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Diálogos da esfinge (XX) - Na imensidão do lago

José Afonso Viana
1
Cida Almeida · Goiânia, GO
21/6/2007 · 89 · 1
 







Os OLHOS CLAROS da esfinge no BAILE de MÁSCARAS


E a correnteza das águas levando um carro desligado...



Uma tempestade, um carro desligado à deriva, uma aflição quanto a

manter o controle da direção e a atitude de ligar o motor, EU e a

ESFINGE no esconde-esconde dos sentimentos tortos e

perturbadores, e a escapada do perigo para as sombras do BAILE

de MÁSCARAS. E os OLHOS CLAROS da esfinge. Essa aparição da

esfinge, beirando a perdição total, cravou em mim uma consciência

de pressentimentos, aqueles que chegam de jeito inesperado para

trazer à tona o que no fundo se sabe perfeitamente bem, mas não

boiou na consciência como um peixe morto na superfície de um

lago de águas aparentemente estáticas. A visão em movimento

mexeu com os meus nervos e o meu olhar. Impossível ignorar as

aparições do oráculo, seus avisos enigmáticos, as tabuletas na

porta do meu templo particular. Um carro desligado sendo

engolido pela voracidade das águas de uma tempestade inesperada,

violenta, assustadora. Implorei ajuda, pedi com todo o desespero

dos dias possíveis desmoronando às nossas costas, mas a recusa

passiva me atingiu como um golpe no estômago. Mesmo com o

carro desligado, os braços cruzados ante o que me devorava

também por dentro e pelas beiradas, assumi a direção daquele

veículo morto, como quem toma um remo frágil às mãos de um anjo

atônito para duelar com as águas de um Posseidon de mau humor e

que encontrou a diversão de um brinquedo momentâneo.

Estranho, lembro agora, girei o volante à esquerda e já bem no

centro das águas bravias assumi sozinha o risco do caminho mais

perigoso, conscientemente o mais difícil... À esquerda, o caminho

do coração. Não sei como, um cicerone estranho, familiar, surge

do nada, após a turbulência, e faz uma estranha condução para o

BAILE de MÁSCARAS. Uma movimentação lenta e sombria dominava o

cenário e o espaço daquele inusitado salão, seres seminus

transitavam incógnitos, com uns olhos que comiam fundo uma fome

existente e transbordante no meu coração. Presságios, aflições e

um desassossego antigo de ver e sentir o que não compreendia, o

que não aceitava, mas contaminava a claridade dos meus dias à luz

do SOL. Os OLHOS CLAROS da esfinge assumiram o controle do

BAILE, e travestiram-se em um corpo familiar, ambíguo, numa

simbiose perfeita para me dizer o NOME, com a casca e o miolo da

compreensão. Os OLHOS da esfinge pousaram dentro de mim como

os olhos de um predador altivo, acordando os enigmas dos meus

dias possíveis de paraíso para a antítese do que julgava o correr

tranqüilo do rio da minha vida. Às vezes sinto aquele BAILE, com

todos os seus simbolismos, linguagens cifradas e enigmas,

rodopiando dentro de mim e nos dias que seguem no remanso.

Aqueles OLHOS que gritaram como um enigma de resposta óbvia

dentro da esfinge ronda mais que os meus pesadelos, minhas

convicções e certezas. Os OLHOS me mostram as sombras da

claridade dos meus dias, a ausência, os cortes, as fugas, o não

existente, os não-movimentos que circundavam as minhas procuras.

Aqueles OLHOS lançaram uma centelha de inquietação que havia

esquecido, ou pelo menos tentado esquecer. E essa minha

inquietação duela com os OLHOS da esfinge, todos os dias. Difíceis

OLHOS de alcançar o cerne da visão que diz TUDO. O ímpeto é

chegar lá, arrancar esse olho profundo e deixar vazar o LAGO que

me contempla dentro dos OLHOS, com os seres que às vezes bóiam

e me contam partículas do MISTÉRIO que também dorme dentro do

meu olho que vê e perscruta as grutas atrás de cada fenda...


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Autoria
Cida Almeida
Ficha técnica
Diálogos da esfinge
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Saramar
 

Cida, estou lendo esses diálogos, confesso, com olhos de encantamento.
Porém, quero juntá-los todos e me sentar ali no quintal para degustar, como produto de perfeita safra que são.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 20/5/2007 02:04
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