COTIDIANO 3

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gteixeira · Salinas da Margarida, BA
22/2/2015 · 1 · 1
 

COTIDIANO 3
A TRAVESSIA


Descendo mar abaixo a velha canoa transporta os ribeirinhos. Sentados num banco de madeira sem nenhuma segurança, lá vão eles fazer a sua diária travessia.
Muringo, canoeiro experiente, como sempre sorriso estampado no rosto, recebe seus passageiros com atenção costumeira,
- Tá todo mundo sentado ai - vou levantar proa.
No balanço da maré calma, por aqui a tranquilidade se reflete até na maré, cheia ou vazia, a lerdeza do ribeirinho, quase parado.
Chapéu surrado na cabeça, de tanto sol, mãos calejadas de empurrar a vara da canoa no peito, em alguns pontos onde o motor não pode ligar, pois corre o risco de encalhar. E nesse vai e vem diário nossos personagens discorre sobre a lida.
D.Zefa vai todo santo dia levar pirulito, (assim é chamado por ter contraído Calazar ) ao Dr. Alberoy, na esperança de ver sua melhora, o doutor que era gente boa, depois que perdeu a eleição virou “Gente ruin”
- Ele tá medicado, manda da 2 diclofenaco e despacha, la isso é hora, todo dia essa criatura vem, esperando o que? Sabe que no hospital nada tem, até as camas tão enferrujadas, a maca parece mais um pano de chão. Diz o doutor reclamando pro seu paciente diário.
- Já falei, manda matar o cachorro, senão outros da família vão ficar igual a ele, referindo-se ao Calazar, doença altamente contagiosa, do qual o cachorro é hospedeiro do mosquito transmissor.
Carminha ás voltas com a lei, pois seu neto, de pai desconhecido, tem que comparecer a Delegacia todos os dias para provar que Vicentinho já deixou o mau caminho. O Delegado o aconselha, fala em frente da mãe, o garoto de cabeça baixa, envergonhado, chora ante tal sermão do delegado, que nem padre em dia de missa, aquele branco alemão, que mais parecia nazista, desmanchou casamento na Encarnação, sujava as beatas quando passava de carro nas poças de lama, fez uma beata se apaixonar por ele que a pobre coitada nunca mais se aprumou, até hoje chora de saudade, cada dia mais vai se afinando, seca que nem um galho de mangue quando a maré não vem molhar. Lá ia ele, sem batina e sem crucifixo, êita, o home era o diabo branco.
Naildes, enfrenta esse vai-e-vem todos os dias, cabisbaixa, valentona e desaforada, gorda que nem um purrão, com as calças apertada desenhando tudo, fôra pega na maricultura (empresa do ramo de carcinicultura) com a boca na botija, mais de 08 kilos de camarão no munzuá. Envergonhada nem olha pro lado, mas ouve os comentários a seu respeito.
- Quero ver a cara dela, com essa banca toda o que vai dizer ao delegado, tá pensando que a gente vai votar nele, referindo-se ao marido , que sai candidato a vereador no partido da situação
- Tá pensado o que? Pode me da dinheiro que não voto nele. Home essa, até piscina ela tem dentro de casa.
D. Geralda coitada, aquela que morreu de desgosto, quando viu sua guia perdida, não conseguiu vender nem uma lata de cerveja, pois o show não teve e o empresário, enrolada mais que bobina, sumiu com a grana de todo mundo que até a mulher ele deixou prá trás, sem eira nem beira.
No fundo da canoa, lá estava Pigmeu e a mulher D. Clara, indo resolver com o presidente da associação de pescadores sobre a carteira de pesca, pois eles não receberam o defeso.
- Tú é besta nega, num sabe porque tu não recebeu defeso, Deixa seu marido vim só, num instante ele vai receber, esqueceu que o presidente é meio home meio muié. Oia me deixe viu!
Nossos navegantes, cada qual com seu problema a resolver, chega ao final da pequena viagem. Mirto cobra as passagens e recebe de uma delas a seguinte proposta.
Ô Muringo meu veio, posso pagar na vorta, vou tirar o defeso, dispôs a gente acerta.
Fazer o que? Pensa ele, olhando a passageira com uma cara meio tristonho. Levei ferro de novo?
Mais um espeto no meu calendário de bordo.


Gteixeira
Jan/2012

Sobre a obra

Dia a dia de moradores em uma cidade ribeirinha, cada um contando suas verdades históricas, mostrando suas verdadeiras identificações fazendo história dos moradores.
Sofrimento, alegrias e tristezas,tudo incluído no pacote dessas guerreiras

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Gteixeira
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Lelé Alves
 

G.. depois de um longo tempo fora, apareci e te lí novamente! Curti!!
Léia

Lelé Alves · Diamantina, MG 19/12/2015 08:49
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