DEU... "JACARÉ" !

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"NATO" AZEVEDO · Ananindeua, PA
19/9/2019 · 0 · 0
 

DEU... "JACARÉ" !
"Oh, jardineira, porque estás
tão triste, / mas o que foi
que te aconteceu" ?!
(marchinha de carnaval 1939)

Clarisse e Camélia eram amigas desde pequeninas, amigas de dormir uma na casa da outra, de "conchinha", dividindo o sanduíche e o suco da merendeira e "passando cola" nas provas. Cresceram juntas,c namoravam juntas (epa!), digo, Camélia "segurava vela" pra Clarisse, garotos fazendo fila "pra sair" (o termo "FICAR" ainda não existia, eram os anos 60) com a "gostosona" da Zona Norte, a princesa da Pavuna, apesar do narigão que incomodava o menino na hora dos beijos no escurinho do cinema. Camélia ficava "com as sobras", "tirava casquinha" do namorado "da hora" quando Clarisse ía "no reservado", no banheiro e de propósito lá se demorava. Ao garoto, sorriso amarelo, só restava dar atenção ao "jaburu", à "baranga", quase "tribufu", feia de doer.. pelo menos pra garotada ! Como eram muito amigas, "dar um chega pra lá" na feiosa, na "baleinha", era perder a namorada, com certeza.
Clarisse sonhava ser bailarina de "boite", talvez cantora, embora com a voz fanhosa -- por causa do nariz ? __ mas frequentava o bloco carnavalesco do bairro, para aprender com as "pastoras" e passistas o requebrado que faz os homens arregalarem os olhos e terem taquicardia. Praticara com um tio rudimentos de jardinagem e passou a cuidar das plantas do hall dos edifícios nobres da Pavuna e de bairros vizinhos, "torrando a grana" conquistada com sacrifício em aulas de sapateado e dança, aprimorando o rebolado indecente que alavancaria sua carreira nos "dançarás" e "inferninhos" de toda aquela imensa região. Mas, isso foi bem mais tarde ! No quintal da casa de Camélia havia bela jaqueira onde as 2, já moças, se aboletavam nos galhos à tardinha, dividindo sonhos, planejando metas e se admirando sempre mais. Porém, Camélia estava infeliz, não namorara ninguém durante o período escolar e, com o tempo passando, seu coração estava mais árido do que o Atacama, mais frio que o Himalaia. Havia bem mais do amizade entre as duas, contudo nenhuma queria dar o primeiro passo, romper barreiras, quebrar tabus. Certa tarde, Clarisse descera da árvore para conversar coma a mãe de Camélia e, ao voltar, encontrou a amiga no chão, inerte, filete de sangue saindo do canto da boca. Clarisse abraçou-a, aconchegando a cabeça dela aos seus peitões e beijando-a entre lágrimas. Camélia sorriu tristemente, deu 2 suspiros e morreu !
O grito de desespero de Clarisse atraiu a mãe e vizinhos, enquanto a moça desmaiava. Passou 3 dias na cama, com febre alta, sem comer nem beber nada, sem dizer 1 palavra sequer. Sabia no íntimo que sua amada amiga preferia a morte a uma vida sem amor, sem amar, sem ser amada. Passado algum tempo resolveu dedicar-se inteiramente à dança... o Funk despontava na "Baixada" fluminense causando furor, dança lasciva e sugestiva e ela adaptou o que pôde ao seu estilo particular, que já fazia sucesso em várias "boites" de renome, muito bem paga como a atração número 1 das casas de show. Sonhando cantar com Roberto Carlos -- iniciando carreira -- algum dia, começou de baixo... fazendo parcerias com "s´sias" e imitadores do Rei, com nomes parecidos: Gilberto Carlos, José Roberto, Roberto Alberto, enfim, um monte deles !
"Pulando de galho em galho", aliás, de "boite em boite", findou no "Cabaret da Ruanita", lupanar famosos na "fronteira" com o trecho nobre da Zona Norte, Madureira, Méier, Engenho de Dentro. Lá conheceu a dona, morena "mignon" de traços nipônicos. Encantaram-se uma pela outra... Clarisse vinha bem desiludida com os homens desde que seu namorado anterior a irritara profundamente. Rick Adams, nascido americano, loiro de olhos azuis, veio pequeno para o Brasil e, aqui, se achava "a última bolacha do pacote". Mantinha um caderninho com o nome das conquistadas e um F após alguns deles. Tentando consolá-la da recente perda da amiga querida, saiu-se com a infeliz idéia de declamar trecho de marchinha carnavalesca muito em voga naquela época:
-- "Oh, meu amor, não fique triste, / que este Mundo é todo teu... / tu és muito mais bonita / que a Camélia, que morreu" !
Levou um tapa na cara e foi enxotado porta a fora:
-- "Respeite a minha dor, "verme"... e fora da minha casa, nunca mais quero te ver" !
Depois disso, tendo na mente o eterno bordão "homem não presta", a mocinha dedicou-se somente aos shows de "Clarisse, a Gata", cada vez mais requisitados e frequentados. Naquele momento a dona do "bordel", digo, "Cabaret" lhe propoz contrato de exclusividade e novo nome, aquele parecia de freira. Clarisse também assistira o filme mexicano no qual a esposa do "bandolero", mulher-macho poderosa e temida, mandava mais que o chefe. Pendurara "pelo saco" uma espécie de "Latino" que a chamara de vagabunda, "hija de una perra". Inesquecível a cena, Camélia e Clarisse riram por vários dias !
Da conversa inicial ao contrato final foi "um pulo"... virou cartaz em tamanho natural na frente do rendezvous", dormindo num dos quartinhos reservados aos encontros amorosos de clientes endinheirados. A fama de seu "redondinho 4 por 8" cruzou o Rio inteiro e turistas de vários países foram conhecer a "novidade". Rebatizada "JUANITTA", aproximou-se sempre mais da proprietária, amanheciam no quarto em intermináveis conversas e findaram na cama, cobrindo carências mútuas com beijos "de língua". Daí para o "casamento" foi "um triz", claro que não numa igreja, sua união era pecado mortal e condenadíssima. Bem dizia o povão: "homem com homem dá lobisomem... mulher com mulher dá jacaré" !
Fizeram reunião íntima numa praia deserta, num domingo de tardinha, para alguns poucos amigos, vestidas de noiva e com direito a beijo gay registrado numa "Polaroid", que nem precisava revelar, a foto saía na hora. Mas, quiz o Destino ingrato que a imagem das "enrustidas", das "delicadas", das "frescas" enfim, fosse parar na capa do jornal mais "nojento" do Rio daquela época, anos 70, o semanário "7 DIAS", aquele que "se espremesse saía sangue", segundo o populacho vil. E o narigão da Clarisse a tornava reconhecível por onde andasse.
"UNIÃO DE TRANSVIADAS ESTREMECE O RIO", trovejava o jornal, alheio aos dramas que desencadearia. A plebe ignara precisava de "palpites" para fazer "uma fézinha" no "Jogo do Bicho", a contravenção penal mais praticada (e procurada) do Brasil e, para isso estava atenta ao menor "sinal": sonhos, placa de carros ou avião envolvidos em desastre, a borboleta que passava, gatos, cavalos, cachorros ou o infalível (?!) palito de fósforo apagado na chícara de chá, café era muito caro, sempre foi. Minha mãe usou a prática por mais de 20 anos e jamais acertou coisa alguma, a família Azevedo é de "pé-frio". A manchete horrenda deu o mote que precisavam e, lembrando o "ditado" popular, "carregaram" as apostas no JACARÉ. Hoje o moderno "Jogo do Bicho" tem celulares e computadores ágeis e pode monitorar as apostas minuto a minuto, além de pagarem menos os bichos mais escolhidos. É de se supor que manipulem os sorteios, por uma questão de lógica ! Mas naquela época, sem contato algum entre sí, "VALIA O ESCRITO", ou seja, o bicheiro pagava realmente a aposta feita... vai daí, "quebrava", quando esta era muito alta. Para evitar, "descarregava" aquela aposta "de risco" em cima do "chefão", o dono da sigla.
O Rio inteiro aposto no anfíbio... triste sina, deu JACARÉ "na cabeça" e no terceiro prêmio, no grupo (dezena) e centena, um "desastre" jamais visto. Entretanto, até a hora do sorteio as "nubentes" nuas em pêlo estariam dormindo, não fosse o fiel jornaleiro quase derrubar a porta da "boite" para acordá-las. Veio a "japonesa", só com roupão, irritada com a audácia do mancebo:
-- "Dona Luísa, precisas ver isso já" ", e lhe "esfregou na cara" a manchete pavorosa. Luísa cambaleou, encostou-se á porta para não cair. Estavam perdidas, era um dilúvio que as afogaria... acordou Clarisse, pegaram algumas roupas, todo o dinheiro do cofre e fugiram para uma casinhola nos confins de Petrópolis, pagando regiamente ao "chauffeur do carro de praça" (traduzindo, motorista de táxi) para manter oculto o novo endereço das "perdidas", das desavergonhadas. Era o fim da carreira de dançarina de "Juanitta", agora fadada a ser dona de casa, "prendas domésticas" na época. Dias depois, fazendo compras no mercado central da cidade de peruca, óculos rayban e chapelão, foi abordada por sujeito alto, bigodinho fino e leve cicatriz no rosto. Viu-se perdida, os bicheiros arruinados estavam pagando bom preço pela cabeça (e o corpo) das duas. Ameaçou gritar mas foi interrompida, com sinal de silêncio feito pelo homem, discreto sotaque espanhol:
-- "Sou amigo, senhorita... seu nome chegou ao México, querem conhecê-la lá, meu patrão paga o que pedires por uma "tournèe" sua de 3 meses. É pegar ou largar" !
Deus não abandona os seus, estavam salvas ! Êle as encontrou do mesmo jeito que capanga dos bicheiros fariam... "grampeando" o telefone da mãe dela, um detetive famoso, Bechara Jack, fez isso em minutos
-- "Depois, foi só ligar para vocês e oferecer pizza grátis. Era eu, precisava ver se moravam mesmo no tal endereço dado, quando aceitaram a "promoção" !.
As 2 corriam perigo, precisavam fugir e êle providenciara documentos falsos, bastava lhes acrescentar fotos, todavia aquele narigão denunciava Clarisse em todo lugar. Um "procedimento estético" feito às pressas com o doutor Ivo Pitanguy sanou o problema e elas viajaram felizes e aliviadas, para viverem de amor & dança na terra de Pancho Villa, de Jerônimo e de Frida Kahlo, sua musa e modêlo, exemplo maior de mulher empoderada.
No Brasil teve bicheiro vendendo casa e carro para honrar o "Vale o Escrito" dos bilhetes de aposta e outros, antes milionários, viraram "camelôs", comerciando "cachorro-quente" para sobreviver. A polícia civil foi a mais prejudicada: acostumada "às gorjetas" dos bicheiros endinheirados para ignorá-los, agora tinham que prendê-los, sob protesto do povo !
"NATO" AZEVEDO (em 13-14/setembro 2019, 5h

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"NATO" AZEVEDO

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