Como haviam anunciado que o vôo atrasaria, resolveu tomar um café e fumar um cigarro. A nova balconista da lanchonete tinha um corpo apetitoso: seios convidativos e nádegas provocantes. Ele fingia ler o sachê de adoçante, mas seus olhos, por cima, lambiam cada curva.
- Passo sempre pelo aeroporto da capital e nunca vi você aqui.
Ela aceitara o emprego com sonhos de encontrar ali o pretendente que a faria subir na vida.
- Ah, é porque eu entrei tem pouco tempo. Trabalhei um mês e depois fiquei quase dois de licença. Voltei num tem nem uma semana.
- É mesmo? O que aconteceu?
Falaria ou não? Poderia assustá-lo, mas também poderia cativá-lo.
- Eu… eu… eu tentei me matar.
- Sério? Como?
- Tomei um vidro de xampu. Tenho um problema crônico, sabe quando a nossa cabeça fica cheia de pensamentos negativos e…
- Shampoo? - Interrompeu.
- É, xampu, de lavar a cabeça.
- Qual?
- O quê?
- Qual shampoo você tomou?
Ela franziu as sobrancelhas.
- Ah… sei lá, acho que foi um tal de beáuti air.
- Beauty Hair?
- Isso.
- Quanto?
Agora ela balançou a cabeça, confusa:
- O quê?
- Qual a quantidade que você tomou?
- Tomei o vidro todo.
- Lembra para que tipo de cabelo era?
- Isso eu sei, para cabelos secos. Meus cabelos são secos e rebeldes.
- Olha, essa marca de shampoo e péssima. Posso afirmar porque sou do ramo. Sou dono de uma indústria de shampoo. Diga-me uma coisa: lembra quanto custou?
- Ah, o senhor vai me desculpar, mas isso eu não me lembro não.
- Olha, da próxima vez, compre shampoos Mona lisa, esses funcionam, além do mais estamos com uma promoção imperdível: você compra cinco shampoos, recorta o numero do código de barras da embalagem e envia para… - ele interrompeu, pegou um guardanapo, tirou uma caneta do paletó - … essa caixa postal aqui, respondendo a seguinte pergunta: Qual o shampoo que faz de você uma modelo inesquecível?
"Atenção passageiros do vôo 32215, apresentem-se no portão 6 para embarque imediato."
- Estão me chamando! Não se esqueça, shampoo é Mona Lisa!
Disse ele dando tchauzinho e levantando o polegar, enquanto ela, observando-o se distanciar, puxou um fio longo de cabelo de dentro da touca do uniforme, escorregou o indicador e o polegar pressionados da raiz à extremidade, colocou-a entre os dentes, arrancou a ponta dupla e engoliu. Seco.
Dizem que o signficado da nossa mensagem está no ouvido/olho do outro. Pergunto: como o meu leitor me lê? Percebe a maioria dos sentidos que deixo nas entrelinhas? Nas metáforas? Ou meu texto é demasiado hermético e, na realidade, fica somente comigo? Além das críticas e sugestões que são sempre bem-vindas, agradeceria muito se deixassem sua interpretação desta Crônica Capital: do título ao ponto final.
Bom dia!
Ok. Abro a página. Vamos lá! Vc me pede um salto no escuro. Lá vou eu. Do título ao final? Acho que não consigo.
Well, não acho seu texto hermético. É surreal, óbvio que é. Mas vivemos tantas situações assim! aqui vi uma intervenção perfeita para que a aspirante ao suicídio engula a encenação e na próxima tentativa, efetive o ato. Shamppo Mona Lisa é a arma letal.
Lição pra clínica da histeria.diante de um ataque desses seja mais surreal. Ofereça a ela um enigma mais intrincado ainda. Faz a crítica e ri deslavadamente em cima da "saída' que a moça bonita pensou dar pra vida. Aproveitou o tempo do café, antes do vôo, pra rir e fazer o leitor rir mais ainda. Ah,Le Viol(O Estupro ou a Violação) do Magritte serve bem pra ilustrar esta crônica capital. Capital de cabeça? rsrs Não é mais sexocéfalo? é séquiço capital?
Piorei tudo!
Ummmmmmuuuuuuuummmmmmmm. Que desafio.
Dia estranho hoje. Não???
Pegajoso! Cheiro de Shampoo de Cogumello...
Sem comentários.
Deixo um grande abraço. jbconrado.
Olha Wel, quando eu parar de rir eu comento alguma coisa....
.
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kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
Que falta de sensibilidade desse f....
Cada uma viu?! Mas olha, a sua maneira de escrever e os diálogos, ficaram muito bons, como sempre, consistente com propósito e de uma sofisticada ironia, gosto muito desse padrão.
Parabéns
abraços
PS: tomar xampu mata?
Depende da marca?
rs
Texto delicioso, hilário, subliminar sim...o inconsciente coletivo do "foda-se vc com seus problemas"...a nossa Marilyn Monroe do coletivo histérico e perambulante...Estamos com pressa, temos que tomar o voo que num espera ninguem...nem vc e sua morte...e por favor, comprem o meu shampoo...é mais mortal que o seu !
Bravo !...
abraço
Joe
A partir do título, você disse.
Ele já nos leva por dois caminhos, bem claros.
O primeiro, a imagem geográfica da capital e todas as evocações a ela ligadas, de multidões e solidões. O segundo, naquilo que é principal e irremediável.
O corpo da crônica confirma ambos os caminhos: a desumanidade materializada na surdez, na cegueira do ouvinte "vendedor"; e o gesto final que, afinal, não se completou conforme o esperado pela linda e desesperada moça.
Por outro lado, o "vendedor" pode ter representado, para ela, a realização do sonho perseguido: "subir na vida". Ao par com a insensibilidade, pode haver um conto de fadas, representado no concurso do "Mona Lisa".
Quem sabe?
Gostei muito.
beijos
Voltei, Wellington.
Eu me esqueci de comentar sobre a deliciosa ironia do "problema de cabeça" e o instrumento usado pela moça para tentar se matar.
Perfeita.
beijos
Q filho da puta heinn? Putz, c'est l'humanité... que vida de merde! Sistema capitalismta meu e vc transcreveu direitinho.. somos lixo!
Well, ce sabe qui sou seu fã.. assim tipo eu rasgo seda pra vc! kkk
mto bom... eu gst desses continhos que em pcas palavras dão o recado..
ei well...muito bom...
todos já disseram tudo...
muito bom.
Posso estar dando uma puta bola fora, mas:
Vejo no seu conto o jogo de interesses.
O cara, lambe a moça com os olhos, mas na hora em que ela mostra o seu problema ( que não deve deve ser real) tenta sacanear e, de fininho, tira o seu da reta.
Ela, vendo o cara interessado nos seus dotes físicos, se faz de coitada, joga a isca para ver se agarra o peixe.
Cabeça cheia de coisas ruins? Beba shampoo...
Wel,
tenho a imprensão que ela também percebeu
que ele estava a fim e criou um clima
inusitado só para chamar a atenção dele,
e ele continuou a brincadeira, mas no final,
dá-lhe o endereço para um possivel encontro,
e ela engole em seco. Afinal, havia dado certo!
Será?....
Já que é uma metáfora, da´pra interpretar
de diversas formas.
Afinal, ninguém toma champu para se matar.
bjssssss
Diz Borges que: talvés a história universal seja a historia de algumas metáforas! E completa afirmando que a metáfora é uma hipérbole de disposições triviais.
raphaelreys · Montes Claros, MG 2/9/2008 07:15
Não sei não.
Nunca tentei com Shampoo.
Tente com condicionador Soft Hair.
Tem um gosto melhor...
Muito bom.
Um abraço
Well,
muito bom e hilário o seu texto,
já muito comentado.
Continuo rindo. Não só da estória,
mas também do comentário engraçado do Ginot.
Um beijo
so posso dizer que é mt bom isso aqui rapaz. abração
georgesaraiva · Guarapari, ES 2/9/2008 12:10
Wellington Coelho · Belo Horizonte (MG) ·
Crônica Capital
Um belo Trabalho, uma contribuicáo Cultural para o Overmundo.
Um diálogo riquísssimo que ajuda a formar o humano mais humano, no relacionar e a diminuir a ignoráncia e os antagonismos que tanto estragam o mundo e causam o desamos e as guerras.
Muito rica a sua oferta desinteressada.
Verdadeiro Poeta cheio de amor pela Liberdade e um mundo melhor.
Parabéns
Olá Wellington!
Começarei pela escolha da imagem ... Perfeita ... O surrealismo permeia todo o seu texto ...
O mal entendido das relações e o querer saber o que o outro quer ouvir ou vai poder ouvir, são questões bem claras ... Mas o que realmente vai fazer a grande diferença é a escuta ... Essa sim, faz marca ...
Homensssssssssss ... rsrsrs ... Todos iguais ... Só vêem peitos e bundas ... rsrsrs ... (Não consegui um termo mais poético, como você descreveu: seios e nádegas)
Não gostaria de interpretar o seu percurso, ou melhor, estão nas minhas entrelinhas ... rsrsrs
PARABÉNS!
Muito inteligente.
Beijos_Meus*
*
VO(L)TAREI!!!
Olha W.Coelho, admirável o texto! Sobre o lance de perceber nas entrelinhas, bem notado. Isso da pessoa, digo, se alguém lê muito acaba tendo uma percepção mais aguçada. Do contrario o texto perecera banal, uma estorinha. Pena pra essas pessoas. Seu texto, que pega um fato comum e traz para um contesto de relacionamento contido, impossibilitado pelo momento e pelas ações impossíveis de tornarem-se concretas para as personagens, prendem o leitor neste imaginário do “e se" eles tivessem estado próximos em outro momento. Demais a relação momentânea dos dois, um desejo casual não consumado que despertou todos que leram para uma possibilidade.
Sem falar ainda de todo lado melancólico da aeromoça que se abre a um estranho. Belo texto.
Quando puder me leia ok, será um prazer.
ABÇautgfd!
CD,
Sei que quando produzimos um texto, ele não nos pertence mais, pertence ao outro, com a sua visão de mundo e tudo o mais. Porém, percebo que parte das minhas intenções estiveram presentes na sua leitura.
Brigadão e beijão no coração
jbconrado,
Confesso que eu é que não entendi seu comentário. Mas valeu!
Cristiano,
Cara, já estou acostumado com suas leituras interessantes e enriquecedoras, aliás seus comentários aqui são publicações.
abração e obridado mesmo
Joe,
Bingo! Como é bom ver que alguém lê nossas intenções, ainda um alguém joe-jóia
abração
Saramar,
Outra que vê meu texto com quase-meus-olhos.
Beijão no coração
Thiers,
Você, meu fã? Alguns dos meus fã-tasmas não mais me assustam então.
Samuel,
Brigadão pela vista, cara.
Sônia,
Confesso que não foi a minha intenção dar essa intenção a balconista não, mas as palavras têm a intenção que damos a elas. Nossa quanta intenção!
Beijão e espero mais sóis
Doroni,
É verdade: são muitas as interpretações. Brigadão pela sua.
Beijão
Raphael,
Essa e a minha meta: a metáfora.
Abração
Edimo,
então é por isso que seus textos são lisos, leves e soltos.
Abração amigo
Walnizia,
Oba, risos??? causou algum impacto
Lili,
Você presente é um presente.
Beijão no coração
Autografado,
Valeu por me ler, vou te ler também.
Ri demais. Suicídio com shampoo é demais! É texto é maravarilhoso, cabra! Muito bom. Que criatividade!
Hideraldo Montenegro · Recife, PE 2/9/2008 21:57
Hideraldo,
Elogio de você, denso na poesia, é.... bom demais.
Gosto dos seus textos surreais, logo eu que sou surreal na existência, pq saiba..rsrs Eu sou surrealista na pele. meus textos não, mas na existência sim.. Fui por toda vida artista plástica e Magritte é uma de minhas paixões, Tenho diversos poemas feittos especialmente para o mestre. bem deixa de bla, bla, bla.. vamos a seu texto>
Fantástica a ingenuidade, as fantasias e o inusitado shampoo. Interessantíssimo vc pegar este gancho do suposto suicídio. Como sou psi..rsrs ela não quereria deixar a alma limpa? hahahaha.
E que gde canalha vc nos trouxe! lembrei de Nelson Rodrigues com seus canalhas sem medidas querendo tirar proveito da dor alheia...se ele pudesse arranjaria logo um caixão por um preço baratinho...em promoção. Seus textos tem um surrealismo caseiro, simples e claro.
Wellington eu gosto demais de tdu que vc escreve. Depois deixarei um recado na sua cx sobre meu site( Eu tenho um..)
Parabéns pelo trabalho , já é banco de cultura. Abraço...
delen · Cotia, SP 3/9/2008 12:53
Wellington, a maioria de qualquer texto está sempre no subtexto, não resta dúvida. Fazer uma análise é um risco para o leitor que teme passar pelo ridículo de receber um "não foi bem isso que eu quis dizer".
Drumond ironizava os críticos e estudiosos que viam maravilhas em sua "pedra no meio do caminho" Dizia o poeta que não era nada daquilo, apenas "tinha", ao invés de "havia", como queriam os literatos, "uma pedra no meio do caminho".
Mário Prata teve um livro em um vestibular da Fuvest e disse que se fizesse a prova, tiraria zero. As alternativas apresentadas como possíveis respostas não tinham nada a ver com o que ele quisera dizer na história.
Ficando, então, só na superfície vi um conto interessante, uma especia de "farinha pouca, meu pirão primeiro". o vendedor, de antolhos, s´via suas vendas, sua própria promoção dedenhando sem querer das aspirações de elevação social da maluca gostosinha. É hilariante.
Esse negócio de shampoo é coisa séria.Se não acerta no cosmédico,o cabelo fica feito pastel de festa.
camuccelli · Rio de Janeiro, RJ 5/9/2008 14:42
Leio muita criatividade, textos que nos fazem pensar, rir e chorar.
Seu trabalho é bom cara!
Texto extremamente curioso e instigante. bom pra caramba. abraços
georgesaraiva · Guarapari, ES 9/9/2008 14:24
Wellington Coelho · Belo Horizonte (MG)
Crônica Capital
Um passeio na expressáo mais abrangente,
Tudo bem feito para intrigar.
O surrealismo mais insinuante.
com shampoo no suicidar.
Parabéns.
Abracáo Amigo
RSRSRSRSRSRSRSRSRSRSRSRSRSRSRS
Que mais vou dizer?
rsrsrsrsrsrs
Adorei!
Quero mais !
Reamente, caro Wellington, vejo a representação de como o mundo capitalista funciona. Foda-se você. Morra mas morra com o meu produto que é melhor. Ningué stá nem ai pra ninguém. Só o que interessa é o capital.
Muito bom, cara vai em frente.
Abraços
mano wellington, bom demais...
e do jeito que o mano escreve chega a parecer que é fácil tecer um diálogo desses - o que os gringos chamariam de gentle virtuosity (doravante GV)
ia tecer algum comentário esperto, mas seria tão ou mais confuso quanto o comentário da compulsão fofa aqui embaixo :)
parabéns pela GV!
ah, o comentário da compulsão tá lá em cima, e não cá embaixo.
Gostei muito do texto, pois ele brinca com os significados da palavra capital: de um lado como o que faz a economia circular e do outro como aquilo perto do fim.
E vamos nós dentro da confusão entre o industrial sedento por dinheiro e uma balconista alpinista social.
Muito boa sua radiografia dos nossos dias atuais.
Votado.
Bem interessante! By Ser Universitário
Rodrigo Siqueira O. · São Paulo, SP 9/5/2011 14:38Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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