Era uma manhã de domingo normal. O sol já dourava as árvores, o tempo corria devegar, as casas ainda fechadas, as senhoras indo à missa e as ruas aproveitando o silêncio.
Era uma manhã normal, até mesmo para Carlos, que iria morrer. Ele acabara de acordar. Como de custume, pôs o pé direito no chão e seguiu para a cozinha. Lá, abriu a janela e aproveitou para espiar os pardais que construíam um ninho no telhado vizinho. “Dia bonito!”, disse ele, ao dar o primeiro gole no leite e ir pegar o jornal jogado na grama.
Carlos sentou-se à mesa com um pedaço de bolo e sua salada de frutas. Comia e ia lendo o jornal, rindo das notícias, às vezes, fechava o rosto, quase sempre por causa do time.
A esposa chegou da missa e foi logo beijando-lhe a face, “bom dia!”, disse ela com o mesmo sorriso das manhãs de domingo – é certo que haviam ocorrido algumas mudanças neste sorriso, afinal, eram trinta e seis anos de casamento. Carlos, sem tirar os olhos do jornal, retornava o “bom dia!” e perguntava sobre a missa.
Nove horas. Era o horário que Carlos ia ao supermercado aos domingos. Perguntava do que a mulher precisaria para o almoço e entrava no carro. No caminho, ia acenando para os conhecidos e acompanhado o noticiário esportivo.
Já em meio as prateleiras, ele seguia tranquilo, sem pressa, pensando qual seria a sobremesa para as filhas. Era sempre assim, desde que elas se casaram e saíram de casa, todos os almoços de domingo tinham a sobremesa especial para as filhas, era como ele gostava de agradá-las.
Era estranho. Mesmo no dia da sua morte, Carlos, insistia em rir, agradar, e discutir, como o fez no caixa do supermecado por causa de um centavo. Mal sabia ele que não iria fazer falta nenhuma.
Após colocar as compras sobre a mesa da cozinha, era de praxe, Carlos abria a geladeira, pegava a cerveja mais gelada e saía rumo ao bar do Clóvis. Era por lá que ficavam os homens antes do almoço de domingo. Quase sempre, o assunto era algum jogo que iria acontecer no final da tarde, vez ou outra, falavam das notícias da noite passada.
Às duas horas em ponto, Carlos já estava em casa. Esta, agora já estava cheia. As filhas de conversa com a mãe, as netinhas brincando no jardim e os genros, na varanda, jogando conversa fora. Sim, o domingo permanecia na mais absoluta normalidade, mesmo para Carlos.
Com muitos risos. Era assim que a conversa seguia na hora do almoço. Carlos contando seus repetidos casos e os genros insistindo nas mesmas risadas para agradar ao sogro. Era incrível, ele nem parecia que iria morrer. A face brilhava, e o almoço acontecia igual a todos os outros.
Passado um tempo após a sobremesa - que por sinal, muito agradou -, as filhas partiram, a mulher dormiu e Carlos foi assistir ao seu jogo. Jogo tenso, que terminou na derrota do seu time. Cena esta que, segundo ele, já se tornara comum.
Por volta das seis horas, como era normal, Carlos saiu em direção à padaria. Enquanto seguia seu rumo, uma dor começou a queimar-lhe no peito e turvar-lhe as vistas. Era hora dele morrer. A dor era um derrame, e por mais estranho que pareça, isto não era normal nas tardes de domingo de Carlos.
Algumas pessoas que passavam pala rua tentaram ajudá-lo. Mas, era tarde, ele já era um cadáver normal atirado na calçada. E enquanto permanecia estendido lá, uma senhora, vizinha de Carlos, acendeu uma vela ao lado do corpo e disse em tom de prece, “dencanse em paz Carlos, amanhã será uma segunda normal”.
Meu contista, no tempo que circo dava dinheiro, conheci alguns
contistas fabulosos, de nenhum tem registros por aí. Quase todos improvisavam para encher o "buraco" deixado na ausência de algum tratante. E eram contos puros, até acho que verdadeiros, somente enfeitados.
Lindo, uma poesia alongada, mansa para satisfazer a quem ler.
abraços, andre
Grande Andre, gostei demais do seu comentário.
Muito me agrada saber que você gostou do conto.
abraços.
Meu vizinho, gosto muito de sua maneira mineira de contar um conto. Já votei. Aproveitando, estou na votação com "De quem é a culpa". Passe lá. Também é um conto. Um abraço.
anamineira · Alvinópolis, MG 16/8/2007 18:21
Pois é, Lucas,
gostei, até me lembra - pelo tema - um poema maravilhoso do Drummond chamado "Desastre Aéreo" ou algo parecido, não sei bem. Parabéns. Votado.
Um abraço.
Lucas.
Acredito, amigo e parceiro, que fui o primeiro a votar nesse teu belo texto. Um conto que fala das realidades da vida, do cotidiano, de uma manhã de domingo cheia de sol, dia que a senhora morte deveria cessar sua caminhada inexorável. Todavia, segue a vida assim mesmo, amigo, com suas misérias, grandezas e tristezas, que sempre passam e repassam no dia seguinte, normal, frio, insensível.
Um belo conto, Lucas. muito bem escrito, inspirado com palavras certeiras.
Abraços,
parceiro e parabéns.
Noélio Mello
Nivaldo parceiro, obrigado, mais uma vez, pela atenção comigo e com meus textos.
Com certeza irei procurar este conto do Drummund. Obrigado pela dica.
abraços
Nivaldo,
Diante deste teu comentário, é impossível não adimira-lo.
Sua atenção e palavras, sempre graciosas, são divinas.
Espero sempre contar com esta amizade overmundana.
abraços parceiro.
Lucas, esse é o segundo conto seu que leio. Vc conta mto bem. Um autêntico narrador.
Parabéns!
Bj
LUCAS,
obrigada pelo convite à leitura desse conto, tão simples, tão real e bonito.
Abçs de Betha.
Ize, obrigado pelo incentivo.
Ainda mais vindo de você, dona de textos mais inteligentes.
beijos
Betha, obrigado você, por ter vindo até aqui.
beijos
Lucas, amigo.
Tenho a honra de te tirar da fila de votação e mandar-te diretamente para a publicação com meu votinho quádruplo... ahahahahahaahaha
Gostei muito do teu texto, sensibilíssimo, de uma beleza que me comoveu!
Estarei sempre "de olho" nos teus escritos, daqui por diante!
Grande abraços, parabéns, escreva mais e mais!
Baduh
Baduh. Valeu!!!!
Me agrada saber que você gostou do texto. Pode deixar que irei escrever mais sim.
beijos
Oi Lucas
Cheguei atrasada mas gostei muito do seu conto.
Votado, amigo.
Bjs
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