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Das pequenas coisas que nos chocam

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Julia Wiltgen · Rio de Janeiro, RJ
12/5/2008 · 93 · 7
 

“(...) a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu.”
(Chico Buarque)


A relação do homem com a vida tem me intrigado nos últimos tempos. Sendo bem reducionista, descobri três tipos de indivíduos. O primeiro é o apático, para quem tanto faz o que acontece no mundo ou dentro de sua própria casa. O segundo é o espectador, que se limita a observar o seu redor e comentá-lo, com toda a propriedade do mundo, reduzindo tudo a categorias genéricas (assim como estou fazendo agora) e se baseando em cri-cris como Foucault. Finalmente, o terceiro tipo é aquele que vive no mundo. Ele observa e experimenta a realidade, é pragmático e vive com intensidade cada detalhe. Acredito me encaixar nessa categoria.

Bom para quem aspira, um dia, a uma carreira jornalística. Tirar o máximo de cada segundo na Terra. É daí que saem as grandes matérias e as boas histórias em geral. A vida nada mais é que uma sucessão de histórias, sempre interessantes pelo simples fato de serem reais.

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No ônibus, a caminho de Orlando, na Flórida, diz esse amigo pra mim:

- Eu já passei por muita coisa lá em Londres, velho! Conheci muita gente... É muita história!

E começa a despejar todas em cima de mim. Trabalhou com entregas num restaurante chinês em que os cozinheiros não tomavam banho e só trocavam a camisa uma vez por mês. Eles trabalhavam noite e dia pra mandar dinheiro pra família na China. O lugar funcionou até mesmo quando uma chuva inundou a cozinha.

- Pensei que não ia trabalhar naquele dia, mas fui chamado mesmo assim. Quando cheguei, tinha uns caras tirando a lama e os cozinheiros já trabalhando. Uma nojeira!

Aliás, nojeira em restaurante foi o que ele mais contou. Tinha chef que carregava colherzinha para ir provando o que era preparado (da panela para a boca e desta para a panela), cozinheiro que limpava a faca com restos de alimentos picados na borda do latão de lixo... uma di-li-ça!

A mais divertida era a história da vizinha sul-coreana que acordava todos os dias às quatro da manhã para se maquiar antes do trabalho, às sete! Um dia, meu amigo voltava de uma noitada e o cara que morava com ele sugeriu que ele fosse até a cozinha (coletiva), confirmar que era verdade. Ele vai e vê a luz a acesa, e a mulher na frente do espelho.

- Se maquiando, pode? Velho, ela raspava os cílios com gilete... O que eu poderia esperar?

Mas tinha também aquelas histórias que doem até os ossos.

- Tem certas culturas que, não adianta, a gente nunca vai entender ou aceitar. A gente só pode respeitar. Por exemplo, eu trabalhei em casamentos de muçulmanos ricos. Teve um que foi uma das coisas mais impressionantes que eu já vi. Uma puta festa, vários dias de celebração, os caras tinham muito dinheiro. Eu vi a noiva entrar chorando, casar chorando e sair chorando. De soluçar, sem parar. Velho, eu não sou de ter dó das pessoas, mas eu tive dó daquela mulher.

- Ela chorava de tristeza?

- De desespero, por estar sendo obrigada a casar com um desgraçado daquele!

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Eu pego o 432 lotado todos os dias, e fico de pé, perto da porta de saída. Uma vez, enquanto o ônibus passava em frente ao presídio, ouvi uma confusão vinda do meio do corredor. Uma mulher de meia idade sai de lá e vem na minha direção, gritando por cima do ombro:

- Idiota é você!

Daí, resmunga, já perto de mim:

- Deixa eu marcar bem quem ele é. Depois leva um tiro no meio da cara e não sabe por quê.

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Uma de minhas irmãs me contou:

- Tive uma amiga na faculdade que suicidou. Era uma menina toda perfeitinha, a maior nota da Faculdade de Medicina da UFRJ de todos os tempos. Um dia a gente jogou o Jogo da Verdade, e caiu para eu perguntar pra ela. Eu disse: “Você é assim tão certinha e tudo, todo mundo te admira... Me diz uma coisa: você já brigou com seus pais? Já ficou p... da vida com eles ou algo do tipo?” Depois do jogo, ela me disse: “Você foi a única pessoa, até hoje, que me tratou como uma garota normal.” Às vezes a gente ganha as pessoas com observações infantis, de tão simples.

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Outra irmã me disse:

- No colégio, tive uma amiga que teve um tumor no útero com 17 anos e teve que tirá-lo. Ela ainda era virgem. Sabe o que ela fez depois que se recuperou? Deu pro primeiro cara que apareceu. Sabe o que ela me disse? “Me guardei a vida toda para um cara especial. Tive o sonho de ser mãe, tudo bonitinho... Aí, com 17 anos, virgem, fico doente e me arrancam o útero. Quer saber? Agora dane-se.”

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Eu me lembro de quando faleceu o irmão de um amigo meu. O rapaz estava doente há mais de dez anos. De repente, passou mal, foi para o hospital e, em dois dias, se foi.

Eu e outros fomos lá, para dar um apoio moral para esse amigo. Lá pelas tantas, a mãe dele sai por uma porta, de óculos escuros de lentes bem grandes, para tentar disfarçar as lágrimas. Ela segura a porta aberta, e de lá saem uns homens carregando o caixão. Aquela cena durou uma eternidade.

Uma mãe nunca deveria ter que segurar a porta aberta para o caixão do seu filho passar.

Sobre a obra

Crônica

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Julia Wiltgen
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Aepan
 

Belas histórias.
Airton
Estrela-RS

Aepan · Estrela, RS 11/5/2008 02:23
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Cristiano Melo
 

ai ai....que texto belamente cru. um tapinha (eufemismo, viu?) na cara de tantos...descreves três tipos de humanos. Coloca Foucaut no lugar dele, dentro de seu texto. Fala de frases infantis que dizem mais que outras resbucadas de teoria....enfim, trazes a miséria humana, como diz Reich: a tal peste humana, a baila, e baila como uma bailarina em texto límpido e bem escrito. Adorei, votadíssimo e parabéns. Abraços do cerrado.

Cristiano Melo · Brasília, DF 11/5/2008 09:58
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Julia Wiltgen
 

Obrigada, pelos elogios, amigos!
Cristiano, todas histórias reais. Mais jornalismo que literatura. Abs!

Julia Wiltgen · Rio de Janeiro, RJ 11/5/2008 10:32
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EdimoGinot
 

Gostei desses retalhos de realidade.
Drops de fatalidades.
Merecido voto.
Um abraço
EG

EdimoGinot · Curitiba, PR 11/5/2008 13:00
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clara arruda
 

Adorei seu texto.Publicado!
Um grande abraço.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 12/5/2008 05:54
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alcanu
 

Menina, cê é doida que nem eu, fala pelos cotovelos..., gostei, mais que isso, amei o que cê disse, sabia ?
Um beijo, Alcanu

alcanu · São Paulo, SP 13/5/2008 15:51
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ayruman
 

Abrem-se portas e janelas nas paredes de uma casa, e é através de seus espaços Vazios que podemos usa-las. Assim na não Existência reside a utilidade e na Existência, a Posse. (lao-Tsé).
***

Nosso Mundo precisam de Vocês jornalistas. Um grande abraço . jbconrado.

ayruman · Cuiabá, MT 2/6/2008 21:29
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