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Contração

1
Max Reinert · Florianópolis, SC
6/7/2008 · 96 · 5
 

Foi apenas um movimento do dedo indicador.
Uma pequena contração do dedo indicador.
Por que será então que eu ainda estou excitado?


Acordei naquela manhã como em todas as outras da minha vida. Nada indicava que aquele dia seria diferente de todos os outros. A mesma preguiça. As mesmas providências. O mesmo café da manhã. O mesmo beijo sem graça na mulher sem graça. Uma vida de merda, para ser exato!

Sai de casa, atrasado, como de costume. Peguei o ônibus, atrasado, como de costume. Levava a vida no atraso, como de costume. A gente se acostuma com tudo, dizia a frase que eu tinha ouvido em algum lugar. Era verdade. Eu havia me acostumado com a minha vida de merda, para ser exato.

No ônibus a mesma incomodação de sempre. Muita gente, gente demais. Ônibus velho e lotado. Gente suada, às 7h da manhã. Gente dormindo e babando, às 7h da manhã. Gente sem perspectiva, às 7h da manhã. Gente como eu, com uma vida de merda, para ser exato.

Na saída do trabalho - de merda, claro - é que aconteceu. Eu passava por uma praça cheia de gente, cabeça baixa e não percebi que estava acontecendo algo anormal. Quando me dei conta percebi um policial correndo na minha direção. Ele me olhava espantado. Não consegui entender o que acontecia. Ele gritou alguma coisa. Jogou-se em minha direção e eu consegui ver o momento em que uma bala de revólver acertou seu pescoço. Seu corpo caiu sobre o meu. Na verdade, caímos juntos. Eu não esperava por aquele peso sobre mim. Ainda tive tempo de olhar em seus olhos e perceber o desbotamento ocorrendo. Ele perdia a cor dos olhos, enquanto perdia a vida. Será que ele também tinha uma vida de merda como a minha? - pensei.

Ouvi uma senhora gritar. Pensei que ela gritava por causa da morte do policial, mas não. Levantei os olhos e vi dois homens correndo em minha direção. Estavam armados. Pensei em sair correndo. Pensei em levantar e oferecer meu corpo em sacrifício. Seria a chance de me livrar da vida de merda que levava. Ainda sairia como um herói que morreu lutando contra bandidos para salvar a vida de uma senhora inocente. Se é que ainda existe alguém inocente no mundo... existe?

Agi por reflexo. Não foi um ato heróico. Juntei a arma do policial que havia acabado de morrer por mim. Não pensei. Apenas empunhei o revólver, apontei para os homens que eu não sabia quem eram e contrai o dedo indicador. Uma... duas... três... quatro... oito vezes.

A população em volta me olhava estarrecida. Deixei o revólver cair e fiquei estático. Não sabia o que estava acontecendo. Aos poucos as pessoas começaram a mover-se ao meu redor. Alguns policiais vieram na minha direção. Fizeram milhares de perguntas. As redes de televisão apareceram. Todos queriam falar comigo. A senhora que estava próxima de mim chorava e me agradecia. O mundo inteiro virou uma grande confusão. Três horas depois fui levado pra casa. Minha mulher, aflita e sem graça, me beijou com uma paixão que há muito tempo eu não via. Meus filhos me olhavam incrédulos e com admiração. Seu pai era um herói.

Depois de um tempo os vizinhos foram embora. Meus filhos e minha mulher foram dormir. Alguém avisou do trabalho que eu não precisava ir no dia seguinte. Meus chefes tinham visto o acontecido pela TV e me deram três dias de folga. Eu não consegui dormir. Vim para a sala e fiquei sentado no sofá, pensando:

Que vontade de comprar uma arma e sair matando gente!

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Cristiano Melo
 

Max,
Bela narrativa, como sempre.
A estória é interessante, dá para refletir sobre como uma vida de merda pode explodir num "dia de fúria" e é irônico, pois tornou herói o ato involuntário do dedo no gatilho. Deu para sentir o odor no ônibus e visualizar a correria-ação. O que mais gostei foi o não fazer juízo de valor, narrado na primeira pessoa, fica bem interessante, se é anti-herói ou herói, fica a critério do julgo da personagem e não do escritor, jogo inteligente.
parabéns
abços

Cristiano Melo · Brasília, DF 3/7/2008 13:30
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
celina vasques
 

Belíssimo conto! Gostei demais!

Meus votos e meu carinho

celina vasques · Manaus, AM 5/7/2008 09:01
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

maravilhoso, votei porque gostei.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 5/7/2008 10:16
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Doroni Hilgenberg
 

Que conto legal! Essa vida de merda prendeu-me do começo ao fim e não esperava um final tão drástico para sair dela e ser notado.
É assim a vida!
votos e parabéns

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 5/7/2008 22:02
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clara arruda
 

Uma boa narrativa.Publicado.
carinhosamente.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 6/7/2008 07:39
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