Copacabana, Avenida Barata Ribeiro, esquina com a Siqueira Campos. Ela viu a mulher correr (como fazem aqueles animais na savana africana, sempre perseguidos por guepardos e outras feras do tipo) e notou que enquanto corria a mulher deixara cair uma bolsa prateada dessas que estão na moda, onde cabe tudo e não se acha nada. Mal se abaixou para pegar a bolsa, na intenção de devolvê-la, quando ouviu a batida.
A dita cuja fosse quem fosse havia sido atropelada certamente por um garoto bêbado, desses que existem aos montes na Zona Sul do Rio e que acham que podem fazer tudo o que der na telha por conta do sobrenome que ostentam na carteira de identidade e por serem filhos de quem são.
Ela mais que depressa catou a bolsa no chão e foi até lá olhar de perto a situação da recém desencarnada. Sim, desencarnada e desfigurada. Não sei que jeito o motorista deu pra transformar uma mulata, alta e cheia de curvas, numa confusão de braços, pernas e cabeça totalmente desconjuntados. Talvez tenha sido porque além de atropelar, ele entrou com tudo numa galeria, arrebentando a mulher, o carro e algumas lojas, não necessariamente nessa ordem. Pelo menos ela não fez a passagem sozinha, já que o motorista morreu antes que os bombeiros conseguissem tirá-lo das ferragens.
Ela assistiu tudo de perto até a chegada da polícia, o que a fez lembrar duas coisas: primeiro, que já eram quase duas da manhã e Ela tinha pela frente uma viagem até sua casa no Jacaré e, segundo, da regra número um pra quem vive no morro e quer continuar vivendo: pintou polícia dá no pé. “Não vi nada, não sei de nada, sou trabalhadora”.
Nunca nos quatro anos desde que Ela começou a trabalhar em Copa, o seu ônibus havia chegado tão rápido como naquela noite. Ela subiu depressa e nem notou a gracinha que o cobrador fez. Subiu e foi pro fundo do ônibus, sentou naqueles bancos altos onde sempre gostava de sentar, agarrada a bolsa prateada que era igualzinha a uma que Ela vira semanas antes na vitrine de uma loja daquelas que pobre fica com vergonha de entrar. E assim, imóvel, Ela permaneceu até chegar a casa. Um barraco como tantos outros numa das não sei quantas favelas existentes no Rio. Um barraco. Nem feio, nem bonito, pequeno, mas confortável. Conforto pago em prestações que se emendavam uma na outra e que e ela rebolava para pagar e manter em dia, pra não ficar com o nome sujo. Deus me livre!
Largou a bolsa em cima da mesa e foi dormir. Dormiu como uma pedra e não sonhou. Achou estranho porque Ela sempre sonhava, na maioria das vezes com os pais já falecidos, outras vezes com o seu gerente, um gordo nojento que vivia dando em cima dela e que merecia levar um belo chute no meio das pernas. Quando não era uma coisa nem outra, sonhava com a época em que estudou na Escola Estadual Presidente Artur Bernardes, no interior de Minas, terra de seus pais, onde nasceu e viveu até completar 11 anos e a família se mudar para o Rio. Da família de quatro, o irmão foi o primeiro a morrer, se meteu com o pessoal da boca pra poder bancar roupa e tênis de marca e acabou no microondas quando o morro foi invadido por uma outra facção. Depois dele foi a mãe, que foi murchando, até perder a vontade de viver. “_Depressão” disse o médico. Já não comia, não tomava banho, não tinha vontade de nada, só olhava pra foto do filho colada na parede e foi enterrada com ela entre as mãos. O pai que era ascensorista em um prédio comercial em Bonsucesso morreu tinha uns dois anos por conta de um acidente no trabalho. Por conta desse acidente Ela recebeu uma apólice de seguro, dinheiro suficiente pra sair da favela em que morava e comprar um barraco numa outra favela longe de toda aquela história de perdas. Ela achava que se continuasse ali seria a próxima a morrer.
Levantou, preparou um café forte e doce daqueles que se toma numa golada só. Mastigou um pedaço de pão com margarina quando se lembrou da bolsa.
Lá estava ela, prateada, linda e com certeza cara, devia custar uns quatro meses do seu salário (sem os descontos). Mas não era dela e tinha que devolver, foi isso que aprendeu com seus pais. Mas devolver a quem?
Talvez dentro da bolsa houvesse algo que a ajudasse a completar essa missão. A dona da bolsa, no lugar em que estava agora, com certeza não precisaria mais dela e ali dentro deveria ter um endereço ou telefone de um parente a quem ela pudesse entregar aquele sonho prateado.
Abriu a bolsa. Batom, perfume, creme para as mãos, agenda, lenços de papel, um saco de pipoca amassado, absorventes com abas, um drops pela metade, um casaco, celular, chaves, contas de telefone, gás, água e luz, outro celular, uma carteira,..., uma carteira gorda recheada com cartões de crédito, cartões de banco, uns trezentos reais, talão de cheques, CPF e RG.
Identidade. O nome da desencarnada era Vanessa Ignácio da Silva, filha de Maria José Ignácio da Silva e de Constantino da Silva. Natural do Rio de janeiro, nascida em vinte e oito de dezembro do ano de mil novecentos e setenta e nove. As duas tinham quase a mesma idade, Ela era mais velha cerca de dois meses e alguns dias. A foto do documento era antiga e deve ter sido tirada quando Vanessa tinha uns quatorze anos, talvez menos e forçando um pouco a barra dava até para encontrar uma certa semelhança entre as duas. Quem diria que a menina franzina da foto iria virar um mulherão, dessas que param o trânsito (de um jeito ou de outro).
Procurou na agenda e em um dos celulares (porque o outro era daqueles cheios de coisas que precisam de curso pra aprender a mexer) por telefones de parentes para quem pudesse ligar. Curiosamente tanto na agenda quanto no celular quase todos os nomes eram de homens e vinham sempre acompanhados do nome de um bairro. Cláudio Leblon, Marcus Barra, Fernando Tijuca, Renato Humaitá, Sandro Botafogo. A agenda trazia ainda as idades e umas informações estranhas, como: Cláudio Leblon – 45 anos – curte fio terra, Sandro Botafogo – 28 – goza rápido (graças a Deus). Vanessa era da vida, piranha, prostituta, garota de programa e pelo jeito cobrava muito bem pelos seus serviços.
Ela desistiu de procurar por telefones de parentes e assumiu para si que Vanessa havia sido expulsa de casa por seu pai evangélico tão logo ele soube de onde vinha o dinheiro da filha. Vanessa deve ter comido o pão que o diabo amassou e pelo que leu na agenda, que era também um mini diário, a vida de Vanessa estava longe de ser fácil.
Decidida vasculhou as contas que achara e descobriu o endereço de Vanessa. Rua Prado Júnior, 195/1103. Como era seu dia de folga, Ela decidiu ir lá e ver se na residência haveria alguém a quem pudesse entregar a bolsa.
Diante do prédio tocou o interfone e disse ao porteiro o número do apartamento para o qual iria. Ele nada perguntou, abriu a portão e disse que ela poderia subir sem nem ao menos interfonar para checar se havia alguém em casa.
Ela subiu, tocou a campainha três vezes e não teve resposta. Resolveu então usar a chave que tinha dentro da bolsa para abrir a porta.
O apartamento de Vanessa era lindo, bem maior que o seu barraco, muito claro, bem decorado, televisão de plasma. O quarto era um sonho, as roupas também (embora um tanto ousadas demais da conta). Tudo era perfeito, mas o melhor estava por vir. O banheiro de Vanessa parecia coisa de cinema. Um espelho com aquelas lâmpadas em volta, um armário cheio de cremes, toalhas brancas, roupão.
Ela poderia viver ali para sempre, longe dos tiroteios, dos bandidos, da boca de fumo, da polícia corrupta, do esgoto correndo a céu aberto, do preconceito, do seu gerente gordo.
Ah, Copacabana. Até o ar cheira diferente. Se esticasse o pescoço um pouquinho dava pra ver o mar, lá embaixo um monte de gringos, gente bonita, aquilo que a TV mostrava e que Ela nunca poderia viver, a não ser que...
Naquela hora Ela teve uma idéia maluca. Daquele dia em diante Ela seria Vanessa, tinha todos os seus documentos, na agenda Ela viu que a falecida tinha a mania de assinar o próprio nome várias e várias vezes e isso se repetia em outros papéis que havia dentro da bolsa. Imitando a assinatura seria fácil movimentar as contas nos bancos e usar os cartões de crédito.
Tudo que Vanessa tinha parecia ser muito caro e em um extrato bancário jogado em cima da mesa Ela pode comprovar que em pelo menos um dos bancos Vanessa tinha uma poupança bem gorda e vários investimentos.
Parecia coisa de novela. Em dez segundos Ela já tinha um plano. Vender o apartamento, usar parte do dinheiro aplicado para comprar outro um pouco maior em Ipanema (porque Copacabana é uma bagunça, todo mundo sabe) e levar a vida que merecia, a vida que lhe fora negada e que agora cintilava diante de seus olhos.
Havia muitos detalhes para acertar, tinha que procurar a escritura do apartamento, talvez molhar a mão de alguém,..., era muita coisa para uma manhã de sábado, então Ela parou, abriu o seu armário, procurou seu melhor biquini e desceu. Resolveu ir à praia, porque o mar ajuda a dissolver os problemas. Foi à praia para homenagear a “amiga” e dizer que sua vida não havia acabado que, pelo contrário, estava prestes a começar.
Menezes!!!! que trama genial. Muito apropriada tendo Copacabana como pano de fundo. Enredo de filme. Parabéns. Lila Su
Lila Su · São Paulo, SP 17/11/2008 15:26Menezes, absolutamente f-an-t-a-s-t-i-c-o seu texto!!!!!!! Vou recomendar a outros overmanos, pq é uma obra prima! parabéns!
MonyBlu · São Paulo, SP 17/11/2008 18:48
MonyBlu e Lila, fiquei vermelho... Muito obrigado, suas palavras são sobretudo um incentivo!!!
Mil Bjs!!!
Olá,Rodrigo!
Parabéns, pelo conto,maravilhoso!Nos envolve do início ao fim...daria mesmo um grande filme, enredo fantástico!!Gostei demais da narrativa!!
Beijinhos azuis...
Blue
Repito o que os que me precederam já expressaram: conto excepcional!
Parabéns, R.Menezes.
Seu caminhar é longo.
Voltarei para votar.
Com certeza.
Muito interessante esse texto: realmente, é uma história que prende a atenção da gente...Parabéns...Abrs. Langinha...
Langinha · São Paulo, SP 17/11/2008 23:36Beleza, beleza. Tem pique de romance! Nota 1000! Parabéns pelo estilo e pela narrativa! Um abraço!
raphaelreys · Montes Claros, MG 18/11/2008 06:06
R.Menezes
MonyBlu me deu a dica. A dica foi ótima. Voce sabe prender o leitor, coisa essencial para a prosa. òtimo.
Parabéns e vou ler mais
Um abraço
Valeu mesmo gente, vocês são mesmo nota 1000!!!
R.MENEZES · Rio de Janeiro, RJ 18/11/2008 09:14
Rodrigo, ainda não bem adaptado ao site enviei meu comentário em sugestão.
como bom Carioca que sou, tratando-se de Rio de Janeiro, Copacabana, é perfeita sua narrativa ...concordo com a Lia ou talvez uma minissérie.
abraços.
Silveira
www.palavrasdepoeta.blogspot.com
www.contei-porai.blogspot.com
A ocasião faz o ladrão? Por mais que eu não goste da idéia, devo me conformar que é assim que as coisas acontecem? Não é culpa do escritor, que narra uma história, mas do próprio bicho-homem, desonesto por natureza e agravado pela educação e vissicitudes.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 18/11/2008 16:01
Parabens pelo texto; é preciso encanhinhá-lo para algum diretor de cinema ai do Rio, pois ta pronto o texto do filme é so rodar. Eu assino em baixo . sucesso
Andre Luiz Mazzaropi
O Filho do jeca
www.andreluizmazzaropi.com.br
O texto me levou a vários quetionamentos, o que prova que é um bom texto, a falta de segurança, a pobreza de espírito, a falsidade ideológica, o depravado estado do prazer, etc, etc...
Votado..
Abç...
votado conforme a vida corriqueira!!
excelente narrativa!
muito interessante!
abraços!
hifiquasar.blogspot.com
Mais uma vez muitíssimo obrigado pelas palavras.
Aviso também que já tem outros textos maturando.
Aguardem!!!
Além de ler agora com mais detalhes pude também embarcar na trama...bem amarrada, intrigante e interessante. Parabéns!
DecoRJ · Rio de Janeiro, RJ 22/11/2008 13:40Muito bem escrita essa história. Palmas p/ o Menezes e palmas p/ vc que divulgou esse interessante trabalho. Parabéns. Bj Langinha.
Langinha · São Paulo, SP 23/11/2008 23:08Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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