A cozinha desmoronou semana passada. Primeiro foram os pratos - sobrou-me apenas um ao final das contas. Que, a propósito, logo se desfez também. Em seguida pares e mais pares de talheres, alguns copos e taças. No início não percebi - fiz-me fazer não entender. Copos de requeijão me bastariam; não imaginava que iria continuar. Lava-louças, fogão, armário, mármore, azulejo por azulejo, aquele lindo jogo americano que compramos numa liquidação. Depois foi a luminária, o teto e aquela sanca carérrima que compramos com as economias de meses. À época não notei. Decidi ficar sempre na sala: a comida pedia pelo telefone.
Anteontem, quando dei por mim, o telefone que seu irmão nos dera também desaparecera. Quase morri de fome, catava farelos deixados nas dobras do couro do sofá. Isso, claro, antes d'eu perceber que estava sentada no chão frio assistindo tevê. Não me incomodava. Afinal, fazia bem para minhas costas. Você sabe, sempre me doem à noite. Sempre lhe disse que era o maldito sofá e aquele estofamento que você mandou colocar.
Ontem à tardinha, quando abri os olhos úmidos de um bocejo, a tevê tinha-me fugido. Ela era, definitivamente, linda. Mas não importa; já me cansava dela e sofria de terríveis enxaquecas à noite com todo aquele barulho. Recuei, enfim, para o quarto.
Ah, lá podia ler, esticar-me sobre o edredom sob a meia-luz daquele simpático abajour cinza. Quando fiquei no escuro decidi ler somente durante o dia. Precisava mesmo dormir bem à noite.
Mas durante a madrugada descobri-me no chão sem o macio do cobertor. Abri os armários, suas roupas também não estavam mais lá. Adorava aquele seu cheiro quando ia buscar alguma calcinha ou meia.
Mas hoje, ah, hoje. Hoje catei alguns cacos de vidro que me sobraram e, emoldurando-os com um pouco de lama, pude colá-los. Acho que eram daquele vaso chinês falso, lembra? Devia estar em algum armário da cozinha. Certamente quebrara na queda do teto ou da sanca. Mas não importa - o que me importa é que fiz um pequeno copo com eles. Era um tanto torto, é verdade, e soltava um gosto forte de terra na água. Mas eu o fiz. E, depois de tantos dias, tomei uma boa golada de água.
Agora tento um sofá para guardar os meus - e só meus - farelos.
Muito bom. Estranhamente bom! Ficção da boa! Parabéns.
Elza Fraga · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2009 00:56Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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