Crônica - Faça o que eu digo

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Flávio Herculano · Palmas, TO
3/2/2011 · 0 · 2
 

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Colocou seu melhor vestido de domingo, uma maquiagem discreta e se dirigiu ao ponto de ônibus. Estava de cara fechada, não apenas pelo típico sol palmense que lhe incandescia os olhos. Era assim por natureza. Irritou-se ainda mais pelas muitas voltas que deram os ponteiros sem que o coletivo apontasse na esquina. Quando o ônibus chegou, ela valeu-se de cotoveladas para ser a primeira a embarcar. Passou pela catraca soltando impropérios contra o motorista, maldizendo a longa espera.

Como o itinerário seria demorado, usou sua visão de ave de rapina para enxergar antes o único assento vazio. Correu desesperadamente até lá e jogou-se na cadeira. Ignorou a velha senhora que passou com pares de sacolas de supermercado às mãos e que olhava para a cadeira como um cachorro olha para um filé sangrento dependurado no gancho do açougue. Aquele era um dos assentos preferenciais para idosos, mas, enfim, ela tinha chegado primeiro. Além do mais, julgou ser aquela senhora saudável o bastante para seguir a viagem em pé, apesar da idade, das sacolas e das rotatórias.

Duas paradas à frente embarcou um homem de terno mal cortado, suando em bicas. Debaixo do braço, carregava um livro pesado. Com a outra mão, arrastava o filho ônibus adentro, xingando o menino de lerdo, para o constrangimento de alguns passageiros e a ira de outros. “Esse puxou à mãe, uma preguiçosa que não vale o que come”, dizia.

Por um acaso do destino, o homem seguiu com o filho até o meio do ônibus e se postou diante do trono da mulher mal-humorada. A cada freada, o menino esbarrava nas pernas da mulher a camisa pegajosa do sorvete de há pouco. Claro, não precisou mais do que três solavancos para a mulher empurrar o menino em direção ao seu pai, mastigando algumas palavras grosseiras.

Claro, não precisou mais que esse gesto para o pai retrucar. Bruxa, vaca e mal amada foram os adjetivos mais leves contra a mulher; os palavrões, nãos os posso repetir nesta página de internet. A mulher retribuiu à altura, aos gritos de corno, veado e nêgo safado. E a discussão seguiu, cada um tentando se sobrepor pelo mais baixo calão das palavras e pelos gritos mais altos. O menino assistia assustado.

Só houve cessar fogo quando o ônibus chegou à parada final da mulher. Como faz todos os domingos, ela foi rezar. Comoveu-se com o sermão a ponto de ir às lagrimas, comungou e repetiu o gesto de saudar conhecidos e desconhecidos com um abraço, não apenas com um aperto de mão, olhando-os nos olhos e desejando a todos a paz de Cristo.

Neste momento, descia do ônibus o homem de terno, arrastando seu filho agora com muito mais fúria e proferindo palavrões contra ele, para que se apressasse. O culto estava para começar e não poderiam atrasar-se.

E a velha senhora com sacolas nas mãos, chacoalhando nas rotatórias, lembra? Pois esqueça! É apenas um figurante na história, mais uma usuária anônima do penoso serviço de transporte coletivo da cidade.

Sobre a obra

Crônica sobre costumes e (indiretamente) religião.

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Flávio Herculano
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Eliene Oliveira
 

Salve, salve Herculano. Como sempre, acho uma delícia ler os seus escritos...E twittar, me trouxe agora, aqui em mais uma de suas "letras vivas". Adorei! Na leveza e fluidez das suas letrinhas, rememorei muitas dessas passagens nos ônibus de Palmas. Nas entrelinhas, você pontuou muitas situações...e daqui, senti o asco do suor misturado ao melado do sorvete, que pra mim, simboliza os tantos "quitetudes" que se comem aí dentro da condução. E a demora aos domingos? ...Parabéns!!!

Eliene Oliveira · Patos de Minas, MG 3/2/2011 07:38
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Edson1970
 

Mas uma vez o domingo. O cotidiano é sua fonte de escrita, que bom! O ônibus me fez lembrar um conto de Clarice "O amor"

Edson1970 · Mossoró, RN 3/4/2011 10:21
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