A MÃE:
- A morte de um filho é pior do que um câncer. A morte de um filho não tem cura, não tem tratamento, não dá pra amenizar a dor. A morte de um filho faz sangrar o coração até o fim, e o fim não chega nunca, cada noite é pior que a anterior. A morte de um filho é pior que a própria morte, muito pior, porque faz a gente morrer um pouco todos os dias. A morte de um filho enlouquece de dor sem tirar a sanidade. A morte de um filho... Só se compara à morte de um filho.
O PAI
- Não fui ao torneio de futebol. Não o ensinei a andar de bicicleta. Não vi seus dentes caírem, nem nascerem de novo. Mal conheci a primeira namorada. Não consolei a primeira dor de amor. Não o levei aos jogos do Botafogo. Não conheci os seus amigos. Não fui á formatura do Colegial. Não apresente livros, não o ensinei a tocar violão, não viajamos juntos tanto quanto ele gostaria. Eu tinha que trabalhar, porque ninguém merecia um futuro melhor que o dele.
O futuro dele já não existe. E eu não tenho o seu passado.
A IRMÃ
- Não sei ao certo como foi com Caim e Abel, Esaú e Jacó, esses irmãos homens. A relação que entendo é a de irmão com irmã. Um amor que não pode incluir rivalidade, porque o amor-amor dele vai para a mulher e o dela, vai para o homem. Cumplicidade que vem desde a infância, o sorriso que entende insinuações por meias-palavras. Eu lembro da Tia Jose, ela nunca foi muito discreta. Então um dia ela me disse: “Que pena que você não é bonita como a sua mãe”. E eu inocentemente respondi: “Não tia! O Miguel é que é o bonito.” E era mesmo. Aquele irmão que me enchia de orgulho. O que vai ser de mim sem ele? Outra coisa eu serei: Mais triste, mais amarga, sem toda aquela beleza da vida, que vinha desde a infância. Infância minha e tua, meu irmão.