DIÁLOGO COM AS AGENTES AMBIENTAIS
À minha porta duas delas estavam. Vestiam o uniforme da prefeitura e queriam conversar com o proprietário da casa. Convidei-as a entrar, mas permaneceram ainda ao portão, um pé dentro e o outro fora. Cada qual trazendo à mão uma prancheta e um lápis.
— Sou eu mesmo — disse.
A que estava mais avançada, mais baixinha e gorda, lançou-me um olhar desconfiado de quem está comprando gato por lebre. Trocaram também entre si o mesmo olhar intrigado. Sorri enquanto a baixinha, estática ao portão, persistia na dúvida. Era uma suspeita que se justificava. Eram 10 horas da manhã de um dia de trabalho e eu em vez de estar lá, estava em casa, suado, vestindo camiseta e bermudão, os pés metidos numa velha chinela e com as mãos sujas da terra do pequeno jardim interno. Podia muito bem ser o jardineiro querendo passar-se pelo patrão.
Essas coisas acontecem, bem sei. E acredito que é uma situação com a qual elas se deparam frequentemente nas muitas visitas que fazem por dia em residências.
— Preciso identificar-me com um documento? — brinquei.
As duas voltaram à realidade e se desculparam.
— Não...não. Imagina.
A moça que se mantivera até então calada, um pouco mais alta e magra, iniciou o questionário, enquanto nos dirigíamos ao quintal nos fundos da casa.
— Tem cachorro em casa?
— Só eu, conforme classificação de minha mulher.
Sorriram.
— E gato, há por aqui — perguntou a outra.
— Bem, só eu mesmo. É o que dizem as mulheres dos amigos.
A magra novamente:
— E rato? Tem muito?
— Olha, para dizer a verdade até que não. Ultimamente recebo muito pouca visita de políticos. Deve ser por isso.
Elas riram divertidamente. A baixinha comentou com a parceira:
— Você pensava que ele diria que era o rato, aposto.
A moça alta concordou e largou na bucha, entre risos contidos, não com o intuito de me ofender, acredito ter sido um elogio sincero:
— O senhor é engraçado. Parece o palhaço do circo lá do bairro.
Pensei de imediato: “tô agradando, mas, poxa, não precisava tanto da parte dela.” Por isso, mudei a direção da conversa.
— Vocês andam atrás do mosquito da dengue?
— Isso mesmo, senhor.
— Vocês são agentes ambientais e em vez de protegê-lo, querem-no eliminar?
— Somos agentes ambientais sim. Mas não se preocupe, ele não vai desaparecer. O nosso trabalho combate apenas a superpopulação deles. O mosquitinho vai continuar existindo, mas sob controle não oferecerá riscos à nossa saúde.
— Você fala bem. Tá com o discurso afiado. Parece político — brinquei com a gordinha.
— Deus me livre de ser rato — confessou abafando o riso.
Eu continuei brincando enquanto a moça mais alta anotava a data da visita na ficha presa à vigota da área de serviço.
— Sabe, tenho medo de uma outra visita de vocês.
— E por quê? — perguntou, finalizando a anotação.
— Disseram que controlam a superpopulação. Sei lá se da próxima vez pensarão que faço parte do excesso de humanos que põem em risco a vida do planeta e vêm aqui para me eliminar.
— Não se preocupe, só trabalhamos para o bem da sua saúde — justificaram-se, despedindo-se à saída.
Continuei com o portão aberto enquanto se afastavam e comentavam a visita. Diziam:
— Ele tem uma mente fértil — falou a baixinha.
— Para ser assim, aposto que é escritor. Só pode.
Leandro,
Sua crônica além de alarme contra a imundície institucionalizada, é também uma divertida conversa de roda.
Abraços, Caio.
jjLeandro,
Bela crônica!
Parabéns!
Marluce
Singela, crítica e bem-humorada. Gostei muito.
Um abraço.
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