DEFENDENDO A RAPADURA
Assustei-me dia desses num retorno de viagem com a frente de minha casa tomada por uma récua de bestas que um almocreve e seus ajudantes conduziam, daquelas tradicionais que carregaram o Brasil às costas desde a época colonial até bem pouco tempo.
De início pensei tratar-se de um sonho — isso é coisa já fora de moda —, mas não era. Era uma cena bem real: pelo menos 15 burros e mulas, homens suarentos pela longa jornada e um cheiro doce de cana misturado ao suor agridoce dos animais.
No meio do tumulto, meu velho pai, Seu Zé, feliz e satisfeito aos 81 anos, conferia a carga acondicionada em resistentes jacás forrados com folha de bananeira. Sentia-se como nos tempos juvenis em seu indomável Nordeste, transportando dos açudes e cacimbas a água avara com que mitigava a sede de pessoas e animais.
Quando cheguei bem perto para saber a razão de tamanho rebuliço, ouvi já o fim da conversa dele com o chefe dos arrieiros, atestando o contentamento com o carregamento:
— Ótimo, tudo como combinado. Podem entrar.
Ele abriu o portão grande da garagem e sem qualquer cerimônia, como se eu fosse um ser invisível ou um simples intruso que desconhecesse o valor histórico daquela empreitada e merecesse ser expurgado, ignorou-me. Os homens, dois a dois, pegavam os jacás aos braços e sumiam casa adentro.
Voltei-me a seu Zé, que exultante esfregava as mãos, enquanto os homens cumpriam a tarefa de aliviar o lombo das bestas do pesado fardo.
— O que significa isso?
— São rapaduras que encomendei a um conterrâneo de um engenho aqui perto. Não são fabricadas em Pernambuco, mas o know-how é nordestino, genuinamente nordestino, a ponto de o autorizar o uso da identificação de origem: “From Northeast”. De fato, levantando o forro das folhas de bananeira, pude ver o apurado trabalho de empacotamento das rapaduras em caixas de buriti com o sinete marcado em fogo sobre cada uma delas: “Engenho Carnaíba – From Northeast for the World”.
Encabulei-me com o excesso. Comprar uma, duas, três rapaduras, vá lá. Isso era coisa corriqueira que fazíamos semanalmente nas feiras livres. Mas...2700 rapaduras de uma só vez se não fosse exagero, seria loucura.
Passei o braço sobre seus ombros e conduzi-o a um canto, longe das vistas e dos ouvidos do fornecedor das guloseimas:
— O que está acontecendo com o senhor? Não acha que é um exagero tudo isso? Onde vai colocar tanta rapadura?
— Tá bem, eu explico antes que me ache um louco.
— É bom mesmo — eu disse, suando e assustado.
— As rapaduras cabem bem na sua biblioteca entre livros e revistas.
Ali era tudo uma bagunça só, até dei uma organizada durante sua viagem e veja lá que os espaços aumentaram.
Bati a mão na testa, desconsolado.
— Na minha biblioteca? É lá que vai guardar tudo isso?
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Leandro, bela crônica da vida sertaneja.
Profunda que nem garganta seca sob rio de água negrejada. Rs.
Abçs. Benny.
Olá, Benny.
Abcs, amigo. Obrigado pela visita.
Não consegui ler inteira...mas já me diverti muito com a cronica made in Northeast...Vou voltar pra ver se consigo, acho q é meu computador...
abçs.
Oi, Cíntia, vou tentar enviar para vc o tetxo completo.
abcs
JJ
Agradeço a tua dedicação, já li...volto depois...bju
Eh, Leandro!
Você tem sofrido também, hein? E eu que pensava que essas coisas só aconteciam aqui em casa?!
(Rsrsrs...Brincadeira!)
Adorei a crônica...
Abç
Muito boa, JJ, gostei demais... Me deu vontade de contar histórias do meu velho e saudoso pai... um dia eu escrevo... Abçs... Vtdo!
Nydia Bonetti · Campinas, SP 13/9/2007 19:20
Mas eu gostei tanto desse texto falando de rapaduras, Engenho Carnaíba, e guardá-las na biblioteca, então, foi demais...
Só não consegui ler o resto. Afinal, as rapaduras permaneceram ou não na biblioteca?
Abçs de Betha e das terras das rapaduras.
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