CURTA METRAGEM.
Cinco e trinta da matina, cheguei cedo para ver a praça acordar ao luso-fusco. Céu carregado, nuvens vermelho-rosáceas se misturam ao azul dos holofotes que iluminam a fachada da igreja Matriz de Nossa Senhora e São José e fazem brilhar as paredes do casarão colonial do saudoso Benjamim Rêgo. O ambiente desperta uma áurea mística, como pano de fundo.
Passam pelos passeios moradores em caminhada e aposentados já estão sentados à porta do ECT, esperando a abertura do Banco Postal.
Nos anos 60, dormíamos aqui ainda vestidos de terno, nos bancos dessa praça vindos das festas do AC e, cedinho, comíamos o pão quentinho da padaria de Antonio Brito e gargarejávamos com o pouco que sobrou no litro de scotch. Nestor, o vigia do posto de gasolina, ainda em pé com a sua capa colonial e o rádio portátil Mitsubitch, modelo 1956, ouvindo na ZYD7 música e até os noticiários internacionais. Uma fonte segura, para sabermos das notícias da noite e do mundo.
Hoje jovens passam montados em bicicletas trafegando em velocidade pelo logradouro, colocando em risco a vida dos idosos em busca dos laboratórios de análises e clínicas próximos. O sino eletrônico toca imitando as badaladas do original, ferindo os nossos ouvidos e o nosso coração com essa desarmonia musico - sentimental, a evocar a saudade de velhos e saudosos sons, nos velhos e saudosos tempos...
Não mais vemos a missa vespertina do palácio do Bispo, com a sua decoração e móveis coloniais. Não mais ouvimos os chilros dos beija-flores do viveiro doado por Chateaubriand, o Rei do Brasil. No seu lugar, ficou um descorado coreto em que moram, dormem, alimentam e copulam notívagos, moradores das ruas e dependentes exógenos, colocando em risco quem por aqui arrisca passar tarde da noite. Sob a luz das estrelas, os bancos da praça são palco de preliminares da galera GLS, que pulula nos bares da moda próximos. Afinal, a alma é escrava do amor! O comércio e o consumo da droga rola solto. Uma pequena cracolândia curraleira!
Sete horas e o ponto negro das ruas Doutor Veloso e Santa Maria já fervilha com carros engarrafados. Frenagens súbitas, alaridos, cantar de pneus... Impropérios! Bem diferente dos anos 60, quando, de manhãzinha, por lá passávamos cantarolando as músicas fixadas nos nossos ouvidos e que restaram das serenatas...
Agora, vemos bestas humanas induzidas pela química exógena que voltam das noitadas de embalo e vociferam, gesticulam e urram. Veículos de panacas, com o som a toda, compensando a falta de masculinidade no desespero dos “raps”. São míseros flagelados sensoriais, de quem sentimos muita pena...
Até bem pouco tempo, Felisberto Oliveira, o Barão, o morador mais emérito da praça, lá estava na sacada da sua mansão colonial. Hoje, não mais aparece com o seu indefectível copo de vodka na mão. Que grande figura! Uma pessoa queridíssima!
Voltou para os mundos súperos levando o seu coração de menino assustado, o sonho de erguer em Montes Claros uma escola de cinema, as eternas lembranças e as saudades dos amigos igualmente diletantes, o copo de vodka e o som das badaladas do seu imponente relógio carrilhão francês com vasto pêndulo dourado, grande e lindo. Que marcou, por toda uma vida, as horas felizes que Felisberto viveu e cismou na bela sala estilo rococó de seu bicentenário sobrado, palco da sua morte, com a pompa e a circunstância de um sangue azul.
Construído em julho de 1856 pelo capitão José Rodrigues Prates, quando Montes Claros tinha apenas 24 anos de emancipação política, o solar dos Oliveira, localizado no centro histórico da cidade, um dos mais tradicionais pontos culturais da cidade, está ameaçado de cair completamente se a prometida reforma não ocorrer logo.
PREZADOS LEITORES!
As fotos que coloquei não foram publicadas! Estragou o postado!
SEI O QUE É SAUDADE DO BELO,DA BUSCA PELA PAZ E O RESPEITO QUE TRAZEMOS NO CORAÇÃO DESDE TEMPOS....
CHARLES SCHUAB · Linhares, ES 25/2/2011 11:24Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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