Crônica da segunda noite sem dormir

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Roberta Tum · Palmas, TO
25/2/2007 · 82 · 7
 

Tinha vindo da praia haviam algumas horas. Passeou pela cidade, levando as crianças, que ficaram brincando no parquinho enquanto caminhava pela orla. Era a segunda vez que pisava naquelas areias depois do fim. Mas naquele momento seu pensamento não estava focado neste assunto. Apenas caminhava, observando a água mansa, transparente, e o efeito do sol sobre o lago, naquele dourado de fim de tarde. Agachando-se tocou de leve na água com as pontas dos dedos. Saudou mamãe Oxum. Era sábado, dia dela. “Iriieiêio”, chamou. E enquanto o sol se punha, saudou Oxalá, e Oxoguiã. E desta vez só pediu a um que levasse de sua alma todo peso, e qualquer sombra de tristeza. Ao outro pediu forças para continuar. Antes, falando com a grande mãe, tinha pedido suas bênçãos no amor.
Não estava compreendendo muito bem o que se passava. Achava que estava demorando demais. Já faziam dois meses do fim de um quase romance. Aventura - podia chamar assim ao amor que só ela havia sentido e alimentado durante anos. Amor que vivera intensamente de um lado, enquanto do lado de lá, o comportamento fora de banalidade, superficialidade. Agora, em casa, horas depois, enquanto se preparava para o banho, pensava: “afinal o que a incomodava tanto ainda? O ter sido deixada? O ter sido traída? O ter se enganado tanto!”. E no final das contas, a dificuldade em retomar a vida com alegria. Sim, a alegria de viver que tinha pedido de volta na beira d’àgua mais cedo. Esta alegria, tinha se perdido.
Era assim: em meio às pessoas disfarçava, sorria, “mandava bem”. Com as amigas mais próximas não tocava mais no assunto, e respondia curta e secamente quando alguém lhe perguntava algo. Uma vez por semana, na terapia é que falava abertamente. Ali, na sua frente, a terapeuta, que havia lhe ajudado a superar a primeira decepção, era o apoio e a sentinela para não a deixar se perder nos caminhos da mente, que sempre, e ainda, buscava explicações.
E pela primeira vez, olhando seu rosto diante do espelho, pensara: “hum, será que é vingança? Revanche, o que eu quero?” Este pensamento, por si só, nunca lhe ocorrera assim claramente. Nunca tinha pensado desta forma: o que faria seu coração sossegar? Mesmo porque vingança era algo feio, coisa de gente atrasada, não combinava com ela. Mas de repente se pegou pensando que queria uma reparação. Para o não ter sido amada como gostaria? Não. Este mal não tinha conserto – pensara sorrindo. Na verdade estava se dando conta de que tinha absorvido tudo sozinha, e o máximo que deixava transparecer para o “ex-amor eterno”, era que já não estava disponível. Que não era a mesma pessoa carinhosa, compreensiva e receptiva. Mas tinha evitado acusações, discussões desnecessárias. Cada um estava seguindo seu caminho. E ela tentava a sua nova vida trabalhando muito, tomando diariamente seu comprimidinho mágico, tentando se exercitar, cuidar do corpo e vencer gradualmente a solidão.
Mas naqueles dias vinha se sentindo especialmente cansada. Tinha dito na terapia: “Estou casada de tudo. Fisicamente cansada. Emocionalmente cansada”.A terapeuta tinha lhe dito que talvez fosse o caso de aumentar a dose do remédio e que estava na hora de retomar o emocional. Tentar se interessar por outra pessoa. Achava esta idéia totalmente absurda. Queria viver, simplesmente. E deixar a vida acontecer. Não queria forçar nada. Nem se sentia preparada. Lógico, que queria muito ser amada. Mas não gostaria de criar novas expectativas. O alerta de que talvez não estivesse reagindo a contento à medicação vinha chegando devagar, na apatia que tentava vencer diariamente. Além do cansaço físico, e das ondas de tristeza - quando as lágrimas vinham aos olhos no trânsito - não estava conseguindo descansar quando dormia.
E ali, na segunda noite sem sono, o relógio avançava além..

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Roberta Tum
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Jornalista, que gosta de escrever para além das notícias.
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Marcos André Carvalho Lins
 

muito bom , roberta.
parabéns!!

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 21/2/2007 22:58
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Roberta Tum
 

Obrigada Marcos! Bom que gostou..

Roberta Tum · Palmas, TO 22/2/2007 09:53
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Janethe Fontes
 

Olá, Roberta,

Em primeiro lugar, muito obrigada por seu comentário em meu texto, Felicidade. Fico feliz que tenha gostado.
Em segundo, li seu texto e adorei. Só uma dica (se me permite), na frase: "Mesmo por que vingança era algo feio, coisa de gente atrasada", acredito que seja porque (juntinho).

Abraços,

Janethe Fontes.

Janethe Fontes · São Paulo, SP 22/2/2007 10:42
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Roberta Tum
 

Obrigada Janethe! Correção oportuna, e feita! Volte sempre e dê suas opiniões!

Abraço!

Roberta Tum · Palmas, TO 22/2/2007 11:18
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Renata Tum
 

Frágeis mulheres fortes.
Cuida desse coração, meu amor. Ele merece MUITO!

Obs.: O tempo vinga tudo.

Renata Tum · Palmas, TO 19/3/2007 17:40
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celia p
 

Trecho tão verossímel: Mas naquele momento seu pensamento não estava focado neste assunto. Apenas caminhava, observando a água mansa, transparente, e o efeito do sol sobre o lago, naquele dourado de fim de tarde. Gostei. Me identifiquei.

celia p · Florianópolis, SC 21/3/2007 08:40
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Roberta Tum
 

Rs..obrigada Célia. Trechos que relatam emoções, sempre unem pessoas desiguais. Que bom que é possível!
Bj

Roberta Tum · Palmas, TO 21/3/2007 14:40
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