Acabara de sentar na mesa da biblioteca para terminar os seus últimos deveres. Trazia apenas o básico nas mãos. Numa mão três ou quatro folhas de papel, e uma caneta-tinteiro estilo Mont Blanc noutra. No outro lado da mesa, ela sentou-se. Pernas cruzadas, colocou os livros de um lado e apoiou as mãos na mesa. Estava diferente. Não era pela maquiagem, nem pela saia que estava cobrindo exatamente três quartos de suas pernas. Ela chorava. Chorava copiosamente, e trazia no rosto aquela combinação bifásica de nostalgia e solidão amarga. Antes que ele perguntasse o que estava acontecendo, ela segurou sua mão. Docemente. Do jeito que sempre fazia suas ações, como proferia suas palavras. Era como se ela quisesse que toda aquela dor que ela sentia fosse compartilhada por ele. Na mesma hora, sentiu que aqueles olhos lindos, negros como azeviche, eram os culpados pela sensação estranha que se seguiu nele, juntamente com meio milhão de sentimentos, até então desconexos, que ele havia esquecido que existiam. Não precisou dizer absolutamente nada. Bastou tudo aquilo para entender porque toda aquela solidão insistia em queimar impiedosamente no cérebro dela. Toda aquela dor que estava estampada nos olhos dela, mas que até então nunca havia conseguido aquilatar. Então, aquela sensação dentro dele foi se tornando mais intensa, porque sem saber, era essa a sensação que ele sentia quando não conseguia dormir, ou simplesmente lia uma linha ou ouvia uma música que lembrasse o nome dela. Havia se tornado rude e desviava as atenções, depois de tantas rejeições e perdas. A carapaça de aço que envolvia seu peito há anos parece que começava a amolecer. Ele a amava, ou descobriu que todos aqueles sentimentos que descambavam sobre seu corpo se chamavam amor. Amor longo e sôfrego, desde que leu seu nome, junto com dois parágrafos que traziam uma dor que se camuflava em cada palavra exposta. Foi numa noite chuvosa de julho. E nunca mais esqueceu daquela noite... Tinha vontade de dizer a ela o quanto a amava, o quanto ela fazia bem a ele, o quanto o fazia sorrir... Mas era sempre uma tentativa frustrada. Era como se todo "eu te amo" que ele ousava dizer, nascesse do peito, subisse até a garganta, mas morresse ali, na boca. Como um rebento que nunca veio ao mundo. Estava cansado de apanhar, de se desiludir. Mais uma decepção na sua coleção, e morreria ali mesmo. Ela continuava a chorar -- solitária, de todas as formas --, e ele parecia cambalear com toda aquela ânsia tele-transportada que só fazia aumentar à proporção que as lágrimas rolavam do rosto dela. Cambaleava com aquilo. Cambaleava com o medo que lhe assombrava. Medo de se levantar, de abraçá-la e beijá-la com ternura, enchendo-a com a única coisa que podia lhe dar, a qual no momento, ele também queria: esperança. Um rastilho mínimo que fosse. Começou a recobrar os sentidos, quando sentiu algo quente rolando pela sua face esquerda. Uma lágrima. Fazia tempo que não sabia o que era aquilo. Começou a se renovar com todo o pranto que finalmente conseguia expulsar depois do que parecia o triássico, o jurássico e o cretáceo juntos, e deu um longo suspiro. Como se estivesse aliviado, por renascer naquele instante. Acabou perdendo a noção do tempo, e quando deu por si, a cadeira à sua frente já estava vazia. Só a neblina que servia de pano de fundo havia permanecido.
Ela já estava ali, do seu lado.
Delicadamente, como sempre agia, ela colocou os braços em volta de seu pescoço.
E o beijou na boca.
O beijo longo, quente e terno, que ele não conseguira dar.
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