Amanhecia. A insônia consumia-lhe as entranhas, devorando células como os vermes aos restos de outros sêres. Desligou a TV, com suas imagens de crimes hediondos, sequestros, estupros, assassinatos bárbaros.
Foi até a janela da sala tragando mortÃfero cigarro, enquanto o gato da vizinha estraçalhava ratos no seu quintal, com o fiel "pitbull" alerta e pronto para estraçalhá-lo em seguida. Enfim, tudo estava na mais santa paz, o Mundo corria conforme suas próprias leis. Recostou-se lentamente no sofá e... adormeceu !
***** ***** *****
Por vários anos a sabiá passou ali, imóvel, os pés cravados no único poleiro da minúscula gaiola. Era o orgulho maior de seu dono e algoz, passarinheiro renomado na região.
--"Valia mais que um carro"... vociferava, vaidoso. Um dia o pássaro amanheceu com ares de "auve" e sonhando ser macieira, de cujos frutos gostava tanto. Abriu as asas... e os olhos do patrão -- do tipo que engorda o g
Nato,
De onde você tirou a (brilhante) idéia de metamorfosear um pássaro em macieira? Confesso que gostaria que o segundo microconto (o que mais gostei) fosse mais longo, surpreendendo-nos mais vezes. Gostaria de ler mais coisas suas. Um abs e parabéns!
Muito bom, Nato...
Também acho que deveriam ser mais extensos!
Mas esse clima de suspense, de deixar o leitor imaginar finais aos contos, é genial!
Parabéns...
Abraço
Nato, achei e gostei. E foi até bom só achar hoje às 7 e pouco:
descansado e sem ressaca que ontem ninguém ousou nos chamar, "vai pagar uma gelada pro Mestre? Li e estou relendo,
um abraço, andre
Eu gostei do teu trabalho, parabéns.
Carlos Magno.
Li recentemente 'Retrato do artista quando jovem cão", do Dylan Thomas e um pouco mais além "Pico na veia", do Dalton Trevisan, mergulhos diferentes no mesmo rio da ficção moderna. De Thomas o suave frescor da geografia galesa sai das páginas direto pro cerrado amapaense, pulsando como se vida própria adquirisse. De Trevisan, a inverossÃmel literatura quer nos fazer crer que o absurdo, na verdade, é transfigurar a realidade em realidade absurda. Mérito da boa literatura. Nato dá sinais de que o absurdo é, muitas vezes, a própria realidade. Mérito do artista quando mergulha no profundo oceano do lirismo. O teatro do absurdo, contudo, soa mais singelo que a própria realidade. Ou quem vê graça ou lirismo nos noticiários do horário nobre?
Pepê Mattos · Macapá, AP 29/5/2007 08:39
BRETTON, grato pela gentileza da leitura e dos elogios. Seguiu comentário no teu perfil... ainda não domino bem essas "regrinhas" do Overmundo. Coloco ainda hoje, segunda, um dos sonetos que mais aprecio. Conto com vossa crÃtica. Abraços do "NATO" AZEVEDO
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA 29/5/2007 13:49
RONYE, meu jovem, quanta honra... o troço tem tÃtulo, é "CONTOS" DE UM CANTO... SÓ!", mas o computador do Overmundo barrou, não sei porque. Aidéia veio de um comerciante perto de casa, que tinha/tem ainda uma gaiolinha de palmo e meio com uma baita sabiá toda maltratada dentro. Aprendi os minicontos com um ótimo escritor lá de Londrina, o LECO (João dos Santos) e, agora, Vs. querem que eu volte aos meus rabiscos com 4 ou 5 pags? HOMESSA!
Tive que cortar trechos, era mais extenso, mas tenho outras 11 pags com umas 40 dessas "coisinhas" Aguardem! Abraços do "NATO"
PS: entro hoje com um soneto sobre doação de órgãos, não os seus é claro, meu caro fumante inveterado.
Salve Nato!
Vc sempre elaborando novas formulas pra contar histórias - achei genial microcontos. Tem que ser bom pra fazer isso.
Parabens garoto!
saudações do mato
OBSERVAÇÃO: desconheço quando esse conto ficou "desmembrado" de suas minipartes, mas REPRISO abaixo a obra completa, na forma original.
CONTOS DE UM CANTO... SÓ !
Amanhecia. A insônia consumia-lhe as entranhas, devorando células como os vermes aos restos de outros sêres. Desligou a TV, com suas imagens de crimes hediondos, sequestros, estupros, assassinatos bárbaros.
Foi até a janela da sala tragando mortÃfero cigarro, enquanto o gato da vizinha estraçalhava ratos no seu quintal, com o fiel "pitbull" alerta e pronto para estraçalhá-lo em seguida. Enfim, tudo estava na mais santa paz, o Mundo corria conforme suas próprias leis. Recostou-se lentamente no sofá e... adormeceu !
***** ***** *****
Por vários anos a sabiá passou ali, imóvel, os pés cravados no único poleiro da minúscula gaiola. Era o orgulho maior de seu dono e algoz, passarinheiro renomado na região.
--"Valia mais que um carro"... vociferava, vaidoso. Um dia o pássaro amanheceu com ares de "auve" e sonhando ser macieira, de cujos frutos gostava tanto. Abriu as asas... e os olhos do patrão -- do tipo que engorda o gado, segundo o dito popular -- notaram algo estranho. Por entre as penas nasciam folhas e, à tardinha, já se percebiam minúsculos frutos.
-- "Milagre"... gritaram as beatas do lugar, enquanto as fãs de seitas e das demais religiões afirmavam ser coisa do Demônio. De noite surgiram-lhe raÃzes sob os pés e, na manhã seguinte, de coisa viva na bichinha só restavam os olhos. movendo-se angustiados para todos os lados.
Seu dono agora está triste! "Aquilo", do jeito que ficou, não vale nada para êle. Aos cientistas que o procuram não vende por dinheiro algum, pois acha que êles não sabem apreciar um belo espécime.
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Ricardinho não era um mau menino... apenas, garotos naquela idade tinham por hábito destruir tudo o que encontravam pela frente. Naquele momento dedicava-se a matar interminável fila de formigas, metódicamente, uma por uma.
Arrependeu-se tarde demais! Deveria ter deixado ao menos algumas vivas, pensou com tristeza. Amanhã não terá nada para fazer o dia inteiro.
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À luz de velas, jantavam... os ânimos exaltados substituindo nos corpos a energia elétrica que faltava. A esposa, irada, gritava com o cônjuge, instalado no paÃs vizinho:
-- LuÃs Felipe, venha já para o Brasil... aÃ, você não fica nem mais um minuto!
-- "Què pasa, su tonta"! O menino vai ficar comigo... está no contrato "eso"!
-- Ouça bem, Ricardo: isso é lei aà na Argentina. Aqui, os filhos pequenos ficam com a mãe. Vem, Felipinho !
-- "Entonces, la niña" Mercedes volta para mim. "Usted no puede quedar con los dos. Volve para su padre, muchachita" !
-- Mas, "papito", eu... "estoy bien acá"!
Esse "tango à meia luz" continuaria indefinidamente se o pai, irritado, não se retirasse da sala com estrépito, abandonando a mesa de jantar e recolhendo-se ao quarto do casal.
Em um futuro qualquer, havendo nova guerra entre os paÃses, a casa -- situada sobre a imaginária linha de fronteira -- seria dividida em dois, ficando parte da sala e a cozinha com a esposa, brasileira, e o restante com seu ex-marido argentino.
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A "lulu" era "filha única" da madame "Tetê" Strump, milionária do high society. Tinha lugar à mesa, pratinho próprio, guardanapo e empregada para lhe escovar os delicados caninos após as refeições.
Banhavam-se juntas, dormiam na mesma cama, vestiam-se com idêntico "modelito" Saint Laurent -- a cadela de "papatinhos" de crochê -- e eram as duas "paparicadas" pelas amigas (interesseiras) da ricaça.
Acordaram, um belo dia, ambas "meio de lua"... madame ganindo pelos cantos e a "lulu", em pé nas charmosas patinhas, pedindo com os olhos o café da manhã à criadagem.
Durante o chá das cinco -- servido com biscoito para cães -- as amigas estranharam o comportamento da "socialite", encolhida sob a mesinha de centro, mas nada disseram. "Caprichos de gente grã-fina", concluÃram.
Ontem foi refeito o testamento: depois que a "totó" morrer, dona "Tetê" herdará dez milhões de dólares !
"NATO" AZEVEDO
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