Não sei bem quando começou isso de recitar à maneira dos repentistas nordestinos. A lembrança mais antiga que tenho é de uma reunião de amigos que programaram uma quinzena de férias com as respectivas famílias. Alguns de nós deliberaram fechar um hotel de beira-mar em Santa Catarina, composto de uns tantos chalés. Coincidentemente, o proprietário tinha na família uma juíza, pessoa muito simpática, e um advogado, falante como todos os advogados. O nome dele era Lênine e apenas por isso havia sido recolhido à prisão por alguns dias, ao tempo da gloriosa de 64, até os militares descobrirem que o verdadeiro comunista nunca havia estado no Brasil. “Se alguém deveria ser preso por causa do meu nome, esse alguém é meu falecido pai” dizia o advogado, com toda procedência.
Alugado o hotel todo, rateamos entre nós o custo disso e lá fomos com mulher e filhos. Nessa quinzena criaram-se ou solidificaram-se grandes amizades, especialmente por causa da facilidade das crianças de se entrosarem, além do fato de as esposas conhecerem-se melhor.
Durante uma churrascada, o Gilberto Valente, que eu já conhecia da Faculdade, pôs-se a arreliar os presentes, ao som do seu inseparável pandeiro, imitando o que fazem os cantadores nordestinos nas feiras. Todos riam, mas nenhum tinha coragem de responder aos seus versos. Quando ele se chegou à nossa mesa, ocorreu-me de replicar os versos provocativos dele. Fui ovacionado, pois estava, de certa forma, lavando a honra de todos. Ele treplicou e eu, empolgado, sapequei nova resposta rimada. Aquilo foi longe, ao som do pandeiro e da cerveja.
Depois disso, em mais de uma oportunidade atrevi-me a retomar aquela forma de versejar, empregando, sempre que possível, o linguajar inculto dos cantadores nordestinos.
Recentemente, foi noticiado que certa senhora estava a processar o dono de um galo, porque este perturbava a sensível vizinha, que trabalhava em casa. Isso mereceu este comentário:
BRIGA DE GALO
Eu prefiro um cocorico
a buzina de artomove.
Cum isso nem se comove
quem só pensa em ficá rico.
A Natália Teodoro,
qui trabaia no quintá,
qué fazê o galo calá,
e apresenta o seu choro.
Oça aqui dona Natália:
o galo tomém trabáia:
é ele que acorda o sór.
Eu sei bem do que eu falo
que dinhêro vai pagá-lo
por cantar em dó maior?
Zé Preá e Ontõe Gago são os nomes de guerra de dois amigos nordestinos, ambos amantes desse tipo de desafio. Trocaram farpas rimadas e eu entrei na contenda com estas apaziguadoras estofes:
PRA ONTÕE GAGO E ZÉ PREÁ
Ocêis dois pára com isso!
Gente mais da muderninha,
tão procurano é inguiço
seus vendedô de farinha!
Nordestinos mais coquete,
falano coisa difíci
pra não dizê só tolici
só mostrano gabolici
com isso de Internete.
Onde puséro o cordé?
Cadê nossos repentista?
Tão pareceno mané
achano que são artista!
Essa globalização
matô a nossa curtura.
Diga lá: quem mais atura
aicecrim de rapadura
e caubói lá no sertão?
Tenho uns amigos gaúchos que me convidam com insistência para ir ao Sul saborear um bom churrasco com eles. Um paulista que lá esteve saiu corrido. O gaúcho, quando chegou o hóspede, disse ao empregado da instância: “Dê-lhe a janta e depois mate.”
Por motivos vários, tenho adiado a ida, mas isso deve concretizar-se ainda neste ano. Na troca de correspondência, um deles, da família Maia, fez uma sábia advertência: “Quem é coxo parte cedo”. Tomei isso como um mote e fiz-se esta
HOMENAGEM A UM GAÚCHO
“Quem é coxo parte cedo”,
frase mais do que batuta.
Um elogio te concedo:
tu és um filho da luta!
Já tem Maia no pedaço
botano sua cuié,
traz a espada de bom aço
vem tarveis com a muié.
Dança o shótis ou baião,
o amigo do nordeste?
Puxa gaita ou rabecão
gaúcho do sudoeste?
Pra selar nossa amizade,
e abraçar a rapaziada,
eu canto Mário de Andrade
com sua viola quebrada.
A vantagem desse tipo de poesia é que não tem mais fim, especialmente em tempos de Internet. Essa brincadeira acabou envolvendo meus amigos Zé Preá, Ontõe Gago e Mano Meira.
DESAFIO
Ontõe Gago e Zé Preá,
gente boa num repente,
se encontraro em Cabrobró
pra alegria dos presente.
Fizero um forrobodó
de botá inveja na gente.
Desafia um daqui
arremete outro de lá
e ameaça arrebentá
a cara desse sagüi.
Eis que chega um forastero
para entrá na brincadera.
Quem é ele? Mano Mero,
vindo do sul brasileiro.
No Nordeste é no repente,
lá no sul é califórnia.
Veja o senhor a esbórnia
que ele tem na sua frente.
Zé Preá puxa o punhá
Mano Meira sua espada.
Bota ela ali deitada
no terreno do quintar.
E o gaúcho vem bailando
saltita sobre a danada.
Zé Preá nu intende nada,
Ontõe Gago só mirando.
Toda lida ali termina
com gritinho e alegria,
com abraço e cantoria.
Coisa munta feminina.
Devo agora terminá
este modesto repente.
Me desculpe, Zé Preá,
se lhe fui tão renitente.
Mano Meira vem pra cá
comer churrasco co’a gente.
Ontõe Gago vai dançá
xaxado, todo contente.
Publicados os versos, os três se encheram de brios e se puseram a engrossar o cordel. Espero que eles tragam para cá os versos que então fizeram.
A literatura do cordel é tipicamente nordestina. Um dos maiores cantadores do Nordeste era o cego Aderaldo. Ficaram famosas as cantorias encabeçadas por ele. Sempre aparecia alguém querendo superá-lo e acabava entregando os pontos. Um desses desafios, porém, terminou empatado, como ele mesmo relatou depois:
“Havia quatro cervejas
que um coronel apostou
dizendo que todas quatro
pertencem ao vencedor.
Nós bebemos as cervejas.
Nem um nem outro apanhou.”
Menos não fez Antonio Gonçalves da Silva, mais conhecido por seu apelido. É famoso seu lamento da morte da filha.
Luis Gonzaga musicou versos seus.
Não, em tempos de capitalismo em crise, eu prefiro trazer outros versos:
Tô com as mãos na cabeça
Adispois de uma gastança
Lá pras bandas de Maiami
Quando a “verde” tava mansa
Fiquei todo endividado
Sem querer fui arrastado
Pro grupo dos sem poupança
Mas fiquei feito criança
Vendo as bolsas desabada
E os grandes capitalistas
Com pepino na rabada
O fumo de rolo entrando
E o Preá se acabando
De tanto que dá risada!
Pois Wall Street arrasada
É a imagem contraposta
Do muro lá de Berlim
Que Marx mandou resposta:
Bancos no fio da navalha
E as ações dos canalhas
Valendo menos que bosta!
Zé Preá
Sinto muito, Circus
Mas de repentista nordestino não tem nada,
o que colocou a frente.
É muito diferente.
MAS para quem quer aprender
tem tudo pela frente
SUCESSO!
Regina
Legal! Quem sabe um dia nos encontremos e brinquemos de repentista, todos nós do Over, não é?
Não deve ser fácil!
beijos
Voce tem alma de pesquisador
Além de uma sede inesgotável por cultura
É o que se percebe.
Parabéns
um abraço
Gostei demais amigo. Eu bem que gostaria saber fazer essa belezura
Ecila Yleus · Recife, PE 11/10/2008 16:37
Que novembro chegue logo, a fim de que eu conheça pessoalmente esse
Adauto, para ver se ele existe mesmo ou sua existência é uma "história
de Trancoso", como as que se contava antigamente, na boca da noite, no
interior do Ceará e do Nordeste, época em que as noites não eram
poluídas pelas novelas da tevê.
Os Overmundistas hão-de concordar comigo, que estamos diante de uma
figura ímpar, do "homem dos 7 instrumentos", sendo virtuose em todos.
Ao preparar o lema para a turma de massoterapia, escrevi: "O importante
não é fazer muito, mas fazer bem". Só que nosso escritor não se limita a
ser bom escritor: enobreceu a toga, brilha como escultor, que eu sei,
grande pintor, pinta e borda na arte poética, e, como deu prova
irretorquível mais de uma vez, em todo gênero da arte camoniana.
Em assim sendo, sabendo das minhas limitações no tocante à rima, deixo
isso pra quem é do ramo, não remo contra a maré. Satisfaço-me em ler e
ouvir os verdadeiros artistas: o mestre Adauto, o repentista Abílio
Neto, que já colaborou, faltando os gaúchos do Carazinho Mano e Cleanto.
Como dizem os argentinos, "no se achiquen, gauchos".
Caro mestre, realmente existem algumas encrencas interessantes entre o Zé Preá e o Ontõe Gago, porém uma deficiência do mecanismo de busca do site "Migalhas" torna impossível juntar os versos dos dois autores no mesmo link.
Mas tá fazendo um ano mais ou menos que abri o citado site numa segunda feira e encontrei o Ontõe em versos decassílabos me chamando de ratazana. Eu fiquei arretado e retruquei.
Devo acrescentar que a música do Gonzagão me foi enviada pelo Zé Preá e o lamento do Patativa quem me mostrou foi o Cearucho.
Circus do Suannes · São Paulo, SP 12/10/2008 12:01A Regina deu o tranco e eu, (lamento, Suanes) tenho que concordar. Teus repentes estão mais para a califórnia que para o cordel, o que não deixa de ser muito bom. Vai praticando, seu moço, que um dia domina o ofício.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 12/10/2008 18:59
Nada a lamentar, caro Pontes. Estamos aqui para aprender. Pena que vocês dois, que distinguem tão bem a literatura de cordel das músicas sulinas, não tivessem aproveitado a oportunidade para nos ensinar a diferença entre elas. De preferência com trabalhos seus. Fica lançado o desafio.
Circus do Suannes · São Paulo, SP 12/10/2008 19:58
Acho mesmo uma delícia a brincadeira com rimas. Na III Feira do Livro de Sergipe, teremos vários saraus cordelianos e lançamentos de cordel. Uma boa festa das letras com nortistas e sulistas.
Um abraço.
Circus do Suannes · São Paulo (SP)
Cordelismo
Feliz idéia do Encontro e, Um belo e feliz festival de Cordel.
Parabéns pelo Talento no Trabalho que ficou Ontológico e,
tambem pelo desempenho nos desafios com o bamba.
Um Trabalho para se orgulhar sempre.
Abracáo Amigo.
Adauto ,
não devia mas estou votando.
bjss
texto maravilhoso, parabéns.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 12/10/2008 22:09
Caro Circus,
Não entro no desafio porque não sei fazer literatura de cordel.
Apenas aprecio e respeito.
Estude e pratique bastante já que deseja aprender.
Aqui no OVER tem cordelistas de primeira,
cito o Rubenio Marcelo, Marco Bastos, entre outros.
Desafio rejeitado pelos motivos já colocados.
Abraços,
Regina
Circus,
Deixo aqui o link do rubenio Marcelo onde ele trata da literatura de cordel com um dos grande baluartes.
http://www.overmundo.com.br/overblog/reino-fecundo-da-poesia-popular-de-manoel-monteiro
Abraços,
Regina
Adauto, seu texto valoriza a difícil arte do cordel.
bjs
Votando , lendo e admirando tão belo trabalho , Adauto parabéns pelo cordel , meu comentário é pequeno diante dessa obrad arte. Abraços...
delen · Cotia, SP 13/10/2008 04:15
é como te disse no seu niver.... às vezes da uma "raiva" da sua criatividade! rsrs
Mil beijocas ;-)
Muito interessante teu postado, sendo o cordel uma maneira de poesia, acredito até muito "cantada' vinda da Itália, já tentei fazer uns rabiscos, mas não consigo ser como Alomar Figueiras e você...mas aqui tem um paulista 'da gema' , da Rua Augusta, rs...Guilherme de Faria, de prima...
Gostei muito do seu cordel aos gaúchos...prima
tenho ainda sem postar por aqui...Salvador da Fulô(paulista)
Pois tenho no fundo desse coração
Uma riqueza imensa
Di cuentru e manjericão
Um resguardo danado de sabô
Desse safado do sertão
Que num fez me arreliá
Meu Menino em questão
Ô meu amô!
Minha mainha
Tem dó di mim, di mim
Pus veila pros Padinho
Nas incruzilhada do distino
Ciço e pro douto Acms pra aliviá
Pra modi qui eles adiantá a licensia
Minha querência do forastero salvadô
Fazê minhas aligria, me conquistá
Meu querê, meu amô
Trais mulé de Deus
To doida di sodade
Sodade...Sodade
bj
Caro Adauto, os nordestinos se apegam muito às formas do cordel mais tradicionais, as sextilhas e as septilhas (com as quais com honra abro esses comentários). Esquecem que cordel é poesia popular acima de tudo.
Então o que vale mesmo é a poesia! O crítico é sempre um chato que só vê beleza nas coisas se tudo sair do jeito que ele imagina ou quer. E mais chato se torna, a meu ver, quando manda um poeta aprender. Que me desculpem, mas isso não se faz!
Modestamente, sou capaz de fazer versos em qualquer estilo da poesia nordestina, mas nem por isso caio de pau nos versos dos outros. Que venham os Adauto, Mano Meira, Cleanto, Ontõe Gago, Zé Limeira, Pinto do Monteiro, Louro do Pajeú etc, desde que façam poesia (alguns podem vir em espírito) mas que construam versos e rimas! Abraços do
Meus queridos repentistas!!!
Prá um gaúcho meio bruto,
da Pampa verde e amarela,
de repente em trova chuto,
(provocando o Mano Meira)
pra vir me representá,
não adianta acende vela,
corram Adauto e Preá.
Se faltar inspiração,
dou um rumo bem legal,
lembra do Gabriel,
tudo há ver com a liturgia,
c'o galo do Coronel.
Cordiais saudações!
Cleanto Farina Weidlich - Carazinho / RS.
Tou contigo Zé Preá. Ao descortíneo dessa loucura capitalista, prefiro trazer a idéia do Mano, ao soar:
A Bolsa . (A solução, no entender de um índio xucro).
Após o panelão entornado
É que todos ficaram vendo,
O grande rombo, tremendo
Por falta de se ter cuidado,
O aplicador é sempre o coitado,
E depois do acontecido
Pedem pra ser mais prevenido,
De preferência seja benzido,
E pra cuidar de seu estado
Tome um banho bem lavado
Com água benta e galho de arruda,
Verá que só assim é que a sorte muda
Com muita reza contra mau olhado.
Os coimeiros da Bolsa,
Os que botam a sorte,
Os que apontam o norte
Pro aplicador teatino,
Sem saber o destino
Dos perdidos sem rumo,
Vão buscar pro consumo
Alguém que banque a parada,
É essa a grande jogada
De todos esses pica fumo.
Mano Meira - Carazinho/RS.
pro seu cordel só faltou o :
inhâmmm..inhâmmm...inhâmmm...inhâmmm !
bom ( o texto e a briga...)
abs
Caro Joe:
esperei polos teus velso,
eles nunca que vinhéro.
Eu não sô cabra pelvelso,
mais sei bem o que que eu quero.
Vamo dexá de rebur
e pôr nisso um arremate.
Não se ofenda nem me mate:
se quisé tomá um bom mate,
então vai tomá no Sur.
inhâm, inhâm, inhâm, inhâm
Muito bem, Adauto. Vejo que sua aventura no campo do cordel provocou até polêmica. Isso é saudável. O Zé Preá respondeu bonito, com raciocínio irrespondível. O bom mesmo é despertar o interesse por essa forma de poesia. Não é poesia de ignorantes como em geral se pensa. Não é fácil fazer sextilhas e septilhas ou decassílabos, que fluam espontâneos, não enroscando-se nos trava-línguas do intelectualismo. Você não fez essas formas tradicionais do cordel, o que causou estranheza em alguns. Não julgai para não serdes julgados, é bom lembrar. Qual é o objetivo do autor? Qual a forma que ele escolheu? Um texto deve ser fruído pelo leitor. É o máximo que pode exigir, e é muito. E muitas vezes um texto não nos toca.
Abração.
Obrigado pelo desafio, Suanes, mas sou pequenininho, sei meu tamanho. Sou cordelista de ouvido, não sei escrever uma redondilha, deixo isso para os mestres.
Marcos Pontes · Eunápolis, BA 13/10/2008 21:26
Voto sem veto. Mais, sem querer polemizar com os que não gostaram do
excelente trabalho, estou tranqüilo, e o Circus do Suannes também,
porque sabemos que a sentença não fundamentada é nula.
Passando para votar e desejar sucesso...
Airton
Estrela-RS
O tombo da tar borsa
Foi um grande reboliço,
Muita reza e até feitiço
Num desespero profundo,
Teve gente de todo mundo
Choramingando com isso.
A borsa Americana,
A da Oropa e do Japão,
Diz que tudo foi pro chão
Naquele bárbaro entrevero,
E só se falava em dinhero,
Diz que a única sarvação.
Por aqui fiquei confuso,
Entender não consigo,
Esse medonho perigo,
Essa situação brasina,
Se falava até duma China,
Que sua borsa tinha se ido.
E nóis aqui no Rio Grande,
Que gostamo do chinaredo,
Como desvendar o segredo
Desse fato sucedido?
Se as borsa tinha se ido?
Isso nóis enchia de medo.
Mas a sarvação veio,
E veio das Oropa,
Dinhero como de tropa,
Desses de parar rodeio,
E aquilo foi um recreio,
Mió que os jogo da Copa.
Alegrou-se o chinaredo,
Sarvaro a Borça e o Mundo,
Nem o Don Pedro Segundo
Gritaria com tanta imponência,
Foi o grito da opulência,
Sarvo está tudo que é fundo!
Adespois disso tudo,
Tudo vorta à estaca zero,
Saber mais de Borça não quero,
A conta arguém vai pagá
Os banqueiros vão desfrutá
Ansim é que é, ansim eu espero.
Mano Meira - Carazinho/RS.
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