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CORTANDO O PORTUGUÊS - Crônica

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jjLeandro · Araguaína, TO
14/2/2007 · 123 · 15
 


CORTANDO O PORTUGUÊS

Quem disse que só letrados fazem poesia? E poesia com estilo, com o estilo das roupas da alfaiataria do seu Eleutério, no interior do Brasil. Eu passava pelo povoado onde ele mora quando a originalidade da poesia me chamou a atenção.
Estava escrita na platibanda da alfaiataria, em letras grandes. A parede azul, quase um azul celeste, descorada pelo tempo. Com certeza já fora mais firme. No entanto a chuva e o sol aproximaram a pintura de um tom poético. As letras vermelhas também já não tinham o sangue de outrora, perdiam vida. Desmaiavam. Mas ainda assim havia poesia por todo lado. Até o povoado tem um nome interessante: Lavras.
Pois bem, a publicidade na parede chamou-me a atenção e entrei no pequeno cômodo, quase ao final da única e curta rua, espremido entre duas construções não mais garbosas. A porta de madeira, larga, também velha, carcomida pelo tempo e os cupins estava completamente escancarada. Sobre um velho balcão de ipê – me disse ele depois – fazendas, linhas e agulhas teciam a costura poética de seu Eleutério e as roupas de versos de seus clientes. Ao fundo, uma velha máquina Singer. Alguns cabides no lado oposto sustentavam o sonho de elegância de muitos que buscavam o seu trabalho.
– Bom dia!
– Bom dia! – retribuiu.
Vi em seus olhos um brilho que não existia nas coisas ali. Por trás dos óculos, remendados com materiais diversos, havia uma dignidade de artífice. Brilharam ainda mais quando me viu entrar, suponho. Talvez porque me imaginou um cliente.
– Quer um terno de roupa? – perguntou.
– Gostaria muito, mas agora não!
Senti que o desapontei um tanto.
– Estou só de passagem – justifiquei.
– Ahn! – engrolou a língua e voltou ao trabalho de alinhavar a barra de uma perna de calça, sentado sem camisa diante da velha Singer.
– Fiquei curioso, por isso entrei! – disse.
Ele voltou-se. Agora ele curioso.
– Curiosidade? Com quê? – disse desconfiado.
– É que vi ali na parede o nome da alfaiataria. Gostei.
Ele abriu um sorriso feliz e agradecido.
– O senhor não é o primeiro que me diz isso.
– Jura?
Ele balançou a cabeça, satisfeito, e com a seriedade de quem não mente.
– Sabe que é uma poesia?
“Tizora di oro.
Moldi e roupa
Qui acenta,
Duis pé a venta.”
– Agora é o senhor quem diz. Muita gente me disse que achava bonito – acudiu com a simplicidade da gente do interior.
– Mas é uma poesia. Muito bela e com humor.
Ele abriu-se, completamente.
– Sabe, sou pernambucano. Já fiz alguns versos. Sou repentista. Precisava dum nome pra alfaiataria e botei isso em cima. Parece que ficou bom. Quem não faz roupa, faz como o senhor: vem aqui elogiar.

A conversa rendeu. E se eu não fosse embora, íamos alinhavá-la horas a fio. Mas antes de eu ir ainda me disse:
– Antigamente em minha cidade, Sertânia, tinha um trem que passava no meio da rua. E como o povo lá era repentista, todo ele, botou-se uma placa alertando:
“No meio da rua passa
O trem. Cuidado
Quando ele vem.”
Dei-lhe um abraço e fui embora. Também feliz.









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informações

Autoria
jjLeandro

Ficha técnica

Jornalista e escritor, 46, residente em Araguaína -To. Autor do livro de poesias Quase Ave, com o qual ganhou o concurso literário nacional para autores inéditos Cora Coralina em 2002, em Goiânia


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José
 

Leandro!!
Li com lágrimas nos olhos... Poesia não tem doutor, tem amor.
Seu conto é uma obra prima.
Agradecido, José

José · Criciúma, SC 11/2/2007 17:14
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arlindo fernandez
 

Demais!
Uma história,uma poesia linda.Me tocou profundamente,depois cai em gargalhadas... foi demais.( eu criei toda a sequencia em imagens).Um show em 1 minutos!
saudações poeta!

arlindo fernandez · Campo Grande, MS 11/2/2007 17:55
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Marcos André Carvalho Lins
 

josé e arlindo disseram tudo. um espetáculo de texto!!!!!!!
abraço,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 11/2/2007 22:49
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cristina medeiros
 

JJ: Com sua "pena de oro" você alinhavou cenas que muitos de nós gostaríamos de ter presenciado. De algo simples, você extraiu o máximo, nos brindando com uma história que arranca risos, mas lágrimas também. Queremos mais.... Um abraço. Cristina Medeiros (sou esposa do Arlindo, este mesmo, que também é um poço de inspiração e talento).

cristina medeiros · Campo Grande, MS 11/2/2007 23:45
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jjLeandro
 

Olá, Cristina. Prazer em conhecê-la. Bom ter vc por aqui. Pode deixar que vou me esforçar em produzir muito. Essas coisas surgem assim, pensando às vezes numa palavra somente; de repente tudo vem pronto à mente. Aí é só escrever e fazer alguns desbastes. Não sei se com todo mundo é assim. Comigo é. Sabe, o que primeiro surgiu foi o poema. Aí pensei em postá no overmundo. Quando me preparava para isso, pensei: "tenho que dizer algumas palavras explicando". Aí fui escrevendo e saiu a crônica. Então mudei, não faria mais o poema como centro de tudo, mas a crônica com o poema dentro. Ando muito pelo interior -vcs aí sei que também - e quem está no Sudeste e Sul, com menos probabilidades de isso acontecer, não sabe como esse Brasil é rico e vário. Todo muito com essas coisas em letreiros e fachadas. O Eleutério na realidade é a soma, um representante, de todos eles.

.......
O Arlindo é um caso à parte. Admiro demais o que ele escreve, assim como as artes eletrônicas. Pesquisando, descobri muitas dele como papel de parede e baixei p meu PC - já disse isso a ele -, mas ele n publica ela mais aqui; e já me explicou por que.
A criação literária dele, o que já li é de uma uniformidade qualitativa impressionante. E ele dá justificativas para escrever que são as mais díspares possíveis e elabora textos impressionantes. Disse a ele que estou elaborando um texto sobre o que ele produz para pôr no Overblog. Ele que aguarde.
Além disso, é cineasta e etc etc.
O que mais me impressiona no que ele escreve é conseguir transformar tão facilmente a realidade regional em universalidade. Guimarães Rosa era um mestre nisso.
Estou, portanto, diante de um! Diga a ele que a única maneira de se redimir comigo, e não se enlevar com o que disse, é produzir mais e mais coisas belas.

Abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 12/2/2007 00:21
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jjLeandro
 

MARCÃO!

vc aqui nos proporciona belíssimos espetáculos. E fico muito feliz quando leio o que escreve. Sei também que está "acoitando" aí um livro de contos, que espero ansioso para ler. Entro em qualquer fila, por mais longa que seja, para conseguir um. Já estou à espera da fila, me avise quando ela já estiver sendo constituída, tá?
Das poesias nem vou falar, vivo falando delas nos comentários. Quem quiser saber mais, se ainda não soube, é bom ir lá em seu perfil e acompanhar a beleza de todas elas.

abcs, mano!

jjLeandro · Araguaína, TO 12/2/2007 00:26
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jjLeandro
 

José, ia me esquecendo de vc.
Emocionei-me também com as suas lágrimas. Bom quando a gente toca o coração sensível de um poeta igual a vc.
Um grande abraço, mano velho!

jjLeandro · Araguaína, TO 12/2/2007 00:31
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Carlos ETC
 

Mesmo sentimento da Cristina. Como gostaria de ter presenciado o que presenciou! Muito bom, grande Leandro!

Carlos ETC · Salvador, BA 13/2/2007 19:40
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Ilhandarilha
 

Isso é um belo argumento para um curta-metragem, jj.

Ilhandarilha · Vitória, ES 14/2/2007 15:08
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jjLeandro
 

Obrigado, Carlão! Um abraço nesse grande poeta baiano, se preparando para arrepiar no carnaval-axé da BA.
....

Obrigado, Ilhandarilha, quem sabe o meu amigo poeta-cineasta Arlindo um dia roda ele.

abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 14/2/2007 16:40
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Roberta Tum
 

Oi Leandro, vim te retribuir a visita e me deparo com este texto, tão cheio de graça, e de termos ricos da nossa língua que andam meio perdidos pelo desuso. Emocionante, viu?

Roberta Tum · Palmas, TO 14/2/2007 17:19
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Pedro Vianna
 

A crônica me sensibilizou. É sempre reconfortante sentir a energia poética que emana do povo. Ainda que o mesmo sinta-se apartado do que convencionou-se chamar de poesia, e dá simplicidade desse povo que ela emana. Parabéns...

Pedro Vianna · Belém, PA 14/2/2007 19:48
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Katine Walmrath
 

Estou ficando envergonhada dos meus textinhos.
Tenho lido coisas lindas aqui.
Esse trabalho ficou perfeito.
Muito talento e sensibilidade.

Katine Walmrath · Porto Alegre, RS 15/2/2007 12:09
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jjLeandro
 

Com certeza vc não terá vergonha. Não somente os seus textos auqi são maravilhosos como os que conheci em seu blog. Primores.

abcs

jjLeandro · Araguaína, TO 15/2/2007 23:18
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Saulo Heidemann
 

Dá gosto de ler!
Parabéns!

Saulo Heidemann · Santa Maria, RS 7/3/2007 02:37
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