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Despedida ( últimos dos "Pampianos" de Alma Welt)

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Guilherme de Faria · São Paulo, SP
3/3/2011 · 2 · 0
 

ESTE É O ÚLTIMO SONETO QUE ALMA WELT ESCREVEU, feito nas vésperas de sua morte no dia 20/01/2007 . Mas notem que a numeração (1.001) se refere tão somente à série dos Sonetos Pampianos, pois ao todo, contando todas as outras séries, os sonetos da Alma utrapassam os 2.000 (!!).

A Carruagem (de Alma Welt)
1.001

Um piano toca no salão!
Ah! e não fui eu que coloquei
Um CD ou um velho long play,
Talvez seja o Vati, e então...

Ele voltou! Sim, ele me quer!
Vou ao seu encontro e sou mulher!
Sim, ele vai ver agora sou
Pelo menos a guria que sonhou.

Olha, Vati, há muito não me vias,
Mas de verso em verso muito errei
Pelo mundo, a viajante que querias...

E agora, com toda esta bagagem,
Leva-me contigo que eu irei
Quietinha, assim, na carruagem!

19/01/2007


Despedida (de Alma Welt)
ESTE É O PENÚLTIMO DOS SONETOS DA FAMOSA SÉRIE AUTOBIOGRÁFICA DOS SONETOS PAMPIANOS DA ALMA, DA POETISA ALMA WELT 1972-2007 (O último é o famoso A CARRUAGEM, de n° 1.001

Despedida (de Alma Welt)
1.000

Está na hora, vou me despedindo...
Foi uma longa jornada toda em verso.
Cantei a vida, o bom e o lindo
E por algum soneto controverso

Não pedirei desculpas a vocês
Pois meu coração foi sempre puro
E não quis chocar nem o burguês
Nem bater cabeça contra o muro

Das opiniões e dos costumes
Pois quem sou pra amaciar o duro couro
Que não queira passar pelos curtumes?

A alma abri e ela mesma eu sou,
Preferi distribuir-me toda em ouro
Que as pérolas meu orgulho não deixou...

18/01/2007



Auto-Retrato (de Alma Welt)

Toda uma vida em mil sonetos...
Mais hum pra ser exata em minhas contas.
Posso me orgulhar dos meus quartetos
E algumas chaves, se o ouro me descontas

Se não cheguem a ser fechos dourados,
Também algumas pobres rimas falsas
Sem contar os lamentáveis pés quebrados
Com que tenho dançado algumas valsas.

No final, o conjunto é até bem posto
Conquanto discutível no detalhe
E mesmo anacrônico no gosto.

Mas quê importa? Cantei-me para mim,
É risível, eu sei, nem bem me calhe
Auto-retrato tão sincero assim...

17/01/2007


Encontro com a Moira (de Alma Welt)

Encontrei a Moira em meu pomar
E ela confirmou a minha data.
Não deu tempo pra se resignar
Àquela que o tempo nunca mata...

Não perdi uma só das belas horas
Que me foram dadas nesta vida
Pois amei uma a uma estas senhoras
Que servem o Tempo sem medida

Que no entanto medida nos impõe,
O que me parece muito injusto
Da parte de quem tanto dispõe.

Mas não vou no final ironizar
Que até a ironia tem um custo,
É uma forma de nos desperdiçar...

17/01/2007



Folhas Mortas (de Alma Welt)

As folhas mortas pelo solo do jardim,
Vejo-as transformarem se em adubo.
Não farei disso comparações em mim,
Que a paciência dos outros não perturbo.

Nada mais corriqueiro e aborrecido
Que metáforas, e mais, edificantes!
Se o soneto é o meu caminho preferido
Não farei dele trilha de elefantes

Repisando com patas adiposas...
Cá estou a fazer também imagens,
Que as tinha descartado, como às rosas.

Bah!Do meu jardim de folhas mortas
Vim parar num deserto de miragens,
Perdi o rumo evitando as linhas tortas...

(sem data)



O Pequeno Teatro do Mundo (de Alma Welt)
(lembrando Der Mond, de Carl Orff 1895-1982)

Fora da Poesia não há vida
Que seja apreciável e condigna.
É claro que há aquela sórdida,
Sem contar com a versão malígna...

Mas me refiro à que cabe no Sonho
E tem até seu teatrinho ao luar.
Esta, a verdadeira, que suponho,
Não distingue o chão do pleno ar.

Eu não queria viver se não houvesse
Uma saída lateral neste teatro
E se entrar por ela não pudesse.

Pois no Pequeno Teatro deste Mundo
Prefiro estar no palco até de quatro,
Ou então na coxia, mais ao fundo...

(sem data)

Nota

"O Pequeno Teatro do Mundo", este o título com que no Brasil foi apresentada a opereta Der Mond (A Lua), do compositor alemão Carl Orff (autor da célebre cantata Carmina Burana) nos anos 90 em São Paulo.( Lucia Welt)

"Embora a associação de Carl Orff com o nazismo nunca tenha sido comprovada, Carmina Burana tornou-se muito popular na Alemanha nazista depois de sua apresentação na cidade de Frankfurt, em 1937. Orff era amigo de Kurt Huber, um dos fundadores do movimento de resistência Die Weiße Rose (em alemão, "A rosa branca"), condenado à morte pelo Volksgerichtshof e executado pelos nazistas em 1943. Depois da Segunda Guerra Mundial, Orff alegou ter sido membro do grupo, tendo-se envolvido na resistência, mas não há evidências disso". (Wikipedia)



Poentes Dourados (de Alma Welt)

Os poentes dourados do meu pampa
Me fizeram aqui permanecer
E ir preparando a minha campa
Para a esta grande troupe pertencer.

Fiz meu balcão ou coxia na varanda,
Tiete ou camareira, não importa,
Mas olhando o que o Diretor comanda
Todo dia em frente à minha porta

Dizendo: "Acomoda-te, é hora!
Dirijo luzes, não espera que eu dance
Para ti que pouco reza e muito chora."

"Sei que sabes dar valor à grande Arte.
Escreveste o teu próprio romance
Aprecia agora o show que venho dar-te."

(sem data)



A Festa (de Alma Welt)

Não levantei o punho contra o céu
Por saber meu prazo já tão curto
Ao tirar dos olhos denso véu
Sem a frágil mente entrar em surto.

Mas se muito chorei já não o faço
E os dias que me restam desafio
Com as boas rimas e o compasso
Conhecidos canais do desvario

Que ora ponho a serviço de mim mesma
Como meio de dobrar o que me resta,
Dupla vida para a pródiga abantesma

Que há de para sempre aqui ficar
Entre os que jamais deixam a festa
Do casarão e da vinha em pleno ar...

(sem data)


A Visita de Lady Bones (de Alma Welt)

Pressinto que está chegando ao fim
Conquanto ainda tão cheia de vida.
Matilde diz que isso está em mim,
Que vivo pensando em sua partida,

Pois a nossa visitante, Lady Bones,
Gringa velha que hospedamos há um mês
Não é dada a flautas nem trobones,
Mas afável e gentil como uma rês.

Quanto a mim, considero bem sinistra
A insistência em ir comigo ao poço
E como sua dieta administra,

Sem almoço, nem café nem chimarrão,
Não admira que esteja pele e osso
E que ao recolher-se acene a mão...

03/01/2007



Macunaíma de saias (de Alma Welt)

Ninguém me diga que nem tudo revelei
E que fiz do meu soneto promoção
De mim, do pouco ou muito que pensei
Ou do meu jeito de tomar o chimarrão,

Quero dizer... do meu modo de vida,
Aliás considerado extravagante
Com esta tendência assumida
Ao nudismo e à poesia divagante.

Já contei até minha internação
Que terminou com fuga pela estrada
E quase estupro por chofer de caminhão.

Bem... sou afinal anti-heroína,
Minha poesia não serviu pra quase nada,
De saias fui talvez... Macunaíma!

(sem data)



O Soneto (de Alma Welt)

Do soneto, inesgotável como a música
Que infinitas melodias nos permite,
Menos me instiga a face lúdica
Que a de uma dor que não se evite

Pois se reprimo o verso que me venha,
Enlouqueço logo com a insistência
Com que ele exige que o mantenha
Num soneto de amor, de preferência.

Mas o melhor verso é o que aparece
Quando nem mesmo amando estou,
Coisa que difícil me parece,

Pois sonhadora do presente e do real,
Vim ao mundo, versejei, daqui me vou
Como se nunca tivesse visto o mal...

27/11/2006



O Que Deixamos (de Alma Welt)

De alguma forma passemos o que fomos,
E o que sabemos e onde estamos,
A cadeia não rompamos e os pomos
Não deixemos apodrecer nos ramos

Ou tombados no solo de mil larvas,
Pois não viemos aqui sem condições,
Sem cobrança de atitudes parvas
Ou um questionamento das ações

Que foram ou que são o nosso rastro
Seguido pelos que depois virão
E no vinhedo erguerão o nosso mastro...

Pois com condescendência ou com desgosto,
Ao razoável vinho ou feio mosto,
A cabeça de algum modo abanarão.

(sem data)


Questionando o Tigre (de Alma Welt)

O verso, disse Rilke, é experiência.
E levei isso tanto ao pé da letra
Que fiz do soneto minha vivência,
Nele o bebê, a parida e o obstetra.

Então sou o que escrevo, a minha obra.
Construí-me, em rimas me moldei,
Não existo fora, não me cobra,
Que a ti, que mais me exiges, já me dei.

Achas pouco milhares de sonetos
(que os preferi ao verso livre)
Que descrevem mundos nos quartetos

E nos tercetos os pondera?
Se com Blake não questionei o Tigre,
Não sei mais o que sou... e quem me dera!

(sem data)


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