Crônica do Texto Assassinado

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Mauro Paz · São Paulo, SP
18/10/2007 · 84 · 8
 

As pessoas que me conhecem de verdade sabem que sou muito mais lógico do que emocional. Poucas coisas me tocam profundamente de uma forma irracional, mas uma delas é a música “Bailes da Vida” de Milton Nascimento. Todas as vezes que escuto ou toco essa música, meu peito se rasga por um sentimento primitivo.

Nunca consegui entender o que se passava comigo ao escutar a voz grave de Milton cantando:
Cantar era buscar o caminho que vai dar no sol
Tenho comigo as lembranças do que eu era
Para cantar nada era longe, tudo tão bom
'Té a estrada de terra na boléia de caminhão, era sim


Durante este feriado (12/10), finalmente, consegui compreender por que a música me toca tanto. A explicação não está na minha proximidade com o universo da música, que hoje já não é mais tão próxima assim. O fato é que a música evoca o meu desejo mais profundo de querer levar as minhas reflexões sobre o mundo e as pessoas através da arte.

Cresci com o exemplo de pais que nunca calaram, e, independente do local onde estivessem, sempre lutaram pela liberdade, por mais relativa o que seu conceito possa ser. Assim, minha sina é crer que mesmo “com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir onde o povo está... Não importando se quem pagou quis ouvir...”

Considerando que cantar ou, no caso hoje, escrever é a melhor forma de eu interagir com o mundo, sofri uma agressão sem precedente na minha história. Ao postar o texto Carnaval/Canibal, no Overmundo, fui “apedrejado” sob a acusação do meu texto não tratar da cultura brasileira, uma vez que apresenta a versão de um autor Francês para o processo antropofágico que as culturas têm passado no mundo globalizado.

Não posso pensar o Brasil ou a cultura brasileira sem pensar o mundo. Pergunto: O que é cultura brasileira? O que legitima alguém para definir que o que escrevo é pertinente ou não para que os outros leiam? O que se ganha com o assassinato autoritário de um texto?

Se alguém souber, responda, pois se a lógica do certo e errado é parametrizada por especialistas em coisa nenhuma, creio que o Overmundo não deveria carregar como nome tal neologismo. Inclusive sugiro um novo nome, TUPINIQUINSIMESMADO.

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Mauro Paz
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LAILTON ARAÚJO
 


JÁ QUE CALARAM ATÉ O MEU COMENTÁRIO...

Segue abaixo mais uma vez... (mudando o verbo)

UMA PEQUENA ANÁLISE...


Prometi ao meu “ego” teimoso, coisa de matuto, migrante nordestino, que jamais me envolveria com qualquer outra polêmica no sítio Overmundo. Sei que regras são regras, e cada lugar tem o perfil e cara do leitor. O Overmundo até agora não mostrou a principal finalidade da existência. Será um laboratório de idéias? Será uma confraria de escritores ou aprendizes? O que é o Overmundo?

Depois de brigas e “atitudes infantis” percebi que estava dando “murro em ponta de faca”. O que eu estava ganhando com isso? Minhas idéias continuam as mesmas! Acho o Overmundo um site cada vez mais chato! O que estão fazendo com o verdadeiro sentido da arte?

Cada dia que passa fico surpreendido com os novos “Mauro’s Paz” e as atitudes politizadas, tropicalistas e de vanguarda – como também tiveram - Gilberto Gil, Caetano Veloso e Mestre Tom Zé.

Um texto como aquele ( CARNAVAL / CANIBAL - COMIDO PELA FACA DO BOTÃO FORA DE LUGAR) em discussão não alteraria em nada a “linha editorial” do Overmundo. O menino “Mauro Paz” tem talento e precisa de críticas (como eu e outros autores precisam) construtivas sobre seus textos - que eu acho muito bons - e direções para os vários caminhos literários possíveis. A formação de novos escritores não acontece nas escolas tradicionais. A escola desperta a paixão pela escrita. Os escritores mais experientes conhecem os caminhos das letras! Mas... Podem errar na análise! Se o Overmundo é uma escola, o direito de escrever e de ser criticado é normal. Com diplomacia! Qualquer texto é uma criação pessoal... É uma cria humana e tem sentimento!

Não acho que “Carnaval / Canibal” estivesse fora de contexto. O local publicado tinha audiência e poderia ser a vitrine para mais um novor valor da literatura brasileira. Era cultura com toda certeza! Continuo discordando do uso do “botão fora de lugar” e de quem usa esse artifício (ao meu ver) reacionário. Escrever que um texto é ruim ou optar pelo silêncio podem ser formas de votação ou negação ao que é publicado. É simples!

Gostava daquele texto (comido) e continuo gostando das idéias criativas de Mauro Paz. Principalmente de sua atitudes em responder com poesia e música!

Estou votando e me despedindo de todos.

Abraços.

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 15/10/2007 01:50
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Andre Pessego
 

Mauro,
este fim de semana passei, vez por outra, lendo elogios
feitos à edição da LEI DA TERRA DE 1850, isto mesmo, 1850; e lia também comentarios, discursos sobre o alvará que "abria" o primeiro ciclo industrial, de 1810, isto mesmo, 1810.
e lia manifesto de latifundiários, de 2007, contra a legalização das terras de Quilombos........... Nada mudou no Brasil. Isto mesmo, nada mudou no Brasil. Mesmo sem a industria, o Brasil
nunca importou sensores. Eles, os sensores, estiveram sempre entre os intelectuais brasileiros, sendo um deles, ou tanto deles.
- Nada mudou. (não estou falando daquele aparelhinho eletronico, não).
um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 15/10/2007 07:42
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Marcos André Carvalho Lins
 

vamos em frente, Mauro.
bom texto e boa análise.
abraços,

Marcos André Carvalho Lins · Recife, PE 15/10/2007 09:16
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Adroaldo Bauer
 

Mauro,
Esqueceste de rememorar o precioso e específico detalhe de que o que Obrer disse, em primeiro, com o que concordei, relativamente a teu texto, é que ele estava fora de lugar, não que não tivesse conteúdo que importasse.

Recordo, inclusive, a sugestão que Obrer fez de que postasse tu o texto exatamente onde esse está agora, Banco de Cultura - Textos Não Ficção.

A discussão sobre conteúdo que se seguiu, basicamente entre tu e eu, buscou, da minha parte, incluir conteúdos no teu postado, ainda que por comentários, que o revestisse da condição de estar ali onde postaste.

Embora eu não tenha feito cópia do que escrevi, recordo que sugeri relacionar com Florestan Fernandes e vários títulos de Paulo Freire, que igualmente fazem a discussão da hegemonia e do exercício de poder de estado e a identificam como uma questão essencialmente cultural.

Tomaste por ofensa o que era apenas sugestão e te fechaste em copas na defesa rígida de um conceito, postura que não aceitou colaboração e interação de modo algum com qualquer outro saber.

Foi o que quis dizer quando escrevi: creio que já nos dissemos tudo e lamentei teres confundido os antagonistas, que não o sou de ti.

E para teu conhecimento, também, porque divergíamos da interpretação, sem eleger árbitro que não fossem as regras desse sítio que assinamos espontâneamente ao aqui ingressar, informo que não fui quem acionou o botão fora de lugar para a tua publicação.

Pela simples razão de considerar, eu, que idéias e conteúdos que as expressem não se modificam porque se lhes retira o suporte de difusão posto que são fenômeno de outra ordem que não a ordem material, ainda que virtual, no caso específico.

Bela recordação da canção de Wagner Tiso e Milton Nascimento.
Como teu próprio linque para o Velho Pituco
sugere, e corrobora a minha tese sobre as idéias no mundo (e no Overmundo), é também apropriado recordar

Quando um muro separa
Uma ponte une
Se a vingança encara
O remorso une
Você vem e agarra
Alguém vem e solta
Você vai na marra
Ela um dia volta
E se a força é tua
Ela um dia é nossa
Olha o muro
Olha a ponte
Olha o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Você corta um verso
Eu escrevo outro
Você me prende vivo
Eu escapo morto
De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz
Exigindo troco
Vamos por aí, eu e meu cachorro
Olha o verso
Olha o outro
Olha o velho
Olha o moço chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Olha aí
O muro caiu
Olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo horizonte
Abraça o dia de amanhã
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Mordaça, Paulo César Pinheiro/Eduardo Gudin. Copyright by EDIÇÕES MUSICAIS TAPAJÓS LTDA. (EMI).

Se assassinato houve, como dizes, o cadáver continua muito vivo.

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 15/10/2007 11:10
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Branca Pires
 

Bravo, Mauro!
Embora eu nada tenha lido antes a respeito do "Assassinado texto, portanto nada poderei opinar ao específico episódio. Mas, como artista plástica, e que vez ou outra desabafa aqui também em escritos, quero deixar registrado um pouco do que penso:
A arte não tem fronteiras, o artista é cidadão do mundo... não importa em que modalidade! Portanto, expressar-se é a sua voz, a sua alma!
Libertemos-nos dessas armaduras, dessas couraças de todas as sortes por aqui.
Rendemos-nos aos encantos da arte e da amizade!

Mas é isso, Mauro, quando nos sentimos incomodados, verbalizemos, deixa sair!
Grande abraço!

Branca Pires · Aracaju, SE 16/10/2007 11:36
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Branca Pires
 

Votado!

Branca Pires · Aracaju, SE 17/10/2007 11:31
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José Braga
 

Bom texto. é preciso não assassinar os textos, mas deixá-los voar como os passáros...
Mas assim como tem pássaros em gaiolas, muitos textos também podem ser engaiolados... Mas podemos soltá-los.
Abraços, José Braga.

José Braga · Brasília, DF 18/10/2007 17:23
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Andre Pessego
 

Mauro, estou votando para voltar, um abraço, andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 18/10/2007 18:08
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