência,
à barbárie e à inconseqüência castiça!
...
repara o fogo oculto no corpo da palavra.
por vezes somente a surda fagulha das línguas mortas,
a primitiva clava do verbo fendendo
o gutural e pálido signo.
deixa que esse fogo seja de fato o ígneo
feto de tua fala, singular e claro objeto
que, aos solavancos, resvala
no féretro lento que te serve de discurso.
deixa que o sopro deste movimento dê curso
ao incêndio, e cinge tua língua na fuligem
da retórica & da lógica carbonizadas!
deixa assim que, ao perigo do que está prestes a ser dito,
junte-se o desejo contrito de não dizer nada.
deixa, enfim, ao teu aflito interlocutor
o labor e o risco de compreender
ou teu silêncio, ou tuas palavras.
*texto utilizado na peça "palavra máscara", de valério fiel, artesanato furioso, belém-pa.
sábias palavras!!"deixa assim que, ao perigo do que está prestes a ser dito, junte-se o desejo contrito de não dizer nada." fabuloso!!!
abs.
palavras são realmente muito perigosas, em especial para aqueles que delas fazem o prazer e o suplício em poesia.
silencio.
olá marcos!
"conheço palavras perigosas" faz parte de uma série de textos onde ponho em cheque o ofício da escritura, sua necessidade latente, na expressão do que quer que sejamos em existência. os textos pretendo reuni-los em meu primeiro livro, cujo nome será "a página branca". em suma, dizer é tão ou mais perigoso do que não dizer; onde queremos chegar então?
grato pela tua leitura e comentário!
abraços
olá luciana,
eis a questão: silenciar, talvez, seja o objetivo último em literatura, especialmente na poesia. é o que venho investigando, em textos que discutem a minha lida com a palavra, e com o espaço branco das possibilidades expressivas. comunicar, diria drummond, seria a alegria primeira, mas já sabemos que níveis profundos de comunicação humana são difíceis, requerem um grande tempo de aprimoramento. e clarice já anunciava essa possível jóia escondida na mudez. dou-me então ao perigo de errar, escrevendo...
muito grato pelo teu comentário sensível & sucinto,
abraços
Vou reler e reler, com muito cuidado e atenção, as suas palavras perigosas. Depois volto aqui e comento. Mas, definitivamente, fui fisgada.
Grande abraço!
olá cida,
fico feliz: o perigo das palavras, sua armadilha mais chã, é exatamente fisgar-nos a atenção distraída. aguardo ansioso o teu mergulho mais profundo em meu pântano de verso.
abraços
Muito bom, Renato!!! Muito, muito bom!
Carlos ETC · Salvador, BA 22/1/2007 19:05
olá carlos,
feliz que tenhas gostado. estas palavras perigosas são, enfim, tão necessárias a mim quanto o perigo mesmo de estar vivo.
abraços
és tu, tal e qual, reflexa epifania.
é-se sempre o avesso do próprio eu:
a substância feita do que pensam de ti
e das idéias que tens a teu respeito...
simplesmente!
olá rimbaud,
vejo que, a despeito de sermos conterrâneos, nossa comunicação não se fez inteira... afinal, me deixaste na dúvida (e creio ter sido este teu intento): simplesmente luca girard? simplesmente? ou...?
abraços,
r
Renato Torres · Belém (PA)
Conheço Palavras Perigosas
Muito Poético, gracioso e exporessivo.
....como rosas abandonadas no chão.
Parabéns pela inspiracáo
Mérito poe qualidade
azuir,
agradeço sua visita e o interesse por meus textos...
abraços,
r
olá poetisaluz,
o que há de grandioso, creio, está no olhar e na alma de quem lê. obrigado por vir recuperar este poema de que gosto bastante...
beijo, paz e luz também
r
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