depois das queimadas vêm
chuvas como bálsamo
sarar a terra nua
e brota o verde entre tons
bichos tostados
árvores mortas
como a vida da mata
que renasce das cinzas
o amor em mim
- planta em solo frágil -
também rebrota
Uma leitura da foto:
o toco queimado entre tantos detritos compondo uma cama parece um corpo em câmara ardente aos olhos do ignaro homem que faz de conta que nada disso é com ele.
É uma coisa mais ou menos assim, que vc sabe que era muito comum nessa região em eras passadas: o criminoso visitava a vítima dentro do caixão, como se sua presença ali fosse o mais forte álibi a sacramentar a sua inocência.
O rebroto, talvez o filho ao lado do pai sacrificado, é uma esperança de vida; mas pode também ser a próxima vítima.
Abcs
Leandro.
Verdades se sustentam em pilares de idéias, independentemente dos personagens envolvidos no drama real que a sugestiva foto revela.
A cama de cinza em que repousa o toco queimado simbolizando a morte é a mesma que agasalha a vida representada na imagem pelo rebroto da flora: filete frágil, mas muito vivo e verde; como bem convém a quem tem esperança.
Em volta, a paisagem desolada é uma janela aberta tanto para quem está no centro como para quem de longe ou de perto espreita.
A verdade é que a vida não se entrega nunca. Só o tempo trará ao cenário nova roupagem, inclusive com o renascer dos outros seres em volta. São eles que reconstruirão as trilhas por entre a vegetação nova que virá, indicando caminhos a serem seguidos.
Sim. É preciso garantir vida ao futuro.
Sei como é isso que você fala sobre criminoso ir ao velório da vítima, como se a presença sacramentasse inocência. Só acho que não somente em eras passadas isso acontecia. É também muito comum nos tempos atuais. Sobretudo nestes tempos em que os velórios passaram a ser também simbólicos e que os corpos já não precisam estar presentes.
Abraço.
Não gosto de poema associado a imagem. Nesse ponto sou purista. Acho que o texto tem que se sustentar por si. Assim como letra de música, com raríssimas excessões, se você tira a música a letra não se sustenta por si. Talvez por isso os poemas de Drummond, Fernando Pessoa, Mario Quintana e outros tantos não sejam musicáveis. Eles foram feitos para viverem por si.
Assim, acho que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Gosto de fotos, e gosto de poemas, mas não dos dois juntos.
Desculpe. Não é uma crítica. É só para pensar.
Um abraço
Júlio.
Respeito gosto como respeito opinião. E acho que isso faria muita diferença se todos levássemos em consideração este princípio.
Entendo seu comentário. Mas a propósito do que você disse, deixo algumas indagações. Leia o poema como se jamais tivesse pensado em fotografia e responda a você mesmo:
- Desgarrado da imagem, o poema existiria?
- Faria sentido se lido sem o auxílio da fotografia?
Pois é, amigo. Eu entendo que sim.
Sim, uma coisa é uma coisa e outra, outra. Eu gosto de foto, de poema e de foto com poema ou de poema com foto.
Você não curte e eu respeito.
Eu me amarro e tento casá-los com jeito.
Estamos aí.
Um abraço!
Rezende,
Perfeita sincronia entre palavras e foto: puríssimo andor que carrega nosso imaginário.
Este conjunto é perfeito.
De queimada em queimada
O homem destróia si mesmo.
Boa reflexão!
Abçs.
Benny Franklin
Rezende
o amor em mim
- planta em solo frágil -
também rebrota
Bela imagem e bela imagem poética.
Tuas imagens são poemas...
Abraços.
Rezende seu poema é ótimo. Tanto que ele até prescinde da foto, isso que eu quis dizer e talvez não tenha conseguido.
Repetindo: a imagem é algo tão maravilhoso que ela também tem de falar por si. Ela admite quanto muito um breve comentário como um epigrama, não mais que isso.
Mas nada a ver. É só uma viagem minha.
Um abraço.
Júlio.
Entendi bem seu comentário. Também acho que ambos (foto e texto) devem falar por si. Mas entendo que juntos podem falar ainda mais.
Um detalhe neste caso: o poema surgiu bem antes da imagem. A foto foi feita depois e escolhida entre outras para ilustrar o poema aqui no Overmundo. Curto muito unir as duas coisas: foto e poema compondo a página.
Edito um blog literário, o BAR DOS BARDOS, em que me valho muito desta combinação. Dê uma olhada lá.
Estou trabalhando num livro a ser lançado brevemente em que o tema central é "versos para fotos e fotos para versos". Trata-se de uma publicação coletiva, envolvendo inicialmente cinco autores: eu, Gilson Cavalcante, Fernando Abreu, Celso Borges e Lúcia Santos, velhos parceiros que se tornaram amigos do peito.
Benny e Nydia.
Bom saber que vocês gostaram e que também estão acompanhando esta colaboração. Também indico a vocês o BAR DOS BARDOS. Lá a idéia é publicar coletivamente. Colaborações são sempre bem vindas.
Abraços!
Salve, Antonio!
Sou contra as queimadas porque vivo num ecosistema muito frágil e isso era prática comum aqui. Resultado de tudo isso? Só 10% de nosso território - Pantanal - é ocupado por fauna e flora "originais", o resto é um fragmentado que o homem fez ao destruir. Tudo se renova? Sim, mas em outras formas e o planeta já está tentando expurgar o que lhe consome, o homem.
Desculpe essa reflexão, meio desabafo, mas a natureza devia fazer mais sentido a nós todos...
A quanto fogo resistirá a vida?
E o amor, fogo que nunca se apaga, a arder, arder...
Belíssimo!
beijos, feliz natal.
Querido Antonio:
O Amor (re)surgirá sempre mais forte e mais belo.
O Amor será o bálsamo que fará sarar.
Toda e qualquer dor curar
A harmonia será vida!
O belo de ti chegou
Florescer irá!
Beijos_Meus*
*
Nota: Avise do livro!
Salve, Rangel! Pensando bem, todo o nosso país virou um descampado. Mata é coisa cada vez mais rara. Só se fala em progresso e desenvolvimento. O custo disso é destruição, muita destruição. Dá até dor em pensar.
Sim, Saramar. Haja resistência! Quem conhece Goiás, sobretudo a região de Cerrados, sabe que o fogo é praga de se alastra e dovora espécies vegetais e animais. Isto sem falarmos de outro fogo escroto, que devasta inclusive as áreas públicas nas beiras das rodovias, exterminando de vez qualquer possibilidade de resistência por parte das espécies nativas. Falo das lavouras, principalmente de soja. O agronegócio parece não ter alma. Precisa ser repensado.
Um beijo, Lili-Beth. Avisarei quando o livro for publicado.
Salve, Antonio!
Putz, soube de uma notícia arrasadora!
Uma fazenda aqui da região de Anastácio e Aquidauana - portal do Pantanal - vai botar abaixo 15 mil hectares de mata nativa.
E sabe pra que?
Pra queimar e fazer carvão.
E sabe mais?
A família proprietária é abastadíssima e não precisa desse dinheiro sujo.
Vai entender o pensamento humano...
Humano?
Que pena, Rangel. Notícias assim me deixam triste. O ser humano é o "bicho" mais complicado que conheço. Sua racionalidade é uma falácia. Antes fóssemos seres a passar por aqui deixando outros rastros. Lamentável isso que você nos revela aqui.
Antonio Rezende · Palmas, TO 11/1/2008 08:35Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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