Na corda bamba há muito. Artista de circo. Malabarista. A vista erguida sobre a cinza sem cor da tarde. Mãos retesadas sob o bolso. Lembranças fragmentadas na cabeça, muitas. Um caso de amor. Um caso de dor. Paixão latente. Coração tic-tac.
A rua. Povo indo e voltando. Trânsito maluco. Faces mudas, pedras. Todos no caminho. Todas. Todas. Todas. Encarar a vida de frente ou dar a bunda pra ela. Das duas, uma. As duas. Nenhuma.
Sinal fechou.
- Antes que seja tarde, bicho.
- Qualé? Deixa desse negócio de piração. Frescura existencial. A bomba vai resolver tudo. Há mísseis no ar, por aí, encima, embaixo. Não há como escapar.
- É isso, bicho. Nada de novo no viver. Essenine.
- Mania de poesia, malandro. Nada disso, negócio é suar no batente até que tudo se foda. Dar sentido ao sem sentido, falei?
- Não.
Ergue os olhos ávidos, contemplando o copo vazio. É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de um rosto sombrio. Ou da cachaça. Brahma. Antarctica.
Lágrima rolando na face.
As lembranças mortas. As cicatrizes que o tempo vai abrindo, sangrando. Lição 01: aprender a estancar. O Sangue. Deitado na cama, olho no telhado. Um gato assustado. Rumores de conversas, grilos. A voz potente do locutor da televisão. Mais um avião caiu em Beirute. Bombardeado. Na África do Sul, racismo brabo. Talvez até fosse bom sonhar. Talvez. Mas a mulher de rosto irreconhecível pinta sempre no sonho. Nos sonhos, que não são muitos.
Chove. É incrível chover em junho por estas bandas.
Nada como um dia após o outro. Cidadão do mundo. Tantos ídolos mortos. Mas a geração não é a mesma. Não há Torquato, nem Joplin, nem Hendrix, nem Lennon. Merda. Vomita na pia mal amanhece o dia. Mija. Caga.
E vai à rua.
- Herdamos dos anos sessenta toda a piração, saca? A gente não viveu aquela época, mas ela tá aqui, é latente. No sangue. Coágulo.
- Não, não, companheiro. Os tubarões do ensino apenas mudaram de dentadura, saca? Nada de novo no viver, no ver, no vir, no ouvir.
- Merda.
- Faz tempo que o tempo anda pra trás, já sacou?
- Não, não: ele corre demais.
- Esse papo tá brabo, bicho...
- Niestche, já leu?
- Deus me livre e guarde!
- Merda.
Os copos cheios, derramando. Pelas bordas.
O apito. O salto. Porra de vida. Nem se pode mais andar sossegado. Teresina não é o que desatina. Mania de mexer nas palavras. Trocá-las. Invertê-las. Olho azul contra o céu. Vontade súbita de chupar um picolé.
A bomba vai resolver tudo.
A pomba.
Apenas.
Nada de choro. Nada. O rio, as águas turvas.
Uma esperança se agarrando às vísceras.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
SILVA, Elias Paz e. In: Outros contos piauienses. Teresina, Projeto Petrônio Portella, 1986. Páginas 83-84.
Na corda bamba há muito. Artista de circo. Malabarista. A vista erguida sobre a cinza sem cor da tarde. Mãos retesadas sob o bolso. Lembranças fragmentadas na cabeça, muitas. Um caso de amor. Um caso de dor. Paixão latente. Coração tic-tac.
A rua. Povo indo e voltando. Trânsito maluco. Faces mudas, pedras. Todos no caminho. Todas. Todas. Todas. Encarar a vida de frente ou dar a bunda pra ela. Das duas, uma. As duas. Nenhuma.
Sinal fechou.
- Antes que seja tarde, bicho.
- Qualé? Deixa desse negócio de piração. Frescura existencial. A bomba vai resolver tudo. Há mísseis no ar, por aí, encima, embaixo. Não há como escapar.
- É isso, bicho. Nada de novo no viver. Essenine.
- Mania de poesia, malandro. Nada disso, negócio é suar no batente até que tudo se foda. Dar sentido ao sem sentido, falei?
- Não.
Ergue os olhos ávidos, contemplando o copo vazio. É sempre bom lembrar que um copo vazio está cheio de um rosto sombrio. Ou da cachaça. Brahma. Antarctica.
Lágrima
O Circo é uma grande escola, porém não valorizada.Excelente trabalho.Volto depois.Abraços.
Orisvaldo Tanniy · Teresina, PI 2/2/2010 09:27
Eu vou me equilibrando pela vida e nem tenciono dar a bunda pra ela !
Um beijo !
Bunda pela vida? , nem eu. Nada como um dia após o outro.
Ou , por outra: nada como, um dia após o outro.
Ótimo texto de fluxo-desabafo. Dos sessenta restou o mito: eles foram ótimos, foram o máximo , e nós? , nós, como o filho daquele grande, super, extraordinário artista, sem saber o que ser pois o pai já foi tudo.
Mas , mas , será que é isso mesmo? Sei lá, a vida é a vida, passe por ela vivo e já tá muito bão!
abraços
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