Ator por um dia - As Filmagens!
Conheci Nestor Capoeira através do meu Professor Lua Rasta em uma manhâ ensolarada, num camping a beira-mar por volta de 1975, me foge a memória como, só sei que das outras vezes que tornei a vê-lo, nos tratamos como velhos amigos. Então quando o falecido Rubinho Tabajara me convidou para participar de um filme com Nestor & Zezé Mota (sou seu fã) eu vibrei, era a realização de um sonho!
Primeiro dia:
Cheguei cedo (6h30) para a filmagem- o ônibus só sairia as 7 horas, mas pasmem o veículo já estava lá. Saimos no horário outro bom sinal, tudo indicando que ia embalar a minha carreira de artista nacional ou global.
Após 2 cansativas horas chegamos ao local da filmagem, lugar muito lindo, todo gramado, do tamanho de um campo de futebol e rodeado de montanhas na cidade de Campo Grande.
Atrás das montanhas ficava a rua por onde viemos e uma Baiúca (pequeno comércio) aonde compramos biscoitos e refrigerante, enquanto esperávamos o jipe que faria parte da filmagem.
Deu 10 horas, deu 11, deu meio-dia e nada do bendito (ou seria maldito) jipe. Estrebuchava- mos de calor e raiva quando o infeliz apareceu, demorara porque se perdera. Haviam contratado um rapaz da Zona Sul e não lhe deram um guia que conhecesse a Zona Norte, por isso não houve filmagem nesse dia!
Segundo dia:
Eu já sabia que estava em um filme nacional, mas estava determinado a não perder essa chance, assim que começasse a filmagem eu queria aparecer o máximo possível. Na primeira cena não deu para me promover, mas na segunda "tomada" caprichei.
Tinhámos que correr uns 50 metros morro acima em direção ao Nestor Capoeira, isso com a câmera nos filmando pelas costas. Saí pelo meio e cheguei por último. Depois a câmera foi lá para cima do morro e filmava por trás do Nestor, enquanto corríamos em sua direção.
Passei "sebo nas canelas", botei 10 no coelho e ao sinal de AÇÃO, disparei. Só não cheguei em primeiro porque era o meu amigo Rubinho quem estava na minha frente. Rubinho "morreu" com um arrastão, eu levei uma rasteira e enquanto o Nestor cuidava de outro guarda, me levanto e tento lhe dar uma chicotada, apesar de todos os guardas portarem revólver, armas de verdade!
No que ele me dá um martelo (vide foto), caio em cima do pé dele que estava sobre um formigueiro. Tivemos que ficar uns 10 segundos imóveis, enquanto isso as formigas invadiam o meu macacão e "almoçavam " o pé do Nestor.
Um providencial OK nos salvou!
Apesar da presença de Zezé Mota no "SET" oque mais chamou atenção nos 3 dias de filmagens, foram 2 negros da turma de escravos. Ricardo de uns 15 anos quase 1,90m de altura e uns 80 kilos impressionava, e junto com o outro baixo e magro, uns 25 anos e expressão de calma maquiavélica formavam a "dupla dinâmica" do "SET"(?) de filmagem que por sinal não tinha banheiro nem água!
Este segundo dia de filmagem foi um irritante teste de paciência, pois Deus querendo "aparecer", mandou-nos interminável sequência de nuvens. Abre lente, fecha lente, bota filtro, tira filtro...chegou finalmente a bendita hora do almoço.
E espera, espera, espera...lá vem a kombi!
Olhos cheios de esperança, bôca aberta cheia de dentes.. abre-se a porta do veículo;
Uma revoltante montanha de sanduiches com refrigerantes, a gritaria foi geral, olhei para a "dupla dinâmica" e pensei:
Vai começar a pancadaria!
Mas nada aconteceu e depois eu soube que enquanto torrávamos o" miolo no sol", eles fantasiados de escravos - calça de pijama listrado- tinham ido a Baiúca, aonde "aplicaram" de grandes artistas, enchendo o bucho de graça!
A choradeira deu resultado pois o jipe fez uma "feira-relâmpago" voltando abarrotado de frutas, mas estacionou para nosso azar, bem ao lado das 2 "ovelhas negras".
Assim que o motorista se afastou, eles pegaram o jipe e se mandaram para dentro da mata, voltando mais tarde sem o jipe é claro!
Quem foi ver o "estrago" disse que metade das frutas só dava para fazer suco. Infelizmente não se podia mandar os 2 projetos de bandidos embora, porque eram eles os chefes dos escravos, os que iriam salvar o Nestor dos guardas!
Terceiro dia:
Enfim Deus que é brasileiro descansou e pudemos terminar as filmagens, cuja última cena era bem simples. Nestor Capoeira saltava do jipe e um guarda corria uns 7 metros em sua direção, sendo perseguido por um escravo com uma foice de madeira - que tinha numa das faces da lâmina uma bôlha de mercúrio- com a qual atingiria a costa do guarda, "matando-o" a uns 2 metros do Nestor.
Para o papel do escravo foi escolhido o sinistro magro da dupla dinâmica e para o do guarda adivinhem quem? Apolinário!
Meu amigo Apolinário, era um jovem mineiro com uma voz esganiçada, que se tivesse veia cômica seria substituto do Costinha, mas tinha um grave defeito para o papel: Simplesmente corria demais!
Só por isso estava no Rio, pois havia ganho de uma universidade local uma bolsa como atleta.
E começa a pantomina:
Ao comando de ação Apolinário dispara, ambos passam pelo Nestor e vão mais uns 30 metros além.
O diretor orienta Apolinário a correr menos.
La vão os 2 mas novamente, ultrapassam Nestor e na terceira vez que o diretor grita "AÇ.." ,o escravo se adianta e mal Apolinário dá 2 passos, leva uma madeirada na costa.
Mas ao invés de cair vira-se para o rapaz e protesta:
Que qué iiiissssso negão?.
Trocou-se o macacão sujo de tinta vermelha e o capeta repetiu a dose, desta vez quebrando a foice de madeira na costa do pobre Apolinário.
Olhei para o rosto do "distinto" e não vi nem sombra de um sorriso, houve troca de macacão e novas repetições, agora com foice de ferro num total de 7 vezes.
Após o almoço recomeçam a filmagens quando derepente invade o local um "coração de mãe" caminhão-poltrona da Policia Militar com uns 20 PMs.
Pensei que tinhámos invadido propriedade particular mas me enganei, queriam levar a dupla dinâmica, pois haviam assaltado a Baiuca do mesmo comerciante que lhes "enchera o rabo" de biscoito no dia anterior.
A Direção do filme contornou o problema , derepente uma grande surpresa chega a próxima vítima:
Zezé Mota!
Simpatia em pessoa, lindíssima numa bota de couro branco, Zezé viera participar das filmagens e provávelmente trocou de roupa no nosso ônibus. Finda as filmagens os diretores doidos para irem embora, se entupiram numa kombi com os equipamentos e nós entramos no onibus, Zezé que foi a última a entrar perguntou:
Gente, alguém viu minhas botas?
Nas nossas cabeças brilharam 2 palavras:
Foram êles!
Ela dá o ultimato:
O ônibus não saí até que as botas apareçam!
Passados uns 15 silenciosos minutos, nós cheios de ódio e com a barriga cheia de fome, vimos surgir o "Passaporte" para continuar a viagem:
As benditas botas brancas, agora zebradas de graça pois tinham sido escondidas no motor traseiro do onibus.
Não sei como Zezé se sentiu, mas eu quase tive um ataque cardíaco!
O ônibus se tornou um mausoléo, mas no meio da viagem ele para, abre-se a porta e entram 2 diretores, um dêles com um "garnizé" (galo ao contrário) na testa ou afundamento de crânio, que deve ter inspirado ao Nestor o título do livro Galo já cantou.
Na pressa de irem embora a kombi batera mandando meia dúzia para o hospital.
O fim da História:
Após uns 3 meses de telefonemas, idas e vindas, consegui receber por minha participação no filme. Gastei bem mais tentando receber do que ganhei pois a empresa Lanterna Mágica Produções fez a mágica de deixar na "lanterna" da folha de pagamento aos que ela devia, para ver se eles desistiam.
Eu não quis ir a Pré-Estréia deixando para saborear meus minutos de glória no lançamento do filme nos cinemas.
Triste destino o meu!
O Cordão que era de Ouro após a pré-estréia virou lata e eu pude ver só uns 10 anos depois que os meus minutos de glória tinham virados míseros e irreconhecíveis 10 segundos.
Por sorte o fotógrafo (Edison Silva(?)) que registrou a foto que está na contra-capa do Pequeno Manual do Jogador de Capoeira do Nestor Capoeira, só foi impedido de fotografar as cenas do filme, logo depois desta foto, porque o "Clic" da máquina estava entrando na trilha sonora.
O dia da Pré-Estréia por Nato Azevedo
A pré-estréia foi no último cinema de Copacabana no Posto 6, não me lembro o nome, no fim do ano, 400 ou mais lugares completamente tomados pela galera capoeirista.
Recebemos todos um questionário (que virou aviãozinho na sala escura) e um lápis para anotar as opiniões sobre o filme.
Foi uma bagunça geral, muita conversa durante a projeção, um zum-zum-zum danado e até algumas vaias não sei bem porque.
Adorei o filme de cenários naturais belissímos, um maculêle&bumba-meu-boi empolgantes e um enredo futurista bem plausivel.
Infelizmente se Cordão de Ouro foi lançado no circuito comercial não ficou muito tempo, pois dizem que o produtor Antônio Carlos Fontoura, nome respeitado no mundo cinematográfico, receando a rejeição do filme não o colocou em cartaz!
Leiteiro
Curiosidades:
- Frase publicitária do filme:
"Esse cordão de ouro vai manter teu corpo fechado enquanto tu tiver coragem de olhar dentro dos olhos dos teus inimigos".
- O diretor/roteirista do filme Antônio Carlos Fontoura sonhou a história do filme, acordou com a história inteira na cabeça e só teve que anotar.
- O filme ficou dois anos parado antes de ser lançado.
- Nestor Capoeira era um grande Mestre de Capoeira da época.
- No dia em que filmaram o jogo de Capoeira do persnagem principal com Ogún, o diretor perdeu a voz.
- Junto com a voz acabou o dinheiro do filme, que ficou dois meses parado.
Ao procurar uma orientação sobre o que poderia estar contecendo, na área do Candomblé e da Umbanda, lhe foi dito que a intenção era muito louvável, porém ele não havia pedido autorização aos Orixás.
Após isso as filmagens correram bem.
Mestre Camisa no auge da técnica!
Cordão de Ouro the Movie
http://br.youtube.com/watch?v=qWb-8pDzxko&feature=related
Eu estou na Parte 3!
http://www.youtube.com/watch?v=t9S87N3jy2s&feature=related
Sob todos os aspectos apesar de quase nenhuma CAPOEIRA, o filme CORDÃO DE OURO é um marco divisor na filmografia brasileira. Antes dele os jovens em geral (mulheres á parte) só tinham para a sua diversão chanchadas-pornô ridiculas, sem graça nem enredo, sacanagem explicita a titulo de cinema nacional e como filme de CAPOEIRA citava-se apenas o PAGADOR de PROMESSAS (1961) que quase nimguém viu, enquanto obras antigas feitas com BIMBA e PASTINHA nos eram completamentes desconhecidas na epoca. Comentario de Nato Azevedo, a seguir eu Renato Azevedo o LEITEIRO relato minha experiencia participando do HISTORICO registro no ano de 1976 no Rio!
Aposto que eu teria gostado. aposto.
produzir filme é meio como tirar leite de pedra, né não?
haja fé.
pena o produtor Fontoura ter vacilado na sua.
seu texto passa toda a expectativa e emoçao de produzir a arte.
bjsssssssss;)
Nossa !
que complicado...
fazer um filme não é pra qualquer um
E neste o amigo Nato estava junto?
bjs
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