CUIDADO COM DOIS CARAS DENTRO DE UM FUSQUINHA!
Todos nós temos percalços na vida. Tão maiores quanto maior a dificuldade financeira. Bem, assim era comigo na vida de estudante de jornalismo na bela Goiânia de 1980. Não era uma vida de agruras, mas não era a mamata dos boyzinhos que curtiam a praça Tamandaré pilotando os últimos modelos de veículos.
Quando a aula era no Campus, lá estava eu no ponto da avenida Araguaia, seis da manhã, para pegar o Transurb vazio pois mais tarde todo mundo invejava o conforto das sardinhas em lata. Vez ou outra, para não acostumar com a mamata, uma carona com a Lu em seu fusquinha a álcool (uma novidade à época).
Pois bem, quando era matéria eletiva, à noite na Faculdade de Educação – fazia italiano com a professora Sílvia Lage – ia a pé. Não chorem por mim – pois já choraram pela Argentina –, era perto. Eu morava na rua 24 com a Anhanguera. Era um pulo até lá.
Mas no meio desse pulo uns assaltantes me pegaram certa vez.
Havia acabado de jantar na pensão, sabem como é estudante do interior longe da família. Pois é. Saí da Anhanguera, ali na praça do Botafogo, entrei naquela rua do Edifício Paranoá, perto de onde havia feito a inscrição no CECV da UFG para fazer o vestibular de jornalismo, passaria perto da casa de minha saudosa colega Rose para pegar aquela avenida de pista dupla da Faculdade de Medicina. Pois foi ali. Não era ainda sete da noite. Veio um fusquinha (o carro popular da época) e parou diante de mim antes de eu atravessar a rua. Recuei um passo e parei sobre o meio-fio. Dois rapazes dentro do carro. O carona fez uma pergunta para pegar trouxa: “Onde fica a praça Universitária?” Em meus lábios um sorriso de mofa denunciou o meu pensamento: “Que jecas, tão perto e não sabem!”
Dei as explicações necessárias, que os dois ouviram pacientes. O agradecimento do carona foi levantar um trabuco cromado em minha cara que me fez pensar imediatamente em minha mãe. Agora, sim! Se vocês já choraram pela Argentina, rezem por mim!
Ele me disse, por certo vendo meu espanto pelo insólito agradecimento que me fazia: “Por isso vai me dar o relógio”. O matuto aqui – sim, o jeca agora era eu – ainda tentou argumentar apesar das suas irrefutáveis razões. Ele apressou o desenlace: “Anda logo senão leva um tiro”. Pronto, num instante o relógio estava em sua mão. Podia ser jeca, mas não era surdo. Ele voltou ao ataque: “Passa agora a bolsa” – disse, completando para me dissuadir de qualquer relutância – “e rápido!” Uma explicação: naquele tempo se usava muito aquelas bolsas de alça, levadas ao ombro. Quando coloquei o polegar na alça para me render à limpeza, fui salvo por uma mulher que dobrava a esquina. Os assaltantes arrancaram acelerados no pobre fusquinha.
Fiz o que manda a praxe em seguida: procurei primeiro tomar um copo de água com açúcar para refazer a macheza do filhinho de mamãe, só depois procurei uma delegacia para as formalidades do BO, que sabia não daria em nada...como realmente não deu.
Bom, a partir daí o maranhensinho aqui ficou esperto. Atenção redobrada a qualquer carro suspeito que se aproximava. Nos finais de semana com pouca gente nas ruas, quando alguém vinha no mesmo lado, imediatamente eu pulava para o outro. E assim fui escapando.
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que estória...
eu tive um fusquinha verde abacate.
mas sempre me deu muita sorte.
se bem que não me lembro de ter andado com outro cara. só entravam as minas.
Leandro, conheço cada pedaço desta Goiânia que você descreve. Também estava lá, década de 80, rumando para o Campus de madrugada e ralando no Diário da Manhã de tarde até a madrugada. Fique tranquilo, você não foi o único. O "meu" assalto também foi na Anhanguera, voltando pra casa, e entrando na 4. Uma outra hora conto.
Boa história! Gostei!
Lindo e poético recordo...
Parabéns JJ. Abçs.
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