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DAMAS E CAVALEIROS DA NOITE

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raphaelreys · Montes Claros, MG
22/1/2011 · 0 · 4
 

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DAMAS E CAVALEIROS DA NOITE

Ou mesmo dama das camélias, como as chamava um renomado escritor. Estrelas da noite, filhas de Afrodite que dominavam a via dos prazeres nos Montes Claros dos anos 50 e 60. As rainhas do prazer somavam três mil. À cidade tinha como atração maior o Cassino Minas Gerais, que já apresentava números de striper.
O oráculo da lascívia estendia-se da Praça Pio XII, na Rua Lafaiete, via ruas Grão Mogol e Padre Augusto, até o Beco do Marimbondo, próximo à Praça de Esportes, onde estava à boate Maracangalha, com sua pista de dança sintecada e o teto rodeado de bandeirolas coloridas.
Corpos suados deslizavam ao som de boleros e de passos alternados do tango portenho. Era a Corrientes 348, tupiniquim! No ar as fragrâncias de Madeiras do Oriente, Myrurgia, Royal Briar, de brilhantina que ensopava a gola da camisa dos galantes. Na cintura usavam Colt Cavalinho 32’
Os janotas desfilavam com as damas a bordo de um Sinca Chambord francês a ouvirem Cauby Peixoto cantar Pérola Rara, nos modernos e importados toca-mini-discos portáteis. Alguns chegavam a usar no período chuvoso, capa de gabardina impermeáveis modelo Raglants, outros imitavam Rodolfo Valentino e o seu bigode tropical.
O país chorava a morte de Chico Viola e escutava de luto... Cinco letras que choram, num soluço de dor... E no reflorir de uma estrada cortando a encruzilhada, ponto final num romance de amor...
O orvalho das madrugadas fazia bruxulear as luzes vermelhas que anunciavam a rota dos prazeres da carne, do conhaque e do traçado. O espaço se enchia com a voz de Orlando Silva, de Nelson Gonçalves, de Dalva de Oliveira, de Ângela Maria, de Gardel. Corações se incendiavam, aconteciam flertes e apaixonados cometiam gafes. Crimes passionais interrompiam casos de amor e triangulações de alcova.
A brisa trazia os sons da vitrola dos lupanares... Segue o teu caminho mariposa antes que a Luz te embriague... Mas nunca se esqueça mariposa, que toda luz se apaga...
A tragédia rondava os sentimentos dos boêmios, acelerando os seus corações e expondo a libido na sua totalidade. Cupido atirava as flechas, e Eros emprestava as asas.
Din Canga afetado pelo amor platônico cantava Maria Helena, e curtia a sua paixão por Cesí. Ela usava boina de feltro e saias tipo garota do Alceu.
O tira-gosto de galinha era servido na bacia de alumínio no bar do Daniel Careca, o baião de dois no bar do Calisto e o filé à cubana, no restaurante do Baiano.
Jarros e bacias esmaltadas, brancas com borda em azul, substituíam os chuveiros, e as damas usavam pó de arroz, ruge e, na pele, Antisardina um e dois.
No pano verde da campista, o matraquear da roleta e o tilintadas fichas e barulho dos dados, intumescia os corações encharcados de adrenalina.
Estas estrelas não brilhavam na amplidão dos céus, e sim, nos lençóis bordados a mão, já rotos pelo exercício do prazer carnal. Criados mudos amparavam cinzeiros com cigarros Celma, manchados de batom e que expeliam fumaças em espirais, e as penteadeiras tinham bibelôs de gato e de pingüim, que mudos assistiam aos amores.
Que todo a meja luz... Crepúsculo interior... A meja luz los bejos... A meja luz nos dos...
A penteadeira era o altar das damas; lá os seus retratos, seus amores e a família distante. Um oráculo para reflexões sobre o destino sonhado, para acender uma vela em oração e se ver no Narciso. Lugar de se acompanhar a degradação da beleza esvaindo-se com o transcorrer do tempo e ver no rosto, os sulcos deixados pela desilusão, e chorar vendo a imagem da lua, que entrava pela janela e se fazia plena no espelho, que refletia a imagem morena de Creusa.
A noite testemunhava o glamour de Analinha, o fogo impetuoso de Maria da Lapa, o corpo rechonchudo e quente de Aparecida Gorda, e a bateia da Lurdinha. O encanto de Dulce baiana, e o aroma do seu perfume Nuit De Noel e, a beleza esplendorosa de Etelvina, a miss das camélias.
Lares foram desfeitos, fortunas consumidas na orgia, famílias foram iniciadas nas alcovas do prazer carnal, nas mesas do bar e na pista de dança.
Era um mundo de libações, de culto a Baco. Os amantes tomavam banhos nus no rio de Melo, e o cúmulo do romantismo era assistir a seção das 16 horas no Cine Fátima, se fazendo acompanhar de uma dama das camélias.
Ela vinda do banho, com cheiro de sabonete Eucalol, ou de Vale Quanto Pesa e de um suave perfume Lanergom no cangote de pura excitação.
Lembro quando Aurora, com o seu olhar ingênuo, entrou pisando forte e estrepitando o seu tamanco Carmem Miranda assentou-se numa mesa nos fundos do salão. Aí bateu o aço a chorar magoada pelo excesso de prazeres movido às pamparras. O rádio na cozinha tocava baixo Caubí Peixoto, cantando a música da moda, O Nono Mandamento... Senhor, aqui me tem de joelho... Trazendo os olhos vermelhos... De chorar, porque pequei... Senhor... Por um erro de momento... Não cumpri o mandamento... O nono da vossa lei...
Geraldo Barata, após tomar um porre de scoth, entra distraidamente numa casa de família ao lado do cassino. Presumindo estar em ambiente noturno, trás para si uma morena que passa toda faceira. Foi abatido com um disparo de 38’.
Dançando gafieira no salão da pensão de Casimira, Chiquinho Pé-pó-mato, dias antes de ser abatido por uma lâmina fria, e todo chique, num terno azeitonado e com os seus pés dez para as duas, bailava com Maria Viola. Ela, que não era candelária, trajava um vestido de seda com as laterais lascadas, à moda havaiana. Pelos cortes, apareciam as suas divinas pernas em nácar. Profissionalmente, só ficava com os idle rich.
Braulina com seus olhos de garapa tomava sorvete de creme no bar Sibéria fazendo-se acompanhar de Crioulo Sinuqueiro, irmão de Anália. Ana Rosa, calçando uma leve sapatilha de lona china-pau, e gingando os seus quadris tentadores, mostrando o seu sorriso de rasgar a alma, entra no bar do Cambuí, acompanhada de um fazendeiro rico. Foram tomar refresco moreninho feito com anil e cascas de laranja.
Os beijos eram em sabor tropical, e o prazer sorvido num tom de Dias de Ira. Vivia-se como se a vida durasse apenas um dia.
Otelina, Amélia (a morena melada) e Mariinha compravam do Mário Veloso, na Pharmácia Versiani, pacotinhos de permanganato de potássio. O poeta boêmio Vinicius de Morais, bem por certo teria dito:- vão dar banho de assento no vértice supremo da paixão!
No encanto molengo da madrugada, a boemia era a trincheira de habitues que circulavam pela rota do pecado, num universo de dolce fair niente.
Após uma noite de orgias com turistas argentinos, quando homens e mulheres se atormentam Margarida, Alice e Wanda dirigiram-se ao Minas Bar. Juntas almoçaram uma carne assada escutando Nelson Gonçalves cantar como se fosse morrer de amor.
Ururaí Filpi, o barão, assim como no dito do poeta Manoel Bandeira, “quem mora no beco só aspira ao beco”, andava como o homem que encheu o século, todo posudo. A sua calça de casimira inglesa combinando com o chapéu Panamá e a gravata de seda, se botava a dançar tango na casa da Roxa. Jogava-se e jogava a Rochilda para lá e pra cá. A luz violeta do abajur tremeluzia no seu paletó de linho branco Oxford.
Neco Santa Maria tentava manter o equilíbrio do corpo andando pelo passeio, depois de tomar uma garrafa de cachaça Estrela “made in Januária”, na casa de Amanda. Atravessado na sua cintura e aparecendo de forma explícita, o cabo do pau de fogo Schmidt e West 38.
Quem chegava quando Deus era servido, e muito bebia, começava a noite com alegria e terminava sempre em brumas e travesseiros com perfume de organdi.
Virgínio Preto, exótico comprador de gado para a empresa Anglo, passava pela zona boemia montado no seu cavalo preto, com sela de luxo e arreios com presilhas em prata20. Acenava para Bile, Maria de Levi e para Ana Reis, com a sua mão descorada pelo vitiligo, e debochava citando a grande voz a qualidade profissional de cada uma das damas ovacionadas.
O mundo passava devagar, os preços eram fixos, a tabela Price e a lua macia em sua quase pureza. O dinheiro abundante, a bebida ao Deus dará, a comida apetitosa, a política totalitária, os companheiros diletantes, as boates animadas, as músicas emocionantes, as damas, princesas de Vênus, e as noites desprovidas de porta e cancela. Era uma incomensurável larga! Os homens eram janotas e as mulheres da noite se empetecavam com vestidos longos.
Os distraídos, ao passarem em baixo de uma janela, arriscavam-se em receber uma baciada d’água. O que era considerado o cúmulo do azar, no abstrato da paisagem urbana.
Zoca Gontijo, ainda menino, dava gargalhada na porta da boate Maracangálhia. Contratava a Baixinha para uma tarde de amor com um infante seu amigo. Um neófito no reino de Afrodite. Um efebo tupiniquim!
Tiano Nunes, no seu bar no Mercado Municipal, emprestava dinheiro a juros. Era o banqueiro dos pobres e das bonecas cobiçadas. Vendia pasteis fritos, sem azeitona e sem carne. Quem encontrasse recheio no produto, era premiado.
Oscar Lage, sem a farda de militar e calçando sapato pampa com sola de crepe, fazendo-se acompanhar do escrivão Magalhães (Nariz de Tucano) outro bom de gole, tomava duas caixas de cerveja. Pela janela, as notas da sua voz de radialista cantando besame... Besame mucho... O passeio da Rua Lafaiete se enchia de admiradores.
Juca de Chichico descia para o mercado pela Rua Grão Mogol. As camélias nas janelas perguntavam ao vê-lo passar: como vai seu Juca? Ele acrescentava: que aperta e não machuca! E fazia o gesto de puxar para si o interlocutor.
No quarto número quinze daquele sobradinho cheio de mistérios, gemidos, espasmos, interjeições súbitas e inusitadas de corações que se explodiam num ménage a trois. Eram Perolina, e Nair, com um chauffeur de caminhão seis gaitas. Fulôzina e Capixaba, no exercício pleno da mais antiga profissão deste mundo de ilusões efêmeras, dançavam fantasiadas de colombina em uma conhecida boate. Cantavam... Chiquita bacana lá da Martinica... Só veste uma casca de banana nanica... Não usa vestido... Não usa calção... Inverno pra ela, é pleno verão...
Montes Claros era a babel mineira, a terra do carteado, das fichas coloridas, do pano verde da campista, do lança perfume Rodoro de metal, da luxúria

Sobre a obra

Os cabarés reinantes nos anos 50 e 60 na minha urbe provinciana deixaram um saldo de romantismo. Fumaça de amor bandido, damas das camélias, cafténs, rufiões, cheiro de perfume Royal Briar, lança perfume no lenço. Pedaços de lembranças, histórias de paixões, otários, juras e triangulações de amor!

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Autoria
RAPHAELREYS
Ficha técnica
Mas nunca te esqueças Mariposa/Que toda a luz se apaga/Presta bem, atenção Mariposa/Neste aviso derradeiro/Antes que a luz da cidade se apague, Pode cegar-te primeiro
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raphaelreys
 


Na batida do samba / Foi que eu te conheci/ Numa roda de bambas
Que eu jamais te esqueci/ Remexendo as cadeiras/ Gingando e sambando
Com simplicidade/ Até que um dia/ Trocaste o meu samba/E a lua do morro
Pela luz da cidade/ Segue o teu caminho Mariposa/Já que esta luz te embriaga
Mas nunca te esqueças Mariposa/Que toda a luz se apaga/Presta bem, atenção Mariposa/Neste aviso derradeiro/Antes que a luz da cidade se apague,
Pode cegar-te primeiro –( MARIPOSA ) - “Adelino Moreira”


raphaelreys · Montes Claros, MG 22/1/2011 02:26
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raphaelreys
 

Prezados Leitores! Vou colar aqui uma crônica da minha infância, dano uma de voyeur no Cassino Minas Gerais:


MOLIN ROUGE TUPINIQUIM


Transcorria o romântico ano de 1954, na tradicional e não ordeira Montes Claros, do coronelismo, da poeira e da lama.
As três maiores atrações da cidade, de então, eram a feira do Mercado Municipal, aos sábados, a zona boêmia, com mais de duas mil profissionais da noite, e o Cassino Minas Gerais, empreendimento modernista, montado pelo saudoso Lincoln de Freitas, ao estilo das grandes casas noturnas das metrópoles.
A bem da verdade, a nossa cidade era a capital dos prostíbulos e da jogatina...
Crianças ainda, tinham notícias das festas no cassino, das damas da noite, das estrelas da cama, do luxo, do pano verde e, principalmente, de certo show de strip-tease, executado rusticamente por uma conhecida loura fogoió, que ao que constava, lá pelas tantas, tirava a roupa no palco.
Curiosos, reuníamos na Praça Coronel Ribeiro e, liderados por Walter Coutinho, o mais arrojado do grupo, formamos um comando para, de alguma forma, ter acesso ao que acontecia no interior do cassino no horário do show. Corríamos atrás dos momentos felizes da nossa infância que, no dizer de Rachel de Queiroz, é como catapora. Não dá duas vezes.
As quatro da matina estavam todos prontos para a Operação Voyeur. Descíamos na quietude da Rua Doutor Santos e, lá chegando, amontoávamos caixotes de madeira, fazendo uma plataforma para termos acesso à abertura de ventilação e, dali, vermos a loura dançando nua. Da turma faziam parte Zé Carlos e Paulinho Priquitin, Odorico e seu irmão, Wagner e Chiquinho, Nano Cândido, e muitos outros que a lembrança me trai.
Chegávamos pela Rua Lafetá, toda coberta de areia, cheia de seixos polidos, pequenas moitas, e um curso de água perene. Escondíamos atrás das moitas, enquanto os caixotes eram amontoados pelos mais velhos. Eles sempre subiam primeiro e, quando chegava a nossa vez, algum habituê do cassino passava e nos enxotava aos gritos. Era um tremendo corre-corres evitavam sermos identificados, o que, se acontecesse, seria lastimável, pois os pais não perdoariam aquela ousadia.
O que mais ficou marcado na minha lembrança foi à cena final da noitada, que às vezes íamos assistir, escondido atrás das moitas.
O cassino, ao ser lavado, com as mesas na rua, todos ainda bebendo, homens de terno, e as mulheres em vestidos e saias rodados, estilo garota do Alceu, feitos com tecidos Bangu de florzinhas e listrados Nova América, cintos largos de couro, com grandes fivelas, brincos argola gigante, tipo balangandã, pulseiras em coco e ouro, à moda da época, e apertados vestidos tomara-que-caia.
Voltávamos para casa ainda escuro e comentando a semelhança das mulheres noturnas com as atrizes e cantoras da época, as fortunas que se dilaceravam no pano verde, as triangulações amorosas entre cáftens, damas da noite, e clientes. Notícias dos crimes ali cometidos, os incidentes entre valentes da época. Era tudo uma grande aventura nas nossas cabeças de meninos.
Muitas vezes, ao irmos embora, sentíamos o cheiro de lança perfume Rodhia, usado pelos freqüentadores que tomavam porre no lenço de bolso, e o cheiro forte trazido pela aragem das cálidas manhãs de nossas infâncias.
Assistíamos, sem o saber, ao fim da era romântica...

































raphaelreys · Montes Claros, MG 22/1/2011 12:32
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CHARLES   SCHUAB
 

BELÍSSIMO TEXTO ,EXELENTE,GOSTOSO DE LER....E INFORMATIVO...ME DIZ O QUE É O ESTILO DO AUCEU>>ABRAÇO!

CHARLES SCHUAB · Linhares, ES 22/1/2011 21:46
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raphaelreys
 

Charles Schuab! Alceu era um lançador de moda feminina dos anos 50. Criou as saias estampadas e rodadas que receberam o seu nome.

raphaelreys · Montes Claros, MG 23/1/2011 01:15
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