Outro dia, quando voltava para casa, ouvi uma curiosa declaração no coletivo. A Josileine falava pro Francisnaldo:
- Tipo assim, quando eu fiz 18 anos eu nem tinha celular ainda...
A Josileine deve ter uns 20 anos, no máximo. Curiosa obrigação que se tornou esse aparelho de comunicação móvel nos dias de hoje. Mesmo quem não precisa, tem.
Me lembrei que na época da faculdade - longos anos se passaram desde então - havia uma garota em minha sala de aula que era muito rica. Debora era simpática, meiga e não ostentava sua condição financeira pra lá de privilegiada. Poucos minutos de conversa e ficava claro que ela provinha de uma famÃlia abastada. Mas isso não era intencional, ela simplesmente vivia em outra realidade.
Isso foi no inÃcio da década de 90. Debora já tinha um celular. Foi uma das primeiras pessoas de meu contato próximo - ouso dizer que foi a primeira - que possuÃa um aparelho celular. Na época, celular era realmente coisa de outro mundo - o mundo da Debora e seus familiares - ninguém tinha e poucos realmente sabiam como funcionava.
Mas Debora tinha vergonha do celular. Às vezes precisava ligar para seus pais e utilizava o orelhão no Campus da faculdade. Quando questionávamos, Debora respondia: "É que tenho vergonha de usar assim, na frente de todo mundo". Débora fez parte de um restrito grupo de pessoas que viveram uma época pré-status do celular.
Não demorou muito e os mais descolados - e com algum poder aquisitivo - começaram a circular com o celular pendurado no cinto ou na calça. Celular virou sinal de status, de poder. As pessoas andavam com aquela coisa gigantesca - os primeiros aparelhos eram enormes - pendurada de tal forma que quase vergavam para o lado do dito cujo. Andavam até meio de lado por causa do peso do aparelho.
Daà pra frente ninguém mais segurou a moda. Os aparelhos e os preços foram diminuindo e todos puderam adquirir a engenhoca moderna. Hoje, diferente do tempo da Debora, o absurdo é não ter um aparelho celular, como a Josileine deixa claro em sua frutÃfera conversa com o Francisnaldo.
Lizz. votei porque gostei..victorvapf.abrs
victorvapf · Belo Horizonte, MG 21/9/2007 10:10
Muito Bacana seu texto, Lizz.
E sabe, já conheci alguém assim como Debora também.
Ela fazia o máximo pra esconder o que tinha, como se tivesse vergonha de parecer que estava esnobando.
Adorei seu texto. Tem meu voto.
Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Você conhece a Revista Overmundo? Baixe já no seu iPad ou em formato PDF -- é grátis!
+conheça agora
No Overmixter você encontra samples, vocais e remixes em licenças livres. Confira os mais votados, ou envie seu próprio remix!