Desencanto

Desenho de Andocides Lemos
1
Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ
6/5/2007 · 117 · 19
 



Severino era gente. Tinha nome.
Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas.
Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos.
Tinha amor. Tinha raiva e ódio.
Tinha tudo de gente.
Severino era gente.

O seu corpo torvo
Turvo estorvo
Como qualquer corpo
Estendido na calçada às 11 horas da noite
Sob as marquises de néon das lâmpadas
Acusava as cicatrizes do couro
E a engenharia dos ossos tiritando sob a pele
Sugeria a grotesca forma de um

S

Seu nome não era Marco
nem era Antônio nem Manoel
Seu nome era apenas homem
Nome sem significado aparente
Ferreiro das noites forjava sua fome
Sete dias na semana
Se alimentando de nada
Em sua marmita de lata
arroz feijão e loucura

Severino é bonito?
Talvez nem apenas...
Certamente é nordestino

Obreiro?
Porteiro de edifício?
Roceiro?
Ninguém soube ou saberia:
Mulher grávida
9 filhos 9 insônias 9 choros 9 fomes
E uma só agonia...
De não ser ferreiro ou marceneiro
De não ser porteiro nem tampouco roceiro
De nem saber-se mais Severino
Maranhense
Operário em desespero
Quase nada
Nordestino!

Severino Severino
Com suas mãos calejadas
Pelo gesto e pelo ato sem sequer um desacato
Só a camisa barata
E os olhos embotados
(de sonhos)
Apenas o tempo a morte
(a fábrica)
E esta vida provisória
Que de vida talvez só reste
A expectativa da morte

Severino Severino
Dormemorre na calçada
Com mil falas esculpidas
Nas cáries do que foi dente
Com rugas dúvidas martírios
Na cara que já foi rosto
E no peito tanta dor
Pra tão pouco Severino
Que em resumo o que soma?
Soma o preço de sua vida
Ao preço do desencanto de Severino José
E o preço das injustiças
Ao preço que vale ser um Severino qualquer

Severino era gente. Tinha nome.
Tinha boca. Tinha fome. Tinha orelhas.
Tinha nariz. Tinha olhos. Tinha mãos.
Tinha amor. Tinha raiva e ódio.
Tinha tudo de gente.
Só não tinha trabalho.
Severino era gente?

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informações

Autoria
Nivaldo Lemos
Ficha técnica
Poesia anos 70.
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Doido
 

Grande Nivais,
Gostei... como sempre, muito bem escrito. O seu final está bem encaixado. Tras a nós uma reflexão: de que um homem sem trabalho ou emprego é um cidadão? É um homem? É normal? É gente? Meus parábens, gostei, você já está na hora de públicar seus contos e poesias. Pelo menos um comprador você já teria. Uma frase bonita e importante de um intelectual que eu escutei, (ou eu li), nao me lembro. Que até o seu nome fugiu de minha mente nesse minuto, me veio: "basta só uma única pessoa ler e ela refletir sobre o que você escreveu, que as suas palavras já fizeram o seu trabalho e a diferença.
Qualquer coisa da uma revisada aí no texto.
Valeu Grande Nivais.

G.F

Doido · Rio de Janeiro, RJ 2/5/2007 18:45
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Nivaldo Lemos
 

Obrigado, Gustavo. Mas espero que você não seja meu único leitor, né? rsrsrsrsr. Valeu.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 3/5/2007 10:57
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Cida Almeida
 

Com certeza você tem vários leitores e admiradores. Estou entre eles. Só me resta abusar dos adjetivos cada vez que leio você. Magnifícia poesia! É sempre bom ler você e ser cutucada por uma escrita sempre renovada, na forma, no conteúdo, na expressividade... Assim, vou lendo e aprendendo.

Abraços.

Cida Almeida · Goiânia, GO 4/5/2007 12:24
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Nivaldo Lemos
 

Puxa, Cida, obrigado. Vindo de você - poetisa maior do Overmundo -, só posso receber o elogio como um enlevo estimulante. Muito obrigado. Um abração.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 4/5/2007 14:10
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Celio Soares Jr
 

grandioso.... profundo..... fantástico!
abraços!

Celio Soares Jr · Pelotas, RS 4/5/2007 22:21
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Nivaldo Lemos
 

Obrigado, Célo. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 5/5/2007 10:51
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Nivaldo Lemos
 

Desculpe-me a erro em seu nome, Célio. Sou péssimo em digitação.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 5/5/2007 10:53
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Marluce Freire Nascasbez
 

Nivaldo Lemos,

Excelente trabalho! Fizeste-me lembrar em teus versos Joáo Cabral de Mello Neto / Morte e vida Severina

Marluce

Marluce Freire Nascasbez · Carnaíba, PE 5/5/2007 14:21
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Bruna Célia
 

adorei!

Bruna Célia · Goiânia, GO 5/5/2007 15:31
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Nivaldo Lemos
 

Marluce e Bruna, obrigadão.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 5/5/2007 16:20
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Saramar
 

Magnífico!
Que sensibilidade!

beijo

Saramar · Goiânia, GO 6/5/2007 15:22
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carlos magno
 

Olha Nivaldo, eu achei este poema teu, um expetáculo maravilhoso.
Que beleza de trabalho! Parabéns.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2007 20:56
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carlos magno
 

Voltei para dizer que este desenho do Andocides também merece o meu aplauso pela expressão magnífica que ele conseguiu passar retratando o Severino. Parabéns.
Carlos Magno.

carlos magno · Rio de Janeiro, RJ 6/5/2007 21:01
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Pedro Monteiro
 

Nivaldo!
Através desta bela obra, estamos sendo convidados à uma reflexão sobre a realidade do nosso tempo.
É o capitalismo se impondo ao homem, confundindo sua mente, reduzindo o, à coisa.
Grande Abraço.

Pedro Monteiro · São Paulo, SP 6/5/2007 23:00
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Nivaldo Lemos
 

Saramar, Carlos Magno e Pedro,

muito obrigado mesmo pelas palavras. E que bom que o poema o convida a uma reflexão, Pedro. O objetivo é este.

Um forte abraço em cada um.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 7/5/2007 12:47
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Francinne Amarante
 

Bravo.

Francinne Amarante · Brasília, DF 8/5/2007 20:58
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Poeta Jorge Henrique
 

Minhas reverências, Nivaldo!
Um abraço.

Poeta Jorge Henrique · Nossa Senhora da Glória, SE 24/5/2007 12:29
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Nivaldo Lemos
 

Francine e Poeta Jorge Henrique,
muito obrigado. Um abraço.

Nivaldo Lemos · Rio de Janeiro, RJ 24/5/2007 15:22
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Cláudia Campello
 

era gente! é que nos conveses e labirintos do poder
ratos roem a chance de dignidade.....
nós outros apenas choramos sua sina e nos acovardamos diante da poli-titica toda.

ahhhhhhhh esse poema mexeu comigo!

bjsssssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 13/5/2010 23:27
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