Conversa Vultuosa

Adroaldo Bauer
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Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS
17/7/2008 · 134 · 11
 

Uns vultos arrojados à parede desassombrada pela fraca lâmpada desde um poste perfilavam alarmantes figuras. Pareciam quase tão ameaçadores quanto a conversa meio gritada, meio fanfarrona entre as pessoas de quem as sombras eram arrancadas pelo bruxuleio da lâmpada pendida do alto.

O vento assoviava no frio gelado do início da noite. Estanquei à janela que fechava à umidade e à friagem, querendo ajudar a esquentar um pouco o pequeno quarto em que mesmo a mata-junta da madeira parecia tiritar frente àquela inusitada baixísima temperatura de outono, próxima a zero grau.

- Eu não vou trabalhar um mês inteiro, oito horas por dia, mais extra no sábado pra tirar seiscentos paus. Isso não é vida. Isso é osso, carne de pescoço, escravidão até.


- É, mas como tu vai descolar grana pra fazer o tudo que tu queres?

A sombra mais alta agitava nervosa na ponta de um dos braços um 38 de cano longo e acompanhava, como um maestro regendo uma orquestra, a fala que lhe dava sentido espetaculoso: ora, com o ferro. Numa noite eu arranco uns trezentos na mão grande e completo a outra metade passando coisa, xará!

A sombra menor pareceu recuar um passo, medindo da outra a fala e abrindo a ela o espaço que a imponência do tom e do conteúdo estava exigindo. E, tão intrigado quanto eu, perguntou: sim, e se responde bala do lado de lá, que qui tu faz?

- Eu me garanto, ô mané, não tenho mais só 12 anos feito tu, já fiz 14, não sou mais criança ô perrengue!

Quando se afastaram dali, os dois meninos me avistaram à janela e sacudiram as cabeças em cumprimento, que respondi também com um meneio ligeiro, cortês, mas sem entusiasmo. O que mancava sorriu um tanto amarelo, um tanto escapista, o outro desviou o olhar duro muito rápido.

Sob a lâmpada, as sombras tornaram-se miúdas, comuns.

O discurso, no entanto, não me pareceu mais fantasia vultuosa, ficara grudado na memória como aquelas sombras fanfarronas na parede.

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informações

Autoria
Adroaldo Bauer
Ficha técnica
Reporto fato ocorrido recém há pouco, sob a minha janela, que é térrea e de frente para a calçada de um acesso estreito da vila onde moro. Não sei ainda o desfecho da história toda, embora se possa adivinhar.
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Ailuj
 

me permita um historinha no seu texto
O HOMEM VIAJAVA POR UMA ESTRADA DESERTA A NOITE E DE REPENTE O CARRO BATEU,ELE CAIU E FICOU PENDURADO NUMA RIBANCEIRA TODA NOITE E SOFRENDO TODO TIPO DE MEDO,PORQUE EM BAIXO ELE IMAGINAVA UM ABISMO ENORME
QUANDO AMANHECEU O DIA QUE ELE OLHOU PRA BAIXO VIU QUE NAO TINHA ABISMO E ELE PODIA TOCAR O PÉ NO CHÃO
Moral da história,nossos medos fazem nos ver monstros onde só existem sombras
Bjos

Ailuj · Niterói, RJ 17/7/2008 02:32
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clara arruda
 

meu querido,se entendi seu texto ele descreve uma cena que vc vivenciou.Vemos acontecer com grande frequencia.
Antigamente eu tentavareunir os pais todos os fins de semana para um café.Me esmerava para ter de tudo e falava:
Se vcs não podem tirar um menor da rua,não abandone os seus.
cada dia somos testemunhas de garotos numa tenra idade largados sem limites e vão apendendo apenas que roubar é mais fácil.Trabalhar pra que?
Seus texto nos deixa uma pergunta;
De quem é a culpa?
Um imenso abraço dessa amiga.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 17/7/2008 04:16
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celina vasques
 

Meus votos muito forte teu texto!


Muito bom e muito bem descrito!


Meus votos e meu beijo

celina vasques · Manaus, AM 17/7/2008 09:13
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Adroaldo Bauer
 

Grato, Celina, etimulas a que persevere e me aplique, mesmo quando nãoéa ficção. Cotumo dizer, e repito Belchior nisso (ao vivo é muito pior) que a vida não se imita,não há arteque a reflita,ela é inigualável, em todas as dimensões.

...
Clara, esses meninos aqui do relato, são decrne e osso, nos conhecemos desde que usavam fraldas, algo em casa deles e na convivência real os distancia, digamos assim, do "caminho do bem", sempre mais pedregoso e duro que a facilidade de uma bala achada na contra-mão.

***
Ailuj, a ^ti permito tudo. só alerto que não é das sombras que poderia surgir algum medo, quesão apenas sombras, é dos pirralhos armados e desacreditados da inocência que não sabem, como sabemos, que nada vale o que vale a vida.
dia desses, no começo do ano, está num relato da Juli aqui mesmo, um menino desses matou à bala uma menina na porta da escola porque o aparelho de telefone celular que tentava roubar dela não se destrancou do pulso da guria, amarrado que estava por uma correntinha. Então, não era a sombra sapateando o caminho da maldade, e era de dia, horado recreio da tarde.
Não estamos falando de medos, portanto, é da banalização da viol~encia e da desvalia da vida, como ocorre nas guerras.
É, pois, de uma guerra mesmo que se trataria.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 17/7/2008 12:14
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O NOVO POETA.(W.Marques).
 

muito forte,gostei muito.(votei).

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 17/7/2008 15:52
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Sérgio Franck
 

Puxa, Adroaldo, li, reli e vi imagens. Fino!

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 17/7/2008 16:19
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Benny Franklin
 

Sem comentários...
Forte abraço, Adro!

Benny Franklin · Belém, PA 17/7/2008 17:09
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Adroaldo Bauer
 

Agradecido, Benny, Walt já nos disse também sobre issso.
Grato, Franck, vejo-as diariamente, embora troquem de feição.
Agradeço, Marques. Fico feliz que tenhas gostado. É um flagrante dos tempos. Com mesma idade, há pouco mais de 40 anos (vixe!) estávamos pensando em como conseguir as varetas para montar os papagaios ou de que modo íamos colar a câmara da bola para poder jogar a pelada de amanhã. Os tempos , eles mudaram... Já nos alertara B. Dylan.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 17/7/2008 17:51
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Cintia Thome
 

Fantasmas reais...na penumbra, no vão que temos receio de imaginar em um dia dar de cara...e aí estão...vivos nos becos, atrás das portas...atrás de nós...nós somos filhos do medo...ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 17/7/2008 19:31
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Spírito Santo
 

Adro,

Fortíssimo. A acurada veia do repórter e a precisamente emocionada escrita do contador de histórias magnífico que és.

Forte abraço

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 26/7/2008 08:45
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Doroni Hilgenberg
 

Adro,
Essas cenas tão realistas são tão comuns por aqui que já não divisamos uma luz no fim do tunel. Minha irmã mora perto de um lugar muito perigoso e infelizmente os policiais e delegados que aparecem por lá é somente para extorquir ou para matar mesmo. Logo acabam matando-se uns pelos outros. É uma selva de pedra. Se não houvesse drogas e armas com tanta facilidade nas mãos de adolescentes já seria meio passo dado.
Bjsssss

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 31/7/2008 15:02
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