CONTOS DE UMCANTO SÓ !
Amanhecia. A insônia consumia-lhe as entranhas, devorando células como os vermes aos restos de outros sêres. Desligou a TV, com suas imagens de crimes hediondos, sequestros, estupros, assassinatos bárbaros.
Foi até a janela da sala tragando mortífero cigarro, enquanto o gato da vizinha estraçalhava ratos no seu quintal, com o fiel "pitbull" alerta e pronto para estraçalhá-lo em seguida. Enfim, tudo estava na mais santa paz, o Mundo corria conforme suas próprias leis. Recostou-se lentamente no sofá e... adormeceu !
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Por vários anos a sabiá passou ali, imóvel, os pés cravados no único poleiro da minúscula gaiola. Era o orgulho maior de seu dono e algoz, passarinheiro renomado na região.
--"Valia mais que um carro"... vociferava, vaidoso. Um dia o pássaro amanheceu com ares de "auve" e sonhando ser macieira, de cujos frutos gostava tanto. Abriu as asas... e os olhos do patrão -- do tipo que engorda o gado, segundo o dito popular -- notaram algo estranho. Por entre as penas nasciam folhas e, à tardinha, já se percebiam minúsculos frutos.
-- "Milagre"... gritaram as beatas do lugar, enquanto as fãs de seitas e das demais religiões afirmavam ser coisa do Demônio. De noite surgiram-lhe raízes sob os pés e, na manhã seguinte, de coisa viva na bichinhasó restavam os olhos. movendo-se angustiados para todos os lados.
Seu dono agora está triste! "Aquilo", do jeito que ficou, não vale nada para êle. Aos cientistas que o procuram não vende por dinheiro algum, pois acha que êles não sabem apreciar um belo espécime.
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Ricardinho não era um mau menino... apenas, garotos naquela idade tinham por hábito destruir tudo o que encontravam pela frente. Naquele momento dedicava-se a matar interminável fila de formigas, metódicamente, uma por uma.
Arrependeu-se tarde demais! Deveria ter deixado ao menos umas vivas, pensou com tristeza. Amanhã não terá nada para fazer o dia inteiro.
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À luz de velas, jantavam... os ânimos exaltados substituindo nos corpos a energia que faltava. A esposa, irada, gritava com o cônjuge, instalado no país vizinho:
-- Luís Felipe, venha já para o Brasil... aí, você não sica nem mais um minuto!
-- "Què pasa, su tonta"! O menino vai ficar comigo... está no contrato "eso"!
-- Ouça bem, Ricardo: isso é lei aí na Argentina. Aqui,os filhos pequenos ficam com a mãe. Vem, Felipinho !
-- "Entonces, la niña" Mercedes volta para mim. "Usted no puede quedar con los dos. Volve para su padre, muchachita" !
-- Mas, "papito", eu... "estoy bien acá"!
Esse "tango à meia luz" continuaria indefinidamente se o pai, irritado, não se retirasse da sala com estrépito, abandonando a mesa de jantar e recolhendo-se ao quarto do casal.
Em um futuro qualquer, havendo nova guerra entre os países, a casa -- situada sobre a imaginária linha de fronteira -- seria dividida em dois, ficando parte da sala e a cozinha com a esposa, brasileira, e o restante com seu ex-marido argentino.
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A "lulu" era "filha única" da madame "Tetê" Strump, milionária do high society. Tinha lugar à mesa, pratinho próprio, guardanapo e empregada para lhe escovar os delicados caninos após as refeições.
Banhavam-se juntas, dormiam na mesma cama, vestiam-se com idêntico "modelito" Saint Laurent -- a cadela de "papatinhos" de crochê -- e eram as duas "paparicadas" pelas amigas (interesseiras) da ricaça.
Acordaram, um belo dia, ambas "meio de lua"... madame ganindo pelos cantos e a "lulu", em pé nas charmosas patinhas, pedindo com os olhos o café da manhã à criadagem.
Durante o chá das cinco -- servido com biscoito para cães -- as amigas estranharam o comportamento da "socialite", encolhida sob a mesinha de centro, mas nada disseram. "Caprichos de gente grã-fina", concluíram.
Ontem foi refeito o testamento: depois que a "totó" morrer, dona "Tetê" herdará dez milhões de dólares !
************* FIM ************************
OBSERVAÇÕES PERTINENTES:
1) RELANÇANDO O CONTO:
Esta obra foi publicada em minhas primeiras horas neste megasite cultural, na 2ª semana (25/maio 2007) aliás. Só agora descubro que a recente reforma (?!) "overmundal" amputou a maior parte do conto, substituindo-o -- no detestável Download -- por um pequeno desenho de um cavaleiro medieval. Estranhamente, se precisamos emplacar símbolos ou pequenas fotos/desenhos, esse mesmo programa os recusa sem pena nem dó.
Infelizmente, ao que parece, a tal "reforma" sumiu com boa parte do que se colocava no tal Download (fotos, principalmente) e, no meu caso, isso prejudicou bastante a compreensão dos textos, pois essas imagens os complementavam.
Entre mortos e feridos, o OVERMUNDO me deu leitores, novas esperanças enquanto Autor, vários amigos e até 1 computador (notebook TOSHIBA), gentilmente me doado no momento em que êle é mais necessário.
2) A MÃO DO DESTINO:
O Overmundo me deu também a maior das felicidades, a de (re)encontrar um colega de escola -- não ouso chamá-lo de amigo -- dos anos 60 em Araucária/PR e poder rever o local onde estivemos, em fotos de seu arquivo pessoal.
O Seminário Menor acabou, transformou-se em escola pública comum, o que é uma pena. Mas a mão do Destino nos aproximou, quando Augusto Spisla digitou ALOÍSIO CANCIAN julgando escrever Cansian... com S ao invés de C.
O "êrro", na visão dele, o levou às minhas reminiscências dos tempos de seminarista e a esse reencontro virtual que ainda me emociona. Na foto acima, estou atrás do pessoal em pé, "galalau" meio deslocado entre tantos garotos dos quais nada lembro.
Curiosamente, na revista "ENTRE AMIGOS", a resenha escrita pelos 2 traz o nome do Cancian com C mesmo!
(Abaixo, o e-mail inicial do A. Spisla:)
Descobrir o Cincinato depois de tanto tempo, foi sim obra de algum Anjo da Guarda. Na realidade, eu sequer lembrava desse nome. Só tinha uma vaga lembrança que em nossa sala havia um tal de carioca, que, parece, andava bastante de Alpargatas Roda e que tinha uma caneta esferográfica, que, ao escrever, largava tanta tinta e escrevia mais no verso do que no anverso das folhas do caderno. O seu caderno era todo azulão. Disso eu lembro. Do carioca, acho que era disso só que lembrava com nitidez.
Lembro, também, que ele dizia que tinha um irmão gêmeo e perguntávamos por que ele também não tinha vindo também para o seminário. E, é só de lembrança. Mas quando surge um fato novo em nossa vida, nós voltamos ao passado e passamos a desenterrá-lo, ou puxar uma linha, e o passado vai se revelando, mesmo que meio opaco, sem muita nitidez. Descobrir o Cincinato, foi sim obra do acaso. Na realidade, o que eu buscava era encontrar por onde andava um outro araucariano, um tal de Aloísio Cansian, com "s" mesmo. Só que ao escrever Cansian, no "GOOGLE", errei e escrevi "Cancian", com "c". Para minha surpresa, como resultado da minha pesquisa apareceu um tal de Augusto Spizla, com "z", que não era para ser eu, afinal eu sou Spisla, com "s". Mas era eu o tal Augusto. Aí, fruto da curiosidade, li o texto e consequentemente todos os outros textos do mesmo autor, um tal de "Nato" Azevedo. Meus olhos brilharam. Foi uma tarde maravilhosa. Não gosto de escrever, mas de ler gosto demais. Uma dessas incongruências da vida. E que textos agradáveis...Revirei meu passado. Lembrei do tal carioca. Associei carioca com Cincinato. Cincinato com Palmas, e daí foi um turbilhão total.
Voltei ao passado. Lembrei de alguns outros, do De Carli (naquela foto ao meu lado), do Assis (à direita, ajoelhado), do Vaz (em pé, à esquerda), do Longo, do Greboge, do Lucasievicz e de outros, que agora, no momento, já não lembro mais. Lembrei do álbum lá em casa que algumas poucas fotos eu tinha daquele tempo. Logo que chegasse do trabalho, daria uma olhada para ver se havia algo que lembrasse mais das pessoas. Achei aquela foto, imaginando ser você aquele mesmo ali do meio. E foi isso. Pura causualidade. Agora, descobrir o seu e-mail foi chute mesmo.
(OBSERVAÇÃO: abaixo os Comentários do texto anterior)
Nato,
De onde você tirou a (brilhante) idéia de metamorfosear um pássaro em macieira? Confesso que gostaria que o segundo microconto (o que mais gostei) fosse mais longo, surpreendendo-nos mais vezes. Gostaria de ler mais coisas suas. Um abs e parabéns!
Marcelo Bretton · São Paulo (SP) · 25/5/2007 14:52 alerta
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Muito bom, Nato...
Também acho que deveriam ser mais extensos!
Mas esse clima de suspense, de deixar o leitor imaginar finais aos contos, é genial!
Parabéns...
Abraço
Ronye Pires · Campinas (SP) · 25/5/2007 15:09 alerta
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Nato, achei e gostei. E foi até bom só achar hoje às 7 e pouco:
descansado e sem ressaca que ontem ninguém ousou nos chamar, "vai pagar uma gelada pro Mestre? Li e estou relendo,
um abraço, andre
Andre Pessego · São Paulo (SP) · 26/5/2007 07:26 alerta
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Eu gostei do teu trabalho, parabéns.
Carlos Magno.
carlos magno · Rio de Janeiro (RJ) · 27/5/2007 21:22 alerta
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Li recentemente 'Retrato do artista quando jovem cão", do Dylan Thomas e um pouco mais além "Pico na veia", do Dalton Trevisan, mergulhos diferentes no mesmo rio da ficção moderna. De Thomas o suave frescor da geografia galesa sai das páginas direto pro cerrado amapaense, pulsando como se vida própria adquirisse. De Trevisan, a inverossímel literatura quer nos fazer crer que o absurdo, na verdade, é transfigurar a realidade em realidade absurda. Mérito da boa literatura. Nato dá sinais de que o absurdo é, muitas vezes, a própria realidade. Mérito do artista quando mergulha no profundo oceano do lirismo. O teatro do absurdo, contudo, soa mais singelo que a própria realidade. Ou quem vê graça ou lirismo nos noticiários do horário nobre?
Pepê Mattos · Macapá (AP) · 29/5/2007 08:39 alerta
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BRETTON, grato pela gentileza da leitura e dos elogios. Seguiu comentário no teu perfil... ainda não domino bem essas "regrinhas" do Overmundo. Coloco ainda hoje, segunda, um dos sonetos que mais aprecio. Conto com vossa crítica. Abraços do "NATO" AZEVEDO
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua (PA) · 29/5/2007 13:49 alerta
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RONYE, meu jovem, quanta honra... o troço tem título, é "CONTOS" DE UM CANTO... SÓ!", mas o computador do Overmundo barrou, não sei porque. Aidéia veio de um comerciante perto de casa, que tinha/tem ainda uma gaiolinha de palmo e meio com uma baita sabiá toda maltratada dentro. Aprendi os minicontos com um ótimo escritor lá de Londrina, o LECO (João dos Santos) e, agora, Vs. querem que eu volte aos meus rabiscos com 4 ou 5 pags? HOMESSA!
Tive que cortar trechos, era mais extenso, mas tenho outras 11 pags com umas 40 dessas "coisinhas" Aguardem! Abraços do "NATO"
PS: entro hoje com um soneto sobre doação de órgãos, não os seus é claro, meu caro fumante inveterado.
"NATO" AZEVEDO · Ananindeua (PA) · 29/5/2007 13:57 alerta
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Salve Nato!
Vc sempre elaborando novas formulas pra contar histórias - achei genial microcontos. Tem que ser bom pra fazer isso.
Parabens garoto!
saudações do mato
arlindo fernandez · Campo Grande (MS) · 11/10/2007 19:58 alerta
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Oi Nato,
Texto interessante e de agradável leitura.
Beijos e votos,
Regina
Oi, Nato
Passando por aqui pela primeira vez e já encontrando autores tão interessantes quanto vc!
Adorei seu estilo.
Apoiando o seu resgate.
Aquele Abraço.
http://www.overmundo.com.br/banco/tribunal-2
Um conto que nos devolve algumas expectativas,será que vai ter uma segunda parte?
Um canto só é pouco,parebéns!
Fiquei encantada.
Gosto muito de mini-contos e os seus têm aquele nonsense saborosíssimo dos grandes contadores de histórias.
Ainda bem que os republicou.
beijos
Um bom e belo texto.
Votado.
Beijos poeticos.
Visite-me
http://www.overmundo.com.br/banco/nos-eu-tu-e-as-borboletas
AHHHHH... novas surpresas (eu diria, PRESENTES) nesse surpreendente Overmundo. Leitores que nunca vi antes -- nem pintados de dourado -- me visitando nessa grata hora.
MUITO OBRIGADO a todos! REGINA LYRA / SWEET / LUÍS SANTANA (meu xará, fui crismado Luís, com S mesmo), dona CLARA ARRUDA e uma sra Mia ou NIA NORONHA (a vista não ajuda muito agora) votando nessa (ainda) modesto escriba. Abraços p/ todos!
Nato,
Maravilha de conto. Maravilha também as histórias paraelas dos reencontros. Acho que a internet é coisa mágica mesmo. Um caixa de conrúdos infinitos e improváveis. Para nós então, que temos este monte de anos passados, a internet tende - e merece - ser paixão mesmo. Como temos mais o que lembrar do que a maioria e, a cada dia mais e mais conteúdo é lançado nesta caixa infininita, nós seremos sempre os maiores privilegiados, os mais reencontrados, os mais bem informados. Taí uma bela vantagem esta de envelhecer antes da maioria.
Abs
Nato,
é por isso que sou seu fã.
Abraços
Nato,
Quando aqui cheguei a pedido, por indicação e insentivo do www.Portal PortalCapoeira.com, foi voce e o Spirito; em seguida a Saramar , a Cintia, logo a Ana Mieneira.....e o Adroaldo, assim na chegada, os abridores da porta, o estender a mão, o oferecer o café (como no meu Gilbués). E de cara me senti desajeitadão: como lidar, manusear, trabalhar, aliar as palavras ao pensamento. E ai de todos, o Alcanu mais recente,
uma corrigenda aqui, um palpite ali aqui estou, ainda sofrivelmente estou e estou SIMPLESMENTE PARA NAO PERDER ESTE CONVIVIO, a fora o desejo de continuar aprendendo. E aprendi com meu amigo, admirável Prof. Leiteiro, a ir andando, ora .... e ora desajeitando-se. E Poucos dias descobrir serem os dois irmãos. E por sima gêmeos.
E agora, aprendendo a ter saudades, um abraço, andre.
E logo eu vidrado em retrato em preto e branco. Já que é para
saudades,
andre.
Adoro tuas histórias de colégio. Um dia, acho, vou escrever as minhas. Poebeijos. Sucesso, sempre.
Vives · Porto Alegre, RS 14/4/2008 01:46É uma tremenda viagem de volta ao passado! reencontros trazem alegria incontida. Beleza Nato! Mias uma de primeira!
raphaelreys · Montes Claros, MG 14/4/2008 07:08Nato, Cincinato...Que maravilha o teu texto e esta descoberta , este reencontro. Parabens, isso é felicidade.
Cintia Thome · São Paulo, SP 15/4/2008 19:50
Nato, gostei muito do todo...
Abraço fraterno,
Pati
SPIRITO SANTO / KAIS / ANDRÉ / VIVES / doutor REYS / PATY e minha cara dona CINTHIA... que seria de mim sem vocês, a me empurrar ladeira acima nessa caminhada literária sem rumo nem destino.
Acho que é a maior satisfação desse belo cantinho virtual chamado OVERMUNDO, essa plêiade de AMIGOS a nos incentivar a cada instante, nos apoiando em nossos sonhos e obras. DEUS LHES PAGUE! "Poebeijos" (obrigado, dona Vives!) para todos! AVANTE!
acho interessante esse resgate do passado com tanto humor e talento..reencontrei hoje um amigo antigo e constatei constrangido que não retive nada do passado na memória..como vc, ele me refez em velhas histórias e era como se falasse de outra pessoa..parabéns pelo talento..abraços do amigo touché
touché · Guarulhos, SP 10/5/2008 00:12
Caro Nato:
Sou filho do Aloísio Cansian. Coincidentemente, lendo algumas coisas, achei uns contos de alguém nascido em 52 e que tinha estudado no mesmo seminário que ele: a probabilidade de serem colegas de turma era imensa! Meu e-mail é acansiansegundo@gmail.com, mande-me algo para que possamos nos corresponder. Amanhã é aniversário do meu pai, e acho que seria um presente maravilhoso reencontrar um amigo antigo.
Aliás, ótimos contos, hein?
Abraços;
Aloísio Cansian Segundo
Olá, passando só pra te deixar o meu voto!
Bjs...Mil...
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