Decreto Libertador, Um Conto Cascudiano

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Pedro Monteiro · São Paulo, SP
16/10/2007 · 108 · 15
 

Havia um descontentamento muito grande. Inimizades degeneravam em conseqüências prejudiciais. No reino animal entendia o leão que poderia acabar com esse estado de coisas baixando um decreto. Um decreto que viesse regular a vida – e que acabasse com as competições. Não era possível agüentar mais as reclamações que chegavam de todos os lados. Adotando a medida certamente seria da maior conveniência. E o boato espalhou-se entre os animais que nesse tempo falavam.

Lá um dia estava o galo cuidando de descer do poleiro, onde passara a noite toda dormindo e de vez em vez soltava seu canto de vigilância e de virilidade. A madrugada acabara-se e o dia vinha com o alegre despertar da vida. Nisto quando cogitava de descer para o terreiro, pois era o primeiro que pisava, vindo depois o bando galináceo, foi surpreendido com o tropel de um animal espantado. Olhou e viu a raposa. Pensou que ela iria esconder-se à espera que a noite novamente chegasse. A carreira talvez fosse com esse fim. Mas desde que a raposa avistou o galo subitamente parou e entrou na conversa manhosa.
– Que faz aí, compadre galo? Calado e triste. Desça que quero contar-lhe uma grande novidade de ultima hora. Está tão descansado que decerto ignora o que se passa pelo mundo.
– Eu, estou no meu lugar cuidando de minha gente, livrando-a dos perigos, pois nesse tempo de inimizades se torna indispensável muito jeito e muita habilidade. Eu vou tentando conciliar as coisas e até agora o resultado tem sido bom. - Ora, ora... Estou vendo que você não sabe de nada. Vive afastado do mundo e por isso desconhece que o rei acabou com todas as desafeições existentes. Estamos de pazes feitas. A alegria que anda por onde tenho passado é geral. Muitas festas públicas. E quer saber? É muito justo isso, pois agora podemos viver com segurança.
- Que história é essa, comadre raposa? Onde foi que a senhora colheu essa novidade? Com franqueza, não estou acreditando nisso não. É uma notícia quase impossível.
- Acredite se quiser, mas olhe este papel, é o decreto que acaba com todas as desavenças. Eu vinha na carreira porque queria alcançar o grande vale ainda com as sombras da noite. Por lá ninguém sabe nada, reinando algumas malquerenças terríveis, havendo necessidade de acabar com isso. E então mostrou o decreto ao galo com o fim de convencê-lo a descer e acabar com desconfianças tão injustificadas. Esgotara a dialética para um convencimento total. Nada, de nada serviria. Ambos continuavam em seus lugares; ela embaixo, espiando para cima; ele a olhar a comadre, sem sair do seu canto, sem arredar pé, arisco que só ele mesmo.
- Desça, venha ver. Está com medo? Eu sei ler, mas se você não sabe...
Não pôde terminar a frase porque na sua direção vinha um cachorro na disparada mais danado do mundo. Vinha feito em cima do lugar onde os dois amigos estavam conversando tão cordialmente. Diante daquele vulto insólito e disposto à violência, língua e dentes de fora, a raposa por sua vez disparou, pernas para que te quero, ganhando a capoeira num carreirão desabalado, desses de levantar poeira e fazer nuvem. Atrás seguia o cachorro no seu encalço, pega não pega. É quando o galo se lembra de gritar com toda a força de seus pulmões numa voz estridente: - Comadre raposa, mostre o decreto a ele. Você não disse que as inimizades se acabaram? Mostre o decreto a ele. Pare de correr tanto, mostre o decreto, comadre.

Se é verdade não sei
Assim me contaram
Assim vos contei.

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Extraido do Anedotário público.
Catalogado por: Luís da Câmara Cascudo, em contos Tradicionais do Brasil
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j.alves
 

Muito bom

j.alves · São Paulo, SP 14/10/2007 21:31
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Higor Assis
 

Gostei tbm

Higor Assis · São Paulo, SP 15/10/2007 12:27
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Pedro Monteiro
 

Olá J.alves!
Muito agradecido por sua participação.
Um grande Abraço

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 15/10/2007 23:10
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Pedro Monteiro
 

Oi Higor!
que bom que você gostou.
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 15/10/2007 23:14
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ILZE SOARES
 

Pedro,

Muito legal, adorei. Gostei do " se é verdade não sei..." e pernas pra que te quero. Ela não é nem boba!!!! rsrsrs

Votado.
Um beijo

ILZE SOARES · Salvador, BA 15/10/2007 23:46
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Pedro Monteiro
 

Ilze querida, fico muito feliz por sua participação. No passado quando uma criança chorava querendo dormi, contava-se uma história, hoje em dia, liga-se a Televisão.
O Eduardo Galeano em seu poema Direito de Sonhar, Augura que:
"A TV vai deixar de ser o mais importante membro da família, para ser tratada como um ferro de passar ou uma máquina de lavar roupas.
Beijos

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 16/10/2007 00:20
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Georgina Maria
 

Ô Pedro!
Ainda bem que em teu conto, o trambique não venceu, e que fique a lição.
Beijos

Georgina Maria · São Paulo, SP 10/11/2007 18:58
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Pedro Monteiro
 

Pois é minha querida, as armadilhas estão por toda parte também em nossas vidas, é preciso estármos atentos.
bj

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 11/11/2007 23:45
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Fátima Rocha
 

Olá Pedro!
Que bom , dessa vez a roposa levou a pior.
Parabéns.
Beijos

Fátima Rocha · São Paulo, SP 14/11/2007 08:09
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Fátima Rocha
 

Raposinha esperta heim?
bj

Fátima Rocha · São Paulo, SP 14/11/2007 08:12
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Pedro Monteiro
 

Pois é, Fátima.
Muito esperta...
Beijos

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 26/11/2007 22:19
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Maria de Jesus
 

Olha meu amigo, se o galo não fosse olho-vivo.
vararia refeição da raposa.
Muito engraçado e criativo.

parabéns

Maria de Jesus · São Paulo, SP 23/12/2007 14:09
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pedro paulo
 

Raposinha esperta, hein?
Se o galo cochila, já era!
O munda está cheio de raposas.
Abraços e parabéns, ficou muito bom.

pedro paulo · São Paulo, SP 6/1/2008 22:20
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Pedro Monteiro
 

É verdade Pedro Paulo, ainda bem que o galo estava atento, do contrario, teria dançado.
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 6/1/2008 22:31
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Pedro Monteiro
 

Sim amiga Maria de Jesus.
Em certos momentos precisamos ficarmos atentos pois os espertinhos sempre aparecem querendo tirar proveito.
Abraços

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 20/3/2008 23:47
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